Zuenir Ventura aos 90

“Pessoalmente, não tenho do que reclamar. Sou feliz. Tenho netos, filhos, uma família ótima. Sou mais feliz hoje do que quando era adolescente”, diz o escritor e jornalista Zuenir Ventura, que nesta terça-feira (1º de junho) completa 90 anos.

No entanto, o jornalista, que durante mais de seis décadas viu e cobriu as maiores transformações da sociedade brasileira — do suicídio de Getúlio Vargas à ditadura militar, passando pela explosão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro —, diz nunca ter visto tanta crise no Brasil quanto agora.

“É muita crise acumulada: política, ética, moral, econômica, de saúde, etc. E um desprezo assustador em relação à vida humana. Então, diante disso, não posso comemorar muito. Só não sou mais feliz por causa do país. Essa é a contradição.”

Apesar dos reveses do país, a cultura brasileira tem muito o que comemorar por ter Zuenir entre seus pensadores. Nascido em Além Paraíba, no interior de Minas Gerais, ele faz parta da “segunda diáspora” mineira a desembarcar no Rio de Janeiro, junto com nomes como Affonso Romano de Sant’Anna e Fernando Gabeira — a primeira foi a geração de Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, os conhecidos quatro cavaleiros do apocalipse.

Zuenir Ventura: “Sou mais feliz hoje do que quando era adolescente”.

Mineiro, mas carioca

“Como todo bom carioca, sou mineiro”, diz o bem-humorado Zuenir, em conversa por telefone. Ele foi o primeiro a falar à série “Depoimentos Cariocas”, projeto que entrevista veteranos do Rio, de nascimento ou coração, sobre a cidade. E Zuenir é figura-chave do Rio dos últimos 50 anos. Um exemplo prosaico disso é que foi a figura que mais participou da Bienal do Livro do Rio.

“Gosto muito do Rio, não me imaginaria morando em outro lugar. Mas o fato é que o carioca não sabe votar. É só olhar para os últimos governantes da cidade, vários deles foram presos”, diz. “Na verdade, gosto mais do carioca do que da cidade. Admiro a resiliência desse povo.”

Zuenir, ainda criança, primeiro chegou a Nova Friburgo, a 130 km da capital fluminense. O pai, seu Zezé, pintor de paredes, levou a família para morar na cidade natal. E a partir desse deslocamento, Zuenir construiu sua trajetória de self-made man. Seu primeiro emprego foi como ajudante do pai, na pintura, depois engatou uma série de outros trabalhos.

Foi office-boy, jogador de basquete, arquivista, professor universitário e jornalista. Tudo isso, diz, numa maneira meio acidentada, quase por acaso. Zuenir se mudou para o Rio, aos 20 anos, para cursar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil (atual UFRJ).

Manuel Bandeira foi professor de literatura hispano-americana de Zuenir na universidade.

Entrando no jornalismo

Lá, teve aula com Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. O jornalista lembra com nostalgia e muito orgulho de uma tarde de 1954 que passou no apartamento de Bandeira, conversando e admirando a biblioteca do poeta pernambucano. “Ele tinha muitos livros, e fiquei lá observando tudo o que ele lia”, diz sobre seu professor de literatura hispano-americana na universidade.

Outro professor, Hélcio Martins, arrumou-lhe um emprego no arquivo da Tribuna da Imprensa, o jornal de Carlos Lacerda, que Zuenir diz ter sido um “péssimo político, mas um excelente jornalista e editor”.

E foi lá que o jornalismo entrou de verdade na vida de Zuenir. A pedido de Lacerda, ele escreveu um obituário do romancista e filósofo franco-argelino Albert Camus, que havia morrido em um acidente de carro. O artigo foi um sucesso e virou piada na redação: “O contínuo do arquivo é um gênio”, era o que se dizia nos corredores do jornal. “No outro dia, me chamaram para a redação”, recorda.

Desde 1963, passou por diversos jornais: foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro, editor-chefe da sucursal do Rio da Veja. Depois foi para o Jornal do Brasil e, desde os anos 1990, é colunista de O Globo.

Reedição

Essa e muitas outras histórias deliciosas e instigantes estão em Minhas histórias dos outros, lançado originalmente em 2005 e reeditado agora, com novos capítulos, pela Objetiva. É o que Zuenir chama de livro “alterbiográfico”, um trocadilho com sua biografia, porque, segundo ele, o livro fala mais dos outros do que de si mesmo. Modéstia de um homem que parece estar sempre no lugar certo, com as pessoas certas, munido da competência certa.

Um dos capítulos mais interessantes é “Quatro Antônios geniais”, em que Zuenir esmiúça o making of do documentário 3 Antônios & um Jobim, do cineasta Dodô Brandão, no qual participou como entrevistador. No filme, aparecem Antonio Callado, Antonio Houaiss, Antonio Candido e Antonio Carlos Jobim.

“Cada um deles sozinho já é um livro. Juntos, são uma enciclopédia. Brilhantes, gaiatos, eruditos, esses quatro Antônios são verbetes feitos de superlativos”, foi como o grupo foi apresentado por Zuenir no filme.

A trajetória de Carlos Drummond de Andrade é contemplada na nova edição de Minhas histórias dos outros.

Os reclusos

Entre as histórias “novas” que entraram nesta reedição, dois escritores estão no centro: Carlos Drummond de Andrade e Rubem Fonseca. Grandes autores conhecidos por suas produções literárias e pela reclusão.

Em 1977, quando trabalhava na sucursal da revista Veja, no Rio de Janeiro, Zuenir recebeu um telefonema de uma assessora de imprensa da editora José Olympio. Ela ligava a pedido de Drummond, que depois de se esquivar por anos de entrevistas, gostaria de falar. Achando que era trote, não atendeu. Mas no outro dia, a assessora voltou a ligar e a entrevista foi feita.

Não antes de Zuenir ter que convencer o editor-chefe de que o papo valeria a pena. “O que adianta ser o maior poeta do Brasil e vender cinco mil exemplares?”, foi a primeira coisa que o editor falou a Zuenir — uma frase ainda atual, se trocarmos “venda de livros” por “likes”.

Fonseca em Cuba

Com Rubem Fonseca, o espanto foi “ao vivo”. Zuenir e o autor de Feliz ano novo conviveram durante um mês em Cuba, quando em 1995 faziam parte do júri do prêmio Casa de las Américas. Nesses dias, caiu por terra a persona de recluso que Fonseca construíra no Brasil.

“Lá não teve nada disso”, relembra Zuenir. “Ele tinha até mesmo uma fotógrafa oficial, do governo cubano, que o acompanhava em todo lugar, fazendo imagens. Zé Rubem estava animado, fazia piadas, socializava com todos.” Os dois chegaram até a fazer uma entrevista com Fidel Castro, que nunca foi publicada, pois as “fitas” foram confiscadas por assessores do Comandante.

“Fiquei intrigado e perguntei ao Zé Rubem: por que no Brasil você se esconde? ‘Nem eu sei’, ele disse. ‘Tenho medo da celebridade, não quero ser Chico Buarque’”, diz o jornalista, relembrando também os encontros com o amigo no Leblon, para andar de bicicleta.

Rubem Fonseca fugia dos holofotes no Brasil, pois tinha medo de virar um Chico Buarque.

Livros

Zuenir Ventura, que desde 2015 ocupa a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, é autor de relativamente poucos livros, mas todos de sucesso, de crítica e vendas. Excetuando duas incursões pela ficção — o romance Sagrada família e o híbrido Mal secreto (misto de romance e reportagem) —, sua obra é toda jornalística, com esse toque memorialista que também virou marca de sua escrita.

E seu maior sucesso é um livro que segue atual desde 1989, quando foi publicado pela primeira vez. 1968, o ano que não terminou virou best-seller, leitura obrigatória nos cursos de comunicação e livro de cabeceira de muita gente.

Misturando as técnicas da reportagem, que domina como poucos, com uma sofisticada prosa literária, Zuenir narra como transcorreu no Brasil o ano que, através do mundo, iria se tornar lendário por conta de manifestações estudantis contra o sistema.

“A geração de 68 foi heroica. Abriu mão de tudo pelo país”, diz o escritor, que começa seu livro com a morte do estudante Edson Luis Lima Souto, de 18 anos, com um tiro à queima-roupa no peito, disparado pela PM dentro do restaurante estudantil Calabouço, no Rio. Foi o estopim para um ano que demorou a terminar.

“Fala-se muito do maio de 68 na França. Mas aqui foi bem pior, a geração brasileira foi a que mais sofreu com a ditadura.”

Com mais de 300 mil exemplares vendidos hoje, Zuenir não acreditava em 1968 quando o escreveu. Achava que “não daria em nada”. “Escrevi em dez meses, à noite e na madrugada, na redação mesmo, quando acabava meu expediente.” O esforço foi recompensado, pois o livro certamente terá vida longa na literatura brasileira.

Glauber Rocha foi, segundo Zuenir, o nome mais brilhante da cultura brasileira nos últimos 70 anos.

Gênio da raça

Mas para um homem que conheceu e conviveu com tantas pessoas interessantes, que fizeram a cultura brasileira girar nos últimos 70 anos, quem seria o mais brilhante nome desse período? “Foi o Glauber Rocha, com certeza”, diz Zuenir, lembrando-se rapidamente de que estava com o cineasta em Cannes quando Deus e o diabo na terra do sol, segundo longa-metragem do baiano, foi aclamado pela crítica internacional. “Na hora da coletiva, o Glauber teve um desarranjo e correu para o hotel. O Nelson Pereira dos Santos teve que substituí-lo.”

“O Glauber era um vulcão. A cada crise no Brasil, ele adoecia. De tanto que se preocupava com o país. O Glauber morreu de Brasil.”

No final de Minhas histórias dos outros, Zuenir explica sua opção de narrar episódios menos “ásperos” de sua trajetória, buscando um tom mais bem-humorado e pra cima, pois diz não gostar de “jornalismo de cólera e rancor”. “O que pretendi mesmo, e adoraria ter realizado, foi cumprir a tarefa essencial do jornalista, que é ser testemunha de sua época.” Missão cumprida.

Zuenir estava lá

• No maio de 1968 em Paris

• Na Tribuna da Imprensa, trabalhando ao lado de Carlos Lacerda

• Na estreia em Cannes de Deus e o diabo na terra do sol, segundo filme de Glauber Rocha, aclamado no festival

• Em Cuba, com Rubem Fonseca no júri do prêmio Casa de las Américas

• No que viria a se tornar a UFRJ, tendo aula com Manuel Bandeira

• Cobrindo os desdobramentos da morte do seringueiro Chico Mendes

• Na explosão da Aids, nos anos 1980

• Na guerra anunciada contra o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, nos anos 90

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Minhas histórias dos outros
Zuenir Ventura
Objetiva
231 págs.

1968: o ano que não terminou
Zuenir Ventura
Objetiva
328 págs.