Vozes LGBTQIAP+ encerram a Bienal do Rio 2021

Vozes LGBTQIAP+ participam, neste domingo (12), do último encontro da Estação Plural. O espaço é palco dos amplos debates realizados ao longo dos dez dias da Bienal do Rio 2021 — marcada pela pluralidade e discussões de temas urgentes, como diversidade, inclusão, saúde mental e feminismo.

Na mesa que encerra o evento, “Vozes LGBTQIAP+: o que vem pela frente?”, o escritor e jornalista Felipe Cabral — mediador do encontro e um dos curadores da Bienal — levou em conta a dúvida que norteia os bate-papos da Estação Plural (“Que histórias a gente precisa contar agora?”) para reunir Amiel Vieira, Letícia Nascimento, Natalia Borges Polesso, Renan Quinalha e Samuel Gomes.

Transfeminismo, intersexo e a história da trajetória LGBTQIAP+ no Brasil são alguns dos temas e questões tratados no encontro. “Eu quis trazer pessoas que estão pensando o futuro”, explica Cabral. “Que tenham pautas e questões ainda não tão valorizadas. Ou, ainda, que precisam ser debatidas mais a fundo ou merecem esse espaço de protagonismo dentro do debate.”

Felipe Cabral, Natalia Borges Polesso e Samuel Gomes.

Uma mesa necessária e artística

Para a escritora gaúcha Natalia Borges Polesso, vencedora do Prêmio Jabuti 2016 com os contos de Amora e autora do romance distópico A extinção das abelhas (2021), a reunião dessas vozes é uma “tomada de espaço”.

“Mais do que nunca, nossos corpos e todas as tensões políticas, sociais e culturais que eles movem precisam estar na cena. Para além de sermos pauta, precisamos exercer nossos complexos lugares de fala.”

Natalia destaca, ainda, o fato de sentir que o movimento LGBTQIAP+ caminhou muito nos anos recentes — por mais que, ao reler os Morangos mofados de Caio Fernando Abreu (1948-1996), ela tenha percebido que “muitas das angústias dele ainda são nossas”. 

Angústias passadas e temas atuais

A melhor forma de entender o futuro, às vezes, é visitar um passado desconhecido. “Renan Quinalha vai para o passado a fim de mostrar que as histórias que a gente não contou talvez sejam as próprias histórias do movimento nacional LGBTQIAP+”, diz Felipe Cabral sobre o autor de Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT.

Retornando ao presente, Letícia Nascimento aborda um tema atualíssimo no livro Transfeminismo (2021). De acordo com Cabral, a autora propõe um avanço ao chamar a atenção “para o feminismo abraçar também o transfeminismo, as mulheres trans, as travestis para dentro desse debate”.

Letícia Nascimento, Renan Quinalha e Amiel Vieira.

“Samuel Gomes”, por sua vez, “é negro, gay, vem da periferia, cresceu numa família religiosa”, diz o mediador. A presença do autor de Guardei no armário (2020), então, é imprescindível por proporcionar o debate de questões raciais e sociais.

A outra voz da mesa, de Amiel Vieira (presidente da Associação Brasileira Intersexo), reforça ainda mais a ideia de se discutir a diversidade. “Que olhar a gente tem tido para as questões da comunidade intersexo? Que pensamentos estão sendo gerados? Que livros estão sendo escritos?”, questiona Cabral, dando uma amostra do tom político que deve prevalecer no último encontro da Estação Plural.

Uma Bienal de vitórias

A Bienal de 2019 presenciou um ato de ódio à comunidade LGBTQIAP+, quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, tentou censurar a circulação da HQ Vingadores: a cruzada das crianças, de Allan Heinberg, que traz um beijo gay em suas páginas.

Agora, no evento de 2021, o estande do Grupo Editorial Record — localizado ao lado da Estação Plural — traz uma grande imagem do beijo entre rapazes que estampa O primeiro beijo de Romeu, romance de estreia de Felipe Cabral.

“Se em 2019 o beijo dentro de um quadrinho gerou aquele rebuliço inteiro e fomos vítimas de uma tentativa de censura, neste ano a vitória está dada do começo ao fim”, diz Cabral. “Espero que a Bienal continue sempre de braços abertos, acolhendo nossas vozes e vitórias.”