Versão em HQ de “O castelo” reforça todo absurdo kafkiano

As grandes obras de Franz Kafka (1883-1924) buscam transmitir o absurdo da existência e se ocupam em descrever os infernos burocráticos da vida. Na escrita do tcheco, a angústia é incontornável, sufocante. Quando se fala em O castelo, um de seus principais romances, não é nada diferente. Na recém-lançada versão em HQ, com roteiro do nova-iorquino David Zane Mairowitz e ilustrações de Jaromír 99, o clima todo é ainda mais palpável.

Na história dos quadrinhos, K. chega ao Albergue da Ponte, tarde da noite, próximo ao castelo — que o personagem ainda não conhece, e talvez nem vá conhecer — do conde de Westwest. Não há quartos disponíveis, então o agrimensor se deita em um saco de palha. E os indícios de que nada vai ser bem como o planejado começam cedo.

“Este vilarejo pertence ao castelo”, K. é informado por um homem altivo que o acorda. “Para ficar aqui, o senhor precisa da permissão do conde.” Não demora para que o personagem, que vive usando a cartada de ser agrimensor para tentar se enturmar com os camponeses, sofra mais e mais represálias. O pessoal do vilarejo parece funcionar como uma extensão do castelo, inalcançável, pronto para repelir um visitante indesejado. Quanto mais é rejeitado, mais K. fica obcecado.

Personagem da HQ O castelo se aproxima do Albergue da Ponte.

Kafka: curiosidades e trajetória

  • Nasceu em Praga, na Tchéquia, em 1883
  • Cursou Direito e trabalhou em uma companhia de seguros
  • Teve uma relação difícil com o pai, um comerciante bem-sucedido
  • Essa convivência resultou no livro Carta ao pai
  • Produziu bastante literatura em vida, escrevendo em alemão, mas não teve grande reconhecimento
  • Duas de suas maiores obras, O processo (1925) e O castelo (1926), foram publicadas postumamente
  • Além dos romances, escreveu contos; “Um artista da fome” é dos mais conhecidos
  • Já com a saúde frágil em decorrência da tuberculose, pediu ao melhor amigo, Max Brod, que queimasse seus escritos
  • O pedido não foi atendido, o que potencializou um “pequeno” conflito:
  • No livro O último processo de Kafka, Benjamin Balint mostra a batalha atual entre Alemanha e Israel e uma senhora octogenária pelos inéditos do autor
  • “Tudo que não é literatura me aborrece” é uma das frases mais reproduzidas de Kafka
  • Morreu em Kierling, na Áustria, em 1924

Humor único

No romance O castelo (2016), publicado depois da morte de Kafka, o clima angustiante da HQ se repete. Tratando-se da narrativa original, no entanto, é natural que tenha mais detalhes. A prosa enxuta do autor de língua alemã, que abre mão de floreios, contribui bastante para uma espécie de naturalização do absurdo que está sendo descrito.

Em Kafka, tudo é muito estranho e, ao mesmo tempo, perfeitamente normal — como a obsessão de K. pelo castelo, por exemplo, ou como os habitantes da aldeia tratam o local e seu dono, o conde, de forma quase santificada. Apesar de tudo isso, não dá para esquecer que há um humor meio macabro permeando esse estilo.

O norte-americano David Foster Wallace tem um famoso ensaio chamado “Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante”, em tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari, que joga luz sobre o estilo do tcheco:

Não há jogos de palavras correntes nem acrobacia aéreas verbais, e pouco no que se refere a tiradinhas jocosas e sátiras mordazes. Não há humor baseado em funções corporais em Kafka, nem insinuações sexuais, nem tentativas estilizadas de se rebelar transgredindo as convenções. Nem comédia pastelão pynchonesca com cascas de banana ou adenoides fora de controle. Nem priapismo rothiano, metaparódia barthiana ou lamúrias à moda de Woody Allen.

Levando em conta a análise de Foster Wallace, que cita os estilos de escrita de Thomas Pynchon (pynchonesco), Philip Roth (rothiano) e John Barth (barthiana) a título de comparação, talvez reste uma pergunta: mas onde é que está esse humor de Kafka, então? Na seriedade com que todo tipo de absurdo é descrito, tudo indica, como se aquilo não fosse nada mais que obviedades. A jornada de K., em O castelo, seja no livro ou na HQ, está aí para mostrar isso.

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O castelo
Franz Kafka
Adaptação: David Zane Mairowitz
Trad.: Alexandre Boide
Ilustrações: Jaromír 99
L&PM
144 págs.