“Velhice transviada” narra trajetória do primeiro transgênero masculino do Brasil

O carioca João W. Nery (1950-2018) é considerado o primeiro transgênero masculino do Brasil. Como todo mundo que resolve dar um passo em direção contrária à exigida pela sociedade, ainda mais em plena Ditadura Militar, precisou lidar com várias pedras no caminho — as quais contornou, segundo memórias reunidas no livro Velhice transviada, de cabeça erguida. E muito bom-humor.

O tom leve do texto não significa que a obra é engraçada, claro, pois trata de um tema muito duro: os percalços que pessoas trans têm não só ao longo da vida como, principalmente, em idade mais avançada. No prefácio, Jean Wyllys — que foi amigo próximo de João — dá uma ideia da situação:

Quando não é o suicídio decorrente da depressão produzida pela transfobia ou homofobia ou não são as doenças sexualmente transmissíveis como a aids (ainda uma causa de mortalidade entre gays e travestis jovens pobres, principalmente entre os pretos), é o homicídio motivado pelo ódio à orientação sexual ou identidade de gênero que impede muitas lésbicas, gays, travestis, transexuais e bissexuais de terem uma vida mais longa.

João é um dos poucos que conseguiu ter uma vida longa — tornou-se um “transvelho”, conforme definição criada por si mesmo para identificar pessoas trans com mais de 50 anos. Ele foi levado pelo câncer, em outubro de 2018, dois dias após concluir o epílogo de Velhice transviada.

Apesar de estar com a saúde muito debilitada ao redigir o que seriam suas últimas palavras, o autor deixou uma mensagem que diz muito sobre quem ele foi: “As gerações futuras estão precisando de beleza, de amor, do que nos fortalece no que há de melhor no ser humano”.

João W. Nery, autor de Velhice transviada. Foto: Divulgação/Companhia das Letras

Trajetória (resumida) de João W. Nery

  • Nasceu em corpo de mulher, no Rio de Janeiro (RJ), em 1950
  • Catava guimbas de cigarro, aos seis anos, em um ato que considerava de transgressão
  • Foi levado num psicólogo, aos nove anos, porque seu comportamento era considerado muito masculino
  • Saiu de casa aos 22 anos, para viver com a mulher que amava
  • Aos 26, escreveu para a mãe, de quem era bem próximo, comentando o desejo de fazer a transição
  • A operação de “mudança de sexo”, como era chamada na época, ainda era proibida; o período é o da Ditadura Militar
  • Após as cirurgias, precisou refazer todos seus documentos por meios alternativos, já que a papelada antiga ainda identificava João como mulher
  • Passou 30 anos fazendo bicos para sobreviver
  • Tornou-se um ativista dos direitos humanos em 2011, aos 61 anos, depois de lançar Viagem solitária
  • Morreu em outubro de 2018, em decorrência de um câncer agressivo, dois dias depois de concluir o epílogo do livro Velhice transviada

Percalços e literatura

O caminho de João, da infância à transição, foi marcado por problemas recorrentes na vida das pessoas trans. “Fui caminhando aos trancos e barrancos, atravessando barreiras com uma ingenuidade tão espontânea que, a princípio, nem percebia direito os carões, os afastamentos e as reprovações”, explica. “Elas vinham dos colegas e funcionários da escola, dos garotos da pracinha onde brincava e da própria família.”

No meio desse redemoinho, em um momento que o próprio João não entendia direito o que estava sentindo, uma amiga de sua irmão apresentou-lhe ao Pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e ao romance O poço da solidão, de Marguerite Radclyffe Hall.

Apesar de o segundo livro ter marcado João com mais força, já que se trata de uma narrativa longa sobre um relacionamento homossexual, os ensinamentos oferecidos pelo trabalho de Saint-Exupéry ampliaram os horizontes do autor: “Questionar o mundo à minha volta como não sendo único, rígido e cheio de cagação de regras foi de um alívio libertador”.

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Velhice transviada: memórias e reflexões
João W. Nery
Objetiva
176 págs.