Vanessa Passos, vencedora do Prêmio Kindle, fala sobre “A filha primitiva”

A cearense Vanessa Passos foi a grande vencedora da 6ª edição do Prêmio Kindle de Literatura. O romance A filha primitiva será editado em março pela Record. E Vanessa ainda recebe R$ 50 mil em premiação.

O livro, diz a escritora, foi burilado à exaustão. Na história, três gerações de mulheres cearenses enfrentam dramas recorrentes. A temática se aproxima do enredo de Torto arado, de Itamar Vieira Junior, e Vanessa confirma que o livro do baiano, fenômeno de vendas, foi também uma inspiração para ela.

Mas a autora cita outros três livros que foram imprescindíveis: Uma duas, de Eliane Brum, O filho eterno, de Cristovão Tezza, e Com armas sonolentas, de Carola Saavedra. Todos se conectam por narrarem relações familiares fraturadas. “Esses três livros, em especial, foram importantes neste processo de criação”, diz em entrevista à Bienal 360°

Com o objetivo de continuar escrevendo sobre mulheres, ela fala sobre a importância do curso de escrita criativa em sua literatura e já planeja o futuro após sua estreia nacional no romance.

“Espero que o livro alcance cada vez mais leitores, que abra espaço para diálogos em eventos literários, clubes de leitura, rodas de conversa, escolas. A relação entre escritor e leitor é fundamental e o livro só faz sentido se chegar às pessoas.”

Vanessa Passos: “A relação entre escritor e leitor é fundamental e o livro só faz sentido se chegar às pessoas”.

Primeiramente, você poderia falar brevemente de sua trajetória na literatura?
Minha trajetória começa desde cedo com a obsessão pela leitura e pela escrita. Eu era muito tímida, me escondia na biblioteca da escola e os livros foram os meus primeiros melhores amigos. Daí surgiu o desejo de criar minhas próprias histórias. Nasci em 1993, em Fortaleza (CE), e atualmente vivo em Porto Alegre. Sou escritora, professora de escrita literária, produtora cultural e mediadora de leitura. Tenho doutorado em Literatura Comparada pela UFC e curso pós-doutorado em Escrita Criativa na PUCRS, com orientação do Luiz Antonio de Assis Brasil. Participei da Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada pelo Assis Brasil. Além disso, tive textos vencedores em concursos literários e participação em antologias. Sou autora dos livros Manual de estilo e criação literária com a artesã Lygia Bojunga (2018), resultado da minha dissertação de mestrado, Fábrica de histórias (2019), um livro infantojuvenil, e A mulher mais amada do mundo (2020), de contos. A filha primitiva (2021), que foi vencedor do 6º Prêmio Kindle de Literatura, é meu romance de estreia. Escrevo e leio todos os dias para me manter viva e, respondendo Rainer Maria Rilke, sim, eu morreria se deixasse de escrever.

Seu livro narra a vida de mulheres cearenses de uma mesma família. Como surgiu o start pro romance?
Partiu da observação. Me dei conta de que existiam traumas que passavam de mãe para filha, e que o silêncio e os segredos permeiam muitos dramas familiares. Daí surgiu minha tríade de personagens centrais do romance A filha primitiva: avó, mãe e filha. Partindo da investigação da vida, dos desejos, dores e o passado dessas mulheres o romance foi sendo construído.

Torto arado, o livro mais bem-sucedido da literatura brasileira nos últimos anos, também trata da vida de mulheres no Nordeste do país. Você leu o livro de Itamar Vieira Junior? Foi uma referência para você?
Sim. Tive a oportunidade de ler Itamar Vieira Junior e também de tê-lo no Programa Formação de Escritores, projeto que realizo no Instagram @pinturadaspalavras, para falar sobre o seu processo criativo. Na minha literatura, busco investigar o feminino, algo que foi muito bem realizado em Torto arado, sobretudo, tendo como cenário o Nordeste. Desde que me propus escrever A filha primitiva, quis que a história fosse ambientada em Fortaleza, no Ceará. Há quem diga que fazer isso seria inserir a obra num tipo de regionalismo, mas, para mim, o regional é universal.

Você é aluna do curso de escrita criativa de Luiz Antonio de Assis Brasil, que já revelou diversos autores. Como essa experiência tem te ajudado em sua escrita literária?
Participei da Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada pelo Assis Brasil, durante todo o ano de 2021. Na época, A filha primitiva já estava finalizado. Mas trabalhei contos que serão publicados em uma antologia com os textos dos participantes da oficina e comecei a desenvolver meu segundo romance. A oficina é importantíssima para desenvolver um olhar crítico para o texto e uma maturidade literária em relação ao planejamento e escrita. Assis Brasil é um professor muito dedicado e o pioneiro no estudo de Escrita Criativa do país. Para mim, é uma honra tê-lo como orientador do meu pós-doutorado em Escrita Criativa na PUCRS. Estou imersa na escrita do segundo romance, em que trabalho com a técnica de escrita chamada in media res expandida, em que a verdadeira história é a do passado.

Sua escrita é bastante “crua”, digamos, tanto na forma quanto no conteúdo. A filha primitiva é um livro forte. Como buscou sua voz narrativa? Que autores o ajudaram a burilar sua escrita?
A busca da voz narrativa foi o mais desafiador no processo de escrita do livro. O romance já vinha sendo escrito, mas eu sabia que não tinha encontrado o tom certo. Foi depois de entender que a raiva era o fio condutor do romance e que ela mantinha viva minha narradora-personagem que o livro se materializou. Posso citar três livros, em especial, que foram importante neste processo de criação: Com armas sonolentas, da Carola Saavedra, com o espanto de se tornar mãe e o sentimento de inadequação, Uma duas, de Eliane Brum, com a difícil relação entre uma mãe e uma filha, e O filho eterno, do Cristovão Tezza, com o arco do personagem na narrativa, em que, no início, ele odeia o filho e deseja sua morte e, ao longo da história, passa a nutrir empatia e afeto.

Seu livro fala de mulheres. Quem são as autoras brasileiras que te inspiram hoje?
Muitas. Estou sempre lendo uma mulher e tive a alegria de boa parte dessas autoras que me inspiram participarem ativamente do livro A filha primitiva, como: Giovana Madalosso, que escreveu a apresentação, Natalia Timerman, escreveu o posfácio, Carola Saavedra, Andrea Del Fuego, Marcela Dantés e Nara Vidal, leram e escreveram também sobre o livro, textos que estão junto da sinopse na Amazon. Além disso, muitas outras: Natércia Pontes, Natália Zuccala, Aline Bei, Kah Dantas, Maria Elena Morán, Sheyla Smanioto e Noemi Jaffe.

O que espera do futuro depois dessa estreia nacional, digamos, pela Record? 
Espero que o livro alcance cada vez mais leitores, que abra espaço para diálogos em eventos literários, clubes de leitura, rodas de conversa, escolas. A relação entre escritor e leitor é fundamental e o livro só faz sentido se chegar às pessoas. Por essa razão, sempre estou envolvida em projetos culturais e de leitura que fomentem a leitura. Sou uma autora que depois que escreve e publica, busco abrir espaços para o livro chegar nas pessoas. Tanto é que antes mesmo do resultado de que A filha primitiva tinha sido vencedor do Prêmio Kindle de Literatura, o livro já tinha mais de 500 avaliações na Amazon. Ter o apoio e ser publicada pelo Grupo Editorial Record é uma honra. Tenho certeza de que vai abrir muitas portas e pontes para que o livro chegue ainda mais nos leitores de todo Brasil. Em março, já começa a edição do livro impresso.

E seu próximo livro, já está a caminho? Terá alguma conexão com A filha primitiva ou é uma narrativa totalmente autônoma?
Sim. Estou trabalhando desde o ano passado no segundo romance. O livro é uma história autônoma, que vai imergir no tema da loucura. Mas também será uma obra em que me lanço na investigação de personagens femininas. Costumo trabalhar com temas tabus na literatura, porque escrevo a partir do que me incomoda e me angustia, para mim, a arte não é lugar de zona de conforto, nem de respostas, e, a partir do que escrevo, espero sempre que o meu leitor não saia ileso dessa experiência.