Um passeio pelo mundo das séries

Um integrante da máfia substitui o tio na chefia da família criminosa, mas a posição de poder conflita com sua síndrome do pânico. Um gênio da publicidade muito bem-sucedido é, na verdade, inseguro e habitado por mil demônios. Um modesto professor de química do colegial descobre que tem câncer e, desejando fazer um pé-de-meia para a família, torna-se o produtor de metanfetamina mais poderoso dos Estados Unidos, tendo um ex-aluno como braço direito.

O que esses personagens têm em comum?

O primeiro é Tony Soprano, o segundo é Don Draper e o terceiro, Walter White — protagonistas das séries Família Soprano (1999-2007), Mad men (2007-2015) e Breaking bad (2008-2013), respectivamente, todas de enorme sucesso de público e crítica e responsáveis pela guinada que esse formato audiovisual vem passando há pelo menos duas décadas.

Para falar da complexidade que histórias e personagens ganharam com o passar dos anos, e discutir o fascínio que o gênero causa na audiência contemporânea, a Bienal 360º conversou com Marcelo Rubens Paiva. Ao lado da executiva de televisão Jacqueline Cantore, o escritor, dramaturgo e roteirista paulistano assina a obra Séries: o livro — De onde vieram e como são feitas, recém-lançada pela Objetiva.

Família Soprano, criada por David Chase, iniciou a chamada terceira era de ouro da TV.

União de formas

“O fascínio do público por séries, hoje, parece muito maior do que antigamente”, diz Rubens Paiva. “Há muitas delas e o formato ficou absolutamente complexo, com personagens difíceis, cheios de camadas, interessantes”, explica sobre o movimento iniciado com Família Soprano, da HBO.

A vontade de escrever o livro, segundo um dos autores, vem do que parece ser a consolidação de uma dita terceira era de ouro das produções audiovisuais. “Os personagens parecem saídos de livros de Dostoiévski, com grandes contradições”, comenta, referindo-se à prosa labiríntica do prosador russo, autor de títulos como Crime e castigo (1866) e Os demônios (1871).

E não é só da ficção escrita que a nova leva de séries se apropria. “A gente concluiu que o formato, atualmente, é a união de todas as grandes formas de artes”, explica. “É uma espécie de cinema misturado com literatura, rádio, teatro, dramaturgia, filosofia.”

Além das três produções já citadas, Rubens Paiva deixa uma breve amostragem atual — de séries “muito incríveis, que dão euforia” — para quem deseja imergir nesse universo complexo:

O conto da aia (2017), baseada no livro homônimo da canadense Margaret Atwood, Atlanta (2016), que traz o múltiplo Donald Glover no papel principal, e Big little lies (2017), cuja primeira temporada é inspirada em um romance de mesmo nome da australiana Liane Moriarty.

Marcelo Rubens Paiva: “As pessoas se veem nas séries, porque são personagens complexos e contraditórios — como todo mundo é”.

E no Brasil?

“A gente está um pouco longe de fazer uma série de qualidade internacional”, opina Rubens Paiva, lembrando que há um produto nacional consolidado: o audiovisual veiculado na televisão aberta.

É “contra” esse formato, o da TV aberta, que as séries nacionais parecem tentar competir — diferentemente do que acontece no exterior, em que elas batem de frente com o cinema.

A acessibilidade oferecida pelas plataformas de streaming, no entanto, como a Netflix e Amazon Video, permitiu ao país uma certa projeção no ramo. “A 3% [de Pedro Aguilera, exibida até o ano passado] foi uma série que fez sucesso fora do Brasil”, conta. “A gente parece viver um movimento de transição.”

Apesar de o país estar ainda tentando se aproximar da profundidade e qualidade das produções estrangeiras, Rubens Paiva cita exemplos de produtos nacionais que lhe agradaram:

Filhos do Carnaval (2006), indicada ao Emmy, Mandrake (2005-2007), baseada no personagem de Rubem Fonseca, e a mais recente Mecanismo (2018), que traz Selton Mello no papel principal.

Mad men, de Matthew Weiner, ganhou os prêmios Globo de Ouro, Emmy e Screen Actors Guild.

Identificação do público

O mix de formatos já comentado, que acaba por “pegar a audiência pelo colarinho”, é fruto da profissionalização do mercado: há grandes salas de roteiro, investimentos altos, histórias dentro de histórias, vários núcleos narrativos — todos aspectos destrinchados no livro Séries, aliás.

“O livro é perfeito para quem quer trabalhar nesse formato, porque metade dele é um manual de como se produzir uma série”, afirma o autor de O homem ridículo (2019) e O orangotango marxista (2018). “Nós explicamos como criar personagens, cenas, diálogos, subtexto, dicas importantes.”

Essa sacada de como dar mais profundidade à narrativa audiovisual, segundo Rubens Paiva, deve-se muito ao fato de que produções de sucesso como True detective (2014) e Game of thrones (2011-2019), por exemplo, foram escritas por pessoas mais ligadas à literatura do que ao cinema e televisão.

Breaking bad, estrelada por Bryan Cranston, gerou o spin-off “Better call Saul” e foi continuada no filme “El camino”, da Netflix.

Além disso, não parece haver grandes freios na hora de se retratar os podres dos personagens — e o público, diferentemente do que se poderia supor a princípio, abraçou essa maneira mais trágica de recriação da realidade: “As pessoas se veem nas séries, porque são personagens complexos e contraditórios — como todo mundo é”.

E finaliza: “O sucesso do formato cresceu muito devido à crise de 2008, quando a audiência passou a não acreditar mais no mercado, em Wall Street, no capitalismo. Passou questionar o sonho americano”.

Compre o livro na loja da Bienal Rio

Séries: o livro — De onde vieram e como são feitas
Jacqueline Cantore e Marcelo Rubens Paiva
Objetiva
232 págs.