Um novo livro de Haruki Murakami para os fãs brasileiros

O japonês Haruki Murakami é daquelas escritores que não têm apenas leitores, mas também fãs. Em sua já longínqua carreira, iniciada nos anos 1980 com romances bastante pessoais, foi angariando seguidores nas mais de 50 línguas em que seus livros foram publicados.

Agora os leitores brasileiros de Murakami têm mais um motivo para comemorar. Sul da fronteira, oeste do sol, publicado originalmente em 1992, ganha pela primeira vez tradução no Brasil em edição da Alfaguara, selo da Companhia das Letras, a casa do autor no país. Um dos livros mais cultuados do japonês, o romance é também um seus trabalhos mais sucintos para os próprios padrões de Murakami — seus livros mais aclamados são longos, tal como a trilogia 1Q84.

Sul da fronteira, oeste do sol tem sido cultuado porque é uma espécie de protótipo perfeito da literatura de Murakami, com personagens bem construídos, referências à cultura pop e a consagrada linguagem requintada do autor, aparentemente — e enganosamente — simples. A narrativa em primeira pessoa envolve o leitor desde a primeira página.

“Eu não tinha irmãos. Era filho único. E, ao longo de toda a juventude, isso me causou um tipo de complexo. Eu era uma criatura anômala naquele mundo, a quem faltava algo que todos consideravam natural”, diz o narrador. “Quando criança eu odiava essa expressão: ‘filho único’. Ela parecia reforçar aquilo que eu não tinha. Me apontavam o dedo. Você é incompleto, cara!

O protagonista, Hajime, se encaixa muito bem entre os personagens de Murakami. Um homem da grande metrópole, com uma vida estável, mas que sente um vazio existencial enorme, vive acossado pela solidão e por lembranças do passado. O Japão tradicional, dos costumes arraigados, convive com o mundo contemporâneo e pós-moderno — as referências culturais que sempre fizeram a cabeça de Murakami.

Haruki Murakami, autor de Sul da fronteira, oeste do sol.

Um pouco de Murakami

  • Nasceu em 1949, em Kioto, no Japão
  • Seus pais eram professores de literatura
  • É corredor de maratonas
  • E amante de música
  • Tem uma coleção com 10 mil vinis
  • É fã dos Beatles e casado com uma mulher chama Yoko
  • Não costuma dar entrevistas
  • Sua literatura costuma ser rotulada como “realismo fantástico”
  • Está sempre na lista dos favoritos ao Nobel de Literatura
  • Kafka é um de seus autores preferidos

Amor inesquecível

Sul da fronteira, oeste do sol também traz outro traço característico de Murakami como ficcionista: ele se tornou exímio em burlar o próprio gênero que se propõe a escrever. Neste caso específico, trata-se de uma história de amor às avessas, uma narrativa anti-romântica, embalada a jazz.    

Nascido em 1951 em um subúrbio de Tóquio, o protagonista Hajime chegou à meia-idade tendo conquistado tudo que queria. Os anos do pós-guerra trouxeram-lhe um bom casamento, duas filhas e uma carreira invejável como proprietário de dois clubes de jazz.

No entanto, ele não consegue se desvencilhar da sensação incômoda de que nada daquilo traz felicidade para sua vida. Somada a isso, uma memória de infância de uma garota inteligente e solitária cresce em seu coração. É, de certa maneira, um romance psicológico, em que Murakami faz o leitor embarcar em uma viagem introspectiva ao descrever a vida do narrador.

É como se houvesse a vida “real” de Hajime e sua vida interna, em que Shimamoto, a garota da infância, está no centro. No livro Murakami mostra como a vida pode passar ao largo de nossos sonhos e desejos mais remotos.

Grandes livros

O ponto de virada na carreira de Haruki Murakami foi o romance Norwegian wood, em uma mais do que explícita declaração de amor à cultura anglo-saxã ao homenagear o clássico lado B dos Beatles no título do livro.

Publicado em 1988, o romance tornou Murakami um best-seller, com dois milhões de exemplares vendidos. Isso ampliou de maneira considerável seu público. E daí em diante, foram hits atrás de hits: Dance dance dance, Minha querida Sputnik, Kafka à beira-mar, Do que eu falo quando falo de corrida e a já citada trilogia 1Q84.  

Nesses livros, Murakami criou um padrão narrativo que mistura o cânone ocidental literário —  do qual foi leitor fiel desde a juventude no Japão — com um enfoque simples sobre o tema em questão de seus livros —  e isso gerou e gera muitas críticas à sua literatura.

Mas Murakami parece não se importar com críticas negativas e, livro a livro, segue firme em seu propósito de mostrar suas raízes e também àquilo que o formou em histórias de alcance universal, que falam sobre amor, morte, sonho, tudo embalado a muito surrealismo.

Aliás, um de seus temas preferidos é a ausência. E a ausência do Nobel de Literatura em seu currículo é sentida todos os anos por seus milhares de leitores. Murakami tem sido um eterno favorito ao prêmio, mas nunca leva. Como em diversas de suas histórias, em vez de assumir o controle, o escritor se senta para ver onde a história irá levá-lo.

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Sul da fronteira, oeste do sol
Haruki Murakami
Trad.: Rita Kohl
Alfaguara
184 págs.