Um escritor em Hollywood: a estreia de Quentin Tarantino na literatura

O fã de cinema sabe bem o que esperar de um filme escrito e dirigido por Quentin Tarantino: diálogos absurdos, lutas icônicas (com ou sem katana), muito sangue, drogas, romances improváveis, narrativas não lineares, uma ou outra cena envolvendo pés e homenagens diversas aos clássicos da sétima arte. Agora, para complementar uma festejada carreira no audiovisual, o norte-americano estreia na literatura com o romance Era uma vez em Hollywood — adaptação de seu 9º longa-metragem, lançado em 2019, em um caminho inverso ao habitual: da tela para o livro.

É provável que em 2014, ao anunciar que se aposentaria após seu 10º filme, Tarantino já tivesse em mente essa nova empreitada — o que não é bem uma surpresa, uma vez que ele já tinha deixado claro que é fã de romances e usa recursos que flertam com a literatura em suas produções audiovisuais, como a narrativa não linear, a divisão da história em capítulos bem marcados e o uso da “voz off”, bastante presente mais para o final do filme Era uma vez em Hollywood, que funciona como uma espécie de narrador literário para as cenas do longa. 

O livro de Tarantino vem para expandir o roteiro do filme. Na trama, que se passa na Hollywood de 1969, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de western que chegou a estrelar sua própria série, mas se encontra em franco declínio — afogando as mágoas em uísque, brigando com o espelho, errando falas em medíocres papéis secundários. Quem acompanha essa queda bem de perto é seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), um faz-tudo do ex-astro — e bom amigo, também chegado da garrafa e com uma fama meio estranha nos sets de filmagem.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) no filme Era uma vez em Hollywood.

Família Manson

Além de ser uma espécie de homenagem à história do cinema, com as habituais muitas referências que marcam o trabalho de Tarantino, a narrativa de Era uma vez em Hollywood tem um pano de fundo marcante: o assassinato da atriz Sharon Tate, esposa do diretor Roman Polanski, por parte dos membros da Família Manson — seita dos anos 1960 liderada por Charles Manson.

Isso não quer dizer que, na mente de Tarantino, a história aconteça como foi na vida real. Apesar de também ter muito sangue, o longa-metragem subverte esse final trágico — a morte real de Sharon, interpretada por Margot Robbie no longa — ao contar uma história que é quase uma crônica sobre a amizade dos protagonistas, Rick e Cliff, envolvendo a ascensão e queda de um astro e mostrando muito do que há por trás das câmeras em um set de filmagem. Existe uma ação macabra da Família Manson, claro, mas você vai precisar assistir ao filme, ou ler o livro, para saber como é a versão alternativa.

Margot Robbie interpreta Sharon Tate.

Carreira de sucesso

A formação acadêmica de Tarantino aconteceu na locadora de filmes Video Archives, em Manhattan Beach, na California, onde ele começou a trabalhar aos 22 anos. O diretor conta que esse emprego foi sua primeira maneira de tentar se expressar artisticamente, e ele o fazia organizando prateleiras com clássicos de seus diretores preferidos. Além disso, o cinema sempre foi central em sua vida. “Alguns garotos curtem esportes, outros curtem carros. Eu sempre curti filmes”, explica.

Para alguém aficionado por cinema, não é surpresa que seu primeiro longa-metragem — Cães de aluguel (1992) — já tenha dado o que falar. Além de trazer nomes como Harvey Keitel e Tim Roth no elenco, o filme foi exibido no Festival de Cannes e escolhido pela revista britânica Empire como a melhor produção independente já feita. Os elementos que fariam de Tarantino um dos maiores de sua geração estavam nesse trabalho de estreia, que foi avaliado mais de 940 mil vezes no IMDb e tem a nota de 8.3/10. 

O sucesso, logo de primeira, pode ser visto como uma amostra do que estaria por vir. Era uma vez em Hollywood, lançado quase três décadas após Cães de aluguel, foi indicado a cinco Globos de Ouro, dez BAFTAS e a dez categorias do Oscar — com prêmio de melhor ator coadjuvante para Brad Pitt, que também levou o Globo de Ouro pelo mesmo papel.

Todos os filmes

  • Cães de aluguel (1992)
  • Pulp fiction (1994)
  • Jackie Brown (1997)
  • Kill Bill: volume 1 (2003)
  • Kill Bill: volume 2 (2004)
  • À prova de morte (2007)
  • Bastardos inglórios (2009)
  • Django livre (2012)
  • Era uma vez em Hollywood (2019)

Curiosidades e informações

  • A maior influência de Tarantino é o cineasta italiano Sergio Leone
  • Ganhou uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, em 2015
  • Ganhou o Oscar de melhor roteiro original por Pulp fiction e Django livre
  • Durante filmagens, quando vai repetir uma cena, entoa um mantra com seus atores: “Nós amamos fazer filmes”
  • Prometeu fazer somente mais um longa, o 10º de sua carreira
  • Estreou na literatura com o romance Era uma vez em Hollywood, adaptado do roteiro de seu filme homônimo

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Era uma vez em Hollywood
Quentin Tarantino
Trad.: André Czarnobai
Intrínseca
560 págs.