Um bruxo em Nova York

Em 2 de junho de 2020, terça-feira, uma nova tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas(1881) chegou aos Estados Unidos. Com o título The posthumous memoirs of Brás Cubas, a versão do romance de Machado de Assis (1839-1908) assinada por Flora Thomson-DeVeaux e lançada pela Penguin Classics esgotou em um dia — e só retornaria ao catálogo de gigantes como Barnes & Noble e Amazon na sexta-feira da mesma semana.

O acontecimento chamou atenção da mídia brasileira, que tentou entender o hype em cima das memórias desse “defunto autor”, como o personagem Brás Cubas define a si mesmo em suas memórias dedicadas “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”.

Uma das especulações é sobre o fato de Machado, um autor negro, ter novamente desembarcado na terra do Tio Sam em um momento de calorosos protestos antirracistas, promovidos devido ao assassinato de George Floyd por um policial branco. Nesse contexto, o público estaria de alguma forma mais aberto à narrativa.

O outro rumor a respeito dos motivos do sucesso recaem sobre o texto Rediscovering one of the wittiest books ever written, assinado pelo escritor Dave Eggers e publicado na revista The New Yorker, no qual o autor de O círculo (2013) classifica o romance, em uma resenha com vários elogios, como um dos mais vivos e atemporais de todos os tempos.

Flora Thomson-DeVeaux: “O que me surpreendeu desde a primeira leitura foi a irreverência subversiva do Machado”.

A potência das redes sociais

Para Flora, as expectativas sobre o lançamento eram modestas. Havia uma série de eventos planejados em diversas universidades dos EUA, mas a pandemia do novo coronavírus minou tudo — tornando o cenário ainda mais nebuloso.

Foi aí que, se as suspeitas da tradutora são reais, as redes sociais — e omarketing em torno do livro, veiculado pelo selo de clássicos da tradicional Penguin e alavancado por Eggers — entraram em ação.

“Hoje em dia, tendo a achar que pode ter sido o seguinte: quase um século e meio depois do lançamento, o romance realizou a proeza de viralizar”, comenta Flora, cujo tuíte sobre a publicação de sua tradução foi muito impulsionado pelo público brasileiro — o qual, ela descobriu, tem boa influência em clubes internacionais de leitura e de influenciadores literários.

Mais do que tentar cravar uma explicação, no entanto, a tradutora prefere apontar “vagamente para os imponderáveis que fazem parte dessas alquimias das redes sociais”, já que não tem acesso ao número total de vendas. E ainda brinca, a respeito desse “case de sucesso”, que consegue imaginar “Machado erguendo uma sobrancelha e Brás Cubas comemorando aos pulinhos”.

Machado de Assis em foto clássica de Marc Ferrez.

Outras traduções

De acordo com Kenneth David Jackson, professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Yale, o sucesso do livro se deve, em parte, “porque a última edição era de 1997” e “principalmente por causa do impacto do artigo [de Dave Eggers] na New Yorker, que passou para alguns jornais”.

A tradução à qual David Jackson se refere é de Gregory Rabassa. Antes dessa, versões de William L. Grossman e E. Percy Ellis circulavam nos Estados Unidos por diferentes editoras desde 1951. A de Grossman, aliás, chamada Epitaph of a small winner, foi resenhada em um vídeo no canal do YouTube Better Than Food que soma, até o momento, 347 mil visualizações.

Aos curiosos, a estreia de Machado nos EUA foi em 1917, quando o professor de Harvard Isaac Goldberg (1887-1938) traduziu um conto do Bruxo do Cosme Velho. Por todo esse tempo, no entanto, o autor brasileiro não tinha despertado grande interesse. “Acho que o público lê Machado muito pouco”, pondera David Jackson.

Vale lembrar, ainda, que em agosto de 2020 a Liveright lançou uma tradução assinada por Margaret Jull Costa, chamada Posthumous Memoirs of Brás Cubas.

Comentários à obra e sua tradução

Para além de tentar adivinhar o porquê do sucesso recente, existe o livro em si. De acordo com João Cezar de Castro Rocha, professor de literatura comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), trata-se de uma obra de “criatividade extraordinária”.

Em conversa com a Bienal 360º, Castro Rocha comentou o fato de que, antes de se ater às críticas sociais presentes na narrativa ou considerar questões extraliterárias, deve-se lembrar que sua riqueza está “numa espécie de minimalismo avant la lettre”, no que diz respeito à prosa, e ao fato de que a ideia em si do romance é extraordinária: uma autobiografia narrada por um morto, o “defunto autor”.

Levando em conta essas nuances, e a resistência natural dos leitores e editores norte-americanos às obras estrangeiras, o autor dos livros Machado de Assis: lido e relido (2016) e Machado de Assis: por uma poética da emulação (2013) afirma que Flora Thomson-DeVeaux foi muito feliz em sua versão das Memórias póstumas.

“A riqueza da tradução está no fato de que ela não retira a complexidade do autor em meio à simplicidade do discurso”, diz João Cezar. “As notas de Flora são uma real contribuição ao entendimento do texto. O público norte-americano tem a oportunidade de ler Machado como nós o lemos”, complementa.

O professor salienta, ainda, que para a publicação acontecer foi preciso a coragem de um editor disposto a fazer essa aposta na complexidade de um escritor brasileiro, já que o normal desses profissionais dos Estados Unidos parece ser “podar tudo que é muito criativo”, ainda mais quando se fala em literatura latino-americana.

Portas abertas?

O que impressionou Flora desde sua primeira leitura de Memórias póstumas foi a “irreverência subversiva” do autor. “Machado vai além do humor discreto; ao mesmo tempo em que a escrita dele se impõe, tem um quê de corrosivo que você vai percebendo, e é quase como se isso nem fosse compatível com a ideia de um cânone literário”, diz a tradutora.

“Uma das melhores definições talvez seja a de Eduardo de Assis Duarte, de que Machado é um capoeirista que dá o golpe sorrindo. É maravilhoso pensar que uma das autoridades supremas da literatura brasileira é esse ‘capoeirista’”, completa.

Para fazer jus ao autor, ela conta que procurou apresentar “o romance com o máximo de contextualização, trazendo um substrato de história e cultura nas notas de fim de livro e nas apresentações e dando aos leitores as ferramentas para se aprofundarem nesse mundo”.

Apesar de todo carinho pelo Bruxo, Flora quer um descanso. Depois de conviver cinco anos com Brás Cubas, dedicou-se à pesquisa do podcast Praia dos Ossos, que investiga o assassinato da brasileira Ângela Diniz, e vem tentando conciliar seu trabalho na Rádio Novelo com outras traduções, sem nenhum outro grande projeto definido.

Quanto às portas literárias que a proliferação de sua tradução pode ter aberto nos Estados Unidos, já que continua vendendo bem, a perspectiva não é das melhores. “Enquanto machadianista e botafoguense, tendo a ser pessimista”, brinca. “Graças ao governo atual, o Brasil é visto muito mais como uma fonte de variantes de SARS-CoV-2 do que como uma fonte de obras literárias.”