Literatura LGBTQIA+ e “O primeiro beijo de Romeu”

A literatura LGBTQIA+ tem ganhado cada vez mais espaço e facilitado o reconhecimento de diversos autores que já fazem parte da história.

Para entender melhor o cenário, trouxemos Felipe Cabral, autor do romance “O primeiro beijo de Romeu” (Galera Record, 2021), roteirista de novelas globais que contaram com a temática LGBTQIA+ em suas narrativas e, atualmente, roteirista do Prime Video.

O livro é seu romance de estreia e está previsto para ser lançado na Bienal do Livro de 2021.

O desenvolvimento da literatura LGBTQIA+ ao longo dos anos

Quantas vezes você já leu um livro com personagens centrais assumidamente LGBTQIA+? Apesar de ainda não ser uma temática comum de se encontrar na literatura de forma geral, ela está ganhando lugar e gerando uma representatividade importante.

Em 1969, em Stonewall, o gatilho para as lutas LGBTQIA+ foi puxado, iniciando a organização desse movimento no mundo inteiro. Também foi aí que vários autores e autoras LGBTQIA+ passaram a escrever mais abertamente sobre a temática em suas histórias.

No Brasil, são vários os autores LGBTQIA+ que trouxeram discussões sobre temas relacionados ao grupo em seus livros e que conquistaram espaços significativos na literatura.

Para Felipe, “é inegável que houve um avanço”. Para dar mais visibilidade ao tema, Felipe criou o canal “Eu leio LGBT” em 2017. No entanto, ele faz uma ressalva: “Eu encontrei muitas histórias onde me vi representado como homem branco e gay e é importante frisar este meu lugar de fala porque ainda existe uma carência de histórias que abarquem as outras letrinhas da nossa sigla”.

Felipe Cabral na Bienal do Livro 2019.

“O primeiro beijo de Romeu” e Stonewall

Você já ouviu falar na Revolta de Stonewall? O evento é um grande marco na história da comunidade LGBTQIA+ e aconteceu em 1969, sendo um grande estopim das lutas da comunidade. Foi também a partir desse evento que diversos autores passaram a falar mais abertamente sobre relacionamentos LGBTQIA+ em seus livros.

O livro de estreia na literatura de Felipe é também um paralelo íntimo com Stonewall. Ele conta a história do jovem Romeu, que é flagrado dando seu primeiro beijo em seu melhor amigo na escola.

O rapaz precisa lidar com todos os seus medos e inseguranças ao mesmo tempo que não quer que achem que seus pais, um casal gay, o influenciaram. Ao mesmo tempo, seu pai, Valentim, planejava lançar um livro na então Bienal do Livro do Rio de 2019, mas teve o volume censurado pelo prefeito da cidade por conter uma cena de dois rapazes se beijando.

A narrativa lhe parece familiar? Na Bienal do Livro do Rio de 2019, quando o protesto de Stonewall completou 50 anos, o então prefeito do Rio de Janeiro de fato censurou uma HQ que mostrava um casal gay se beijando.

“Um dos desafios da escrita, inclusive, foi justamente transmitir a sensação de estar no meio daquele furacão, vendo no Twitter que os fiscais da Prefeitura estavam chegando, lendo uma nota oficial da Bienal a favor da democracia, marchando com centenas de pessoas com livros LGBTQIA+s em protesto. Estávamos celebrando os 50 anos da Revolta de Stonewall e eu me senti no meio de uma revolução dos livros!”, disse o autor, que estava presente como mediador e curador de duas mesas da literatura LGBTQIA+ e viu tudo acontecer.

O que vamos ver em “O primeiro beijo de Romeu”

Felipe, que fez parte da equipe de roteiristas da primeira novela das 19h a colocar um beijo gay na TV, “Bom Sucesso”, avisa que o livro virá repleto de “personagens bem-humorados e passagens divertidas, sem nunca deixar de lado a emoção”. Também lembra que tenta tratar o tema com humor e que acredita que essa é uma ferramenta poderosa para se discutir com qualquer tema, contanto que seja respeitoso.

“A história discute a LGBTfobia, a liberdade de expressão e as novas composições familiares, para citar alguns pontos. É um livro esperançoso, otimista, mas que vai abordar temas sérios e relevantes.”, afirma Felipe.

Felipe Cabral, autor do livro “O primeiro beijo de Romeu”.

Além disso, Felipe lembra o quanto ele deu importância, no desenvolver da narrativa, a auto-aceitação. “A jornada de aceitação do Romeu é uma das coisas mais emocionantes do livro e ele contará com dois pais muito presentes e amorosos, Valentim e Samuel. É nesse núcleo familiar que está o coração da minha história”.

Para Felipe, é essencial mostrar aos jovens toda a força que cada um deles carrega e a representatividade é parte importante disso, seja através de novelas, gibis, livros ou HQs.

Autores inspiracionais LGBTQIA+

Ler autores LGBTQIA+ é essencial para entender o ponto de vista do movimento e dar visibilidade a quem passou tanto tempo marginalizado.

Felipe destaca alguns de seus autores favoritos, explorados em sua aventura literária no canal “Eu leio LGBT” e indica as graphic novels de Alison Bechdel – a autora responsável por criar o Teste de Bechdel, que avalia se uma obra apresenta diálogos entre duas mulheres cujo assunto não envolva um homem – como o quadrinho “Fun Home – Uma tragicomédia em família”, lançado no Brasil pela Editora Todavia. Felipe também cita David Levithan, autor do livro “Garoto encontra Garoto” (Galera Record) e James Baldwin, que escritor do livro “Terra Estranha” (Companhia das Letras) – que além de representante do movimento LGBTQIA+, também é negro -, Abdi Nazemian que, com seu livro “Tipo uma história de amor” (Harper Collins), adentra não só o tema LGBTQIA+ como questões migratórias e preconceito. dentre outros autores estrangeiros.

Felipe dá relevância também aos autores brasileiros que resgataram a história do movimento LGBTQIA+ no país. Aqui, ele indica uma série de autores brasileiros importantíssimos para a causa e para cada letra da sigla:

–  João Silvério Trevisan, autor que é parte importante do movimento, escritor do autobiográfico “Pai, pai” (Companhia das Letras), de “O Livro do Avesso” (Ars Poética), ganhador do Prêmio Jabuti em 1993 e que continua a lançar novas publicações;

– Renan Quinalha, doutor pela USP e advogado autor de livros sobre o movimento LGBTQIA+ como “Ditadura e Homossexualidades: Repressão, Resistência e a Busca da Verdade” (EDUFSCAR);

– Amara Moira, ativista trans, doutora e professora, autora do livro “E se eu fosse puta” (Hoo Editora);

– Vitor Martins, jornalista e escritor, autor do livro “Quinze Dias” (Globo Alt) que será lançado no mercado americano como “Here the whole time” (Scholastic).

Curtiu as indicações? “O primeiro beijo de Romeu” vai estar disponível em breve, na Bienal do Livro de 2021, e você está convidado a adicionar a obra na sua lista de desejos e se deliciar com o livro de Felipe Cabral. Aproveite e marque aquele amigo ou amiga que adora uma boa história!