Thalita Rebouças: O mundo é o limite

Se os livros de Thalita Rebouças já estavam traduzidos e espalhados ao redor do mundo, o filme Pai em dobro (produção da Netflix) está levando a autora carioca ainda mais longe. Disponível em 190 países, o longa-metragem traz, entre outros atores, Maisa Silva no papel de Vincenza e Eduardo Moscovis interpretando Paco.

Moscovis, aliás, foi o responsável por inspirar a autora a escrever o roteiro do filme, em um modo de trabalhar inédito para ela até então. “Foi muito especial para mim, já com 20 anos de carreira, fazer o processo inverso: lançar um filme e depois transformá-lo em livro”, conta ao Bienal 360º, referindo-se à obra literária, homônima do longa, lançada pela Rocco no final do ano passado.

Thalita Rebouças fez o caminho inverso e escreveu o livro a partir do filme.

O filme, que já chegou ao top 10 de mais assistidos em países como Arábia Saudita, Índia, Austrália, Estados Unidos e França, é influenciado pela relação de Thalita com seu pai. Baseada em uma adolescência agradável, ao lado daquele que foi seu “parceiraço”, a autora quis compartilhar esse amor com o mundo, utilizando diferentes mídias — é sobre isso, e outros assuntos, que ela fala nesta entrevista.

Quando e como nasceu a ideia do livro Pai em dobro ?

Nasceu em uma conversa que tive com o ator Eduardo Moscovis. A gente estava falando de fazer um filme juntos. Dois dias depois, me veio uma cena com ele [que interpreta o personagem Paco, no longa-metragem disponível na Netflix] na cabeça. Foi minha primeira história que nasceu como roteiro, obviamente por conta da profissão do Du. Sou muito grata a ele por ter me dado inspiração.

Como foi a experiência de transformar um roteiro em livro?

Foi muito especial para mim, já com 20 anos de carreira, fazer o processo inverso: lançar um filme e depois transformá-lo em livro. Foi muito mais legal do que o contrário, que é o que acontece normalmente. Adaptar um livro requer muitos cortes, adaptações. O contrário, não. No livro, o céu é o limite — não tive que cortar, mas aumentar. Adicionei diálogos que não couberam no longa, contei a vida pregressa dos personagens adultos. Foi muito maravilhoso, uma delícia de se fazer. Amei brincar disso. Quero brincar sempre.

Por que falar da paternidade no livro? Com o falecimento do seu pai, esse trabalho ganha maior dimensão sentimental?

Sou muito marcada pelo livro Fala sério, mãe!, que me botou no mapa como autora. A história, o livro, o filme [de 2017, dirigido por Pedro Vasconcelos]: sou muito grata a tudo isso. Por mais que eu também tenha escrito o Fala sério, pai!, senti que ainda estava em dívida com os pais — principalmente depois do sucesso estrondoso de Fala sério, mãe! no cinema. Por isso, com o Pai em dobro, é muito especial poder falar com 190 países sobre a figura do pai, o amor de pai. O meu pai foi uma fonte de inspiração. Os dois personagens retratados no filme são uma mistura dele. Fico extremamente triste que ele não tenha visto o resultado do trabalho, mesmo tendo acompanhado todo o processo, pois já estava muito debilitado e confuso quando o longa foi lançado. No dia que ele morreu, vi sozinha — com a certeza de que ele, que sempre foi meu amigaço, meu parceiraço, estava comigo.

Pai em dobro estreou em 190 países e já tem números impressionantes. O que espera da trajetória do filme?

É muito legal essa coisa de estar no mundo todo pela primeira vez. Apesar de meus livros estarem em mais de 20 países, filme é diferente: um monte de gente vê ao mesmo tempo, no mundo todo. E a gente foi para o top 10 em vários países: Arábia Saudita, Índia, Austrália, Estados Unidos, França. Muito bacana.

Onde você viu o Pai em dobro pela primeira vez?

Quando estreou, no dia 15 de janeiro de 2021, vi com meu namorado — que virou marido. Logo depois, rolou uma cerimônia surpresa, ele me pediu em casamento. Foi muito especial.

Qual é o poder das suas histórias? Por que elas despertam tanta emoção, sobretudo no público teen?

Não sei por que elas despertam tantos sentimentos nesse mundo teen. Acho que é porque não julgo os adolescentes, não dou lição de moral. O que tento é fazer rir, pensar, ler as entrelinhas. Sempre falo que gosto de fazer com que o adolescente tire suas próprias conclusões. Nunca vou dizer para ele o que é certo ou errado.

Traição entre amigas, que marcou sua estreia solo, foi divulgado durante uma tarde de autógrafos na Bienal do Livro Rio. Como foi a experiência?

Um grande dia na minha carreira. Eu tinha vendido 4 mil exemplares, então achei que teria uma multidão. Ninguém apareceu. Depois de uma hora de invisibilidade, uma menina fez contato visual. Fiquei muito emocionada e pensei: “Um livro, pelo menos, vou vender”. Ela perguntou: “Moça, onde é o banheiro? Estou muito apertada!”. Eu estava lá para realizar meu sonho de criança, não para dar informação. Subi na cadeira, assoviei, bati palma: “Gente. Sou escritora, não estou aqui para dar informação. Esse aqui é meu livro, bom pra caramba. Vai que fico famosa amanhã, vai que viro uma Ziralda. Vocês vão ter meu autógrafo. Aproveitem agora!”. E aí, depois do susto inicial que as pessoas tiveram, foi muito bacana. Elas devem ter pensando que, se eu estava disposta a pagar um mico daquele tamanho, é porque acreditava muito no meu próprio trabalho. Me deram uma chance e, quando vi, tinha se criado uma filinha.

Como surgiu sua relação de amor com a Bienal Rio? Quais fatos nesse evento marcaram sua carreira?

Minha carreira se faz em bienais. A do Rio tenho como um xodó, porque foi a primeira vez que gritaram e choraram quando me viram; que eu tive seguranças, grade; precisei parar de autografar tamanha a multidão. Isso que a gente não está falando de uma estrela global nem de uma youtuber famosa. Eu era uma escritora cujos livros eram famosos. Tenho muito orgulho disso. As pessoas não estavam lá por mim, mas pela ligação que elas tinham com minha escrita. E a Bienal sempre me acolheu. Digo que sou sócia, porque quanto mais passam os anos, mais dentro estou. Tenho uma lembrança muito linda da última edição, que teve a censura absurda com as pessoas indo recolher livros LGBT, o que foi muito triste: eles me chamaram para ler o manifesto do nosso repúdio à censura. Foi um evento histórico. Como eu me sinto orgulhosa por ter sido, entre tantas autoras, a escolhida para ler aquilo no último dia. Para toda imprensa. E agora, ainda, lanço meus livros na Bienal. É muito maravilhoso.

O que você faz para ter inspiração e produzir tanto?

Tudo me inspira. Uma conversa ouvida no elevador, um episódio que aconteceu na infância, uma conversa minha com uma amiga. Sou muito disciplinada: a ideia vem e eu faço, corro atrás.

Como está encarando a quarenta causada pela pandemia de covid-19?

Foi triste não poder ver minha família, todo mundo isoladinho. No começo fiquei bem pancada, com a cabeça oca, sem conseguir escrever, mas depois fui me acostumando. Muita terapia. Hoje, estou triste por tantas mortes continuarem a acontecer e torcendo muito para todo mundo ser vacinado, para que acabe esse pesadelo e tudo volte ao normal.