Terror japonês, resiliência e Améfrica no quarto dia de Bienal do Rio

O quarto dia de Bienal do Rio começou com uma presença (virtual) do outro lado do mundo. Diretamente do Japão, o mangaká Junji Ito — autor de clássicos como Tomie e Uzumaki, adaptado para o cinema e prestes a virar anime — conversou com o público brasileiro pela primeira vez, em uma transmissão com tradução simultânea para o português. O bate-papo, realizado na Estação Plural, foi mediado pela jornalista Miriam Castro, a Mikannn, e a roteirista Kika Hamaoui.

É curioso saber que para Ito, considerado um mestre dos mangás de terror e que aprecia, especialmente, os trabalhos de Kazuo Umezu e Hideshi Hino, o humor é tão importante quanto elementos sombrios. “Gosto de humor tanto quanto de horror”, explica. “Adoro comédia. É um dos meus gêneros favoritos”, citando como referências os filmes do inglês Charlie Chaplin e o quinteto de comediantes e músicos japoneses do “The Drifters”.

“Não tenho uma ideia mais profunda sobre a relação entre medo e riso, alguma filosofia a respeito, mas fico pensando: colocar uma piada no meio de uma obra de horror não vai machucar ninguém”, continua Ito, pontuando que esse toque a mais só vale se não houver uma quebra do terror, do medo — “que é a ideia da obra”, afinal.

Na literatura e no cinema, mencionando essas formas de expressão sempre exploradas pela Bienal, Ito vai desde o trabalho do escritor norte-americano H. P. Lovecraft, uma das grandes influências do mangá Uzumaki, até o filme 2001 — Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, o que indica outro tipo de narrativa bastante apreciada pelo japonês: a ficção científica.

Mas nem só o humor, a ficção e o cinema são importantes para Ito. Para se formar como artista, ele sugere que o aspirante tenha influências dos mais variados gêneros e, a partir daí, encontre “alguma coisa que realmente ache interessante e valha a pena expressar”. Um exemplo prático dessa pluralidade é que o autor japonês é grande apreciador da bossa nova — e do nosso país como um tudo, na verdade. “Se tiver oportunidade, gostaria muito de ir ao Brasil. É um dos países que me fascinam”, diz.

O mangá Junji Ito abre a programação do quarto dia de Bienal do Rio.

Whindersson Nunes escolhe continuar

“Puxa o barco”, diz o comediante e youtuber piauiense Whindersson Nunes para o escritor Gabriel Chalita, mediador do segundo encontro do dia e autor da biografia Vivendo como um guerreiro, na qual apresenta a trajetória de Nunes — um “menino gigante”, dono de uma vida “profundamente inspiradora”, segundo Chalita.

“Uma das coisas mais bonitas que Whidersson passa é uma palavra chamada autenticidade. (…) Em um mundo em que há tantas pessoas dissimuladas, usando máscaras, esse cara [Nunes] faz questão de ser quem ele é o tempo todo”, é como o mediador apresentou o entrevistado para o vibrante público, claramente emocionado na hora de fazer perguntas ao convidado, presente na Estação Plural.

A autenticidade, para Whindersson, esteve sempre ligada à ideia de que era preciso apresentar, em seus vídeos, a vida como ela é. “Tudo é tão editado, cortado. Não tem como excluir da sua vida uma coisa que é natural”, conta. “Na vida real, não tem como esconder o mosquito. Eu achava mais legal deixar isso no vídeo porque a galera via que era parecido com a vida delas. Na minha casa tinha muriçoca, na casa dela também, então já tínhamos alguma coisa em comum: muriçoca.”

Essa “pegada” humorística marcou a conversa, o que não é novidade para quem está acostumado a ver Whindersson falar. Apesar disso, temas mais pesados também vieram à tona. Aos que acham que tudo são flores, devido ao fato de o comediante ter mais de 43 milhões de inscritos no YouTube e estar se aproximando das 4 bilhões de visualizações, é bom saber que as coisas não são bem assim.

“Penso em desistir todo dia”, responde a uma pergunta da plateia. “Todo dia é um possível dia para se desistir ou para continuar. No momento em que penso em desistir, só penso, mas decido continuar. É a diferença entre pensar e agir. Pensei, mas fazer é outra história. Você pode pensar em desistir, a vida são altos e baixos. Todo tempo.”

“Se tiver um amiguinho ao lado que a vida tá sempre okay, alguma coisa tá errada”, continua. “Ele tá mostrando outra parada pra você. Tem que aprender a jogar com o fracasso. Dar um passo para trás, às vezes, é segurança. Não é desistir. Não é perder.”

A crença na resiliência em meio às adversidades levou Whindersson a tatuar no rosto o título de uma música: “Live like a warrior”, de Matisyahu. Foi a primeira canção que o comediante escutou durante sua primeira viagem para “turistar”, e depois serviu como inspiração para o título da biografia assinada por Chalita — a que melhor “dichava” sua história, aliás, segundo o biografado.

Quem eventualmente se preocupa com o fato de Whindersson ter tatuado o rosto, nesta que foi uma manobra de autoafirmação, pode ficar tranquilo: caso a marca permanente atrapalhe o trabalho do comediante, ele desconfia que terá espaço na ChilliBeans.

 “O pessoal diz que fiz a tatuagem no rosto e fiquei feio. Eu digo: ‘E eu era bonito? Ninguém me disse antes’. A galera não falou antes, fiz a tatuagem. Estraguei”, brinca. “Minha mãe também falou: ‘E essa tatuagem na cara?’. Falei: ‘Vou perder o emprego, mãe? Vou trabalhar na ChilliBeans, qualquer coisa’.”

Astrologia e literatura se combinam na mesa “Nem tão esotérico assim”.

Os sentidos possíveis

O nome da mesa do terceiro encontro do dia, “Nem tão esotérico assim”, surgiu quando Ana Paula Lisboa, mediadora e curadora do bate-papo, escutou Gal cantando uma música de Gil. Para pensar “os mistérios que não deixam de pintar, porque os mistérios sempre vão pintar por aí”, Ana Paula convidou três mulheres — Claudia Lisboa, Verônica Alves (Houhou) e Pam Ribeiro (Bruxa Preta), todas ligadas à astrologia e escrita — que ajudaram o primeiro ano pandêmico a ter algum sentido.  

“Com o aumento da incerteza, em 2020, acho que todo mundo ficou meio louco tentando achar algum sentido — para si mesmo, para o outro, para o planeta”, comentou Ana Paula, oferecendo um dado divulgado pela Fiocruz: após a proliferação da Covid-19, 61,7% da população brasileira recorreu a terapias alternativas oferecidas pelo SUS.

E, a mediadora acredita, grande parte do povo também buscou formas de autoconhecimento. Para ajudar nessa tarefa, a escrita e leitura podem ser grandes aliadas — é, afinal, “um ofício de muita resiliência, muita troca”, conforme comentário de Verônica Alves, a Houhou (apelido que busca transmitir o som que as corujas fazem), para quem “a simbologia, a metáfora, a poesia e a arte num geral são a linguagem do divino”.

A forte relação com a escrita é compartilhada por Pam Ribeiro, a Bruxa Preta, que começou a escrever poesia quando criança, na periferia da grande São Paulo. “A criança mística é fogo”, diz a criadora do portal que leva seu apelido, no qual ela escreve sobre sua espiritualidade enquanto “mulher preta na favela”, em suas próprias palavras, trazendo temas relacionados “ao Tarot e à astrologia”.

Apesar da dedicação à espiritualidade, a Bruxa Preta comenta: “Às vezes, esse negócio de se autoconhecer cansa e a gente tem vontade de se desconhecer um pouco”. O que parece ir na linha do que comenta Claudia Lisboa, autora de A luz e a sombra dos 12 signos, sobre sua relação com a escrita:

“Caio [Fernando Abreu] dizia: escrevo para não enlouquecer. Eu, ao contrário, enlouqueci para escrever. Foi exatamente o contrário”.

Tamiris Coutinho, Ana Paula Lisboa, Rodrigo França e Taísa Machado encerram a programação do dia na Estação Plural.

A potência seminal

Na última mesa do dia, Ana Paula Lisboa retornou para conduzir uma conversa surgida a partir de um conceito criado por Lélia Gonzalez (1935-1994) nos anos 1980, o de “Améfrica”, com a presença do diretor, ator e dramaturgo Rodrigo França, da criadora do projeto Afrofunk Rio, Taísa Machado, e Tamiris Coutinho, autora de Cai de boca no meu b*c3t@o: o funk como potência do empoderamento feminino.

A ideia de Gonzalez, segundo definição de Ana Paula na apresentação da mesa, é tirar a centralidade da colonização branca — inglesa, portuguesa, francesa, espanhola, alemã, holandesa — do continente americano e, a partir daí, pensar o que já existia de potência, tecnologia e invenção nesse continente milenar — com toda contribuição da população negra, tirada de seu continente originário e trazida forçadamente para cá, somada ao conhecimento dos ameríndios.

Ao pensar conexões e potências, Taísa Machado — chamada de Chefona Mermo na oficina de dança que criou — menciona a memória que o próprio corpo parece carregar para a dança e como a expressão corporal pode ser metodicamente desenvolvida. Ela destrincha melhor esse assunto na longa entrevista concedida para o livro Taísa Machado, o afrofunk e a ciência do rebolado, organizado por Marcus Faustini.  

Ainda sobre funk, Tamiris Coutinho comenta a polarização desse gênero musical que é por um lado glamorizado e por outro, demonizado. “O funk que toca na boate, na televisão, nos programinhas dominicais, é o glamorizado: a galera tenta limpar”, explica. “Agora, a partir do momento que o funk está dentro da favela, é o proibido: aquilo não presta, é coisa de bandido.”

Envolvido com as artes há 29 anos, e um dos donos do Boteco & Gafieira Seu França, Rodrigo menciona a importância de não “passar por cima das pessoas”, mesmo que vivamos em um sistema capitalista.

“Quando é de verdade nossa luta, nossa batalha, a gente vai colocar na nossa forma de obter dinheiro”, explica o autor de O pequeno príncipe preto, respondendo a um comentário da mediadora sobre como seu restaurante tem preços acessíveis e fartura. “Se eu tenho um público preto, e faço questão desse público preto, tenho que ter responsabilidade em relação ao valor e à quantidade.”