Sintonia fina entre música e literatura

A literatura de ficção está por toda parte, e hoje influencia formas de expressão que atingem públicos astronômicos — como já demonstrado pela Bienal 360º na matéria O livro vai ao cinema, que explica como o trabalho de escritores consagrados como Cormac McCarthy, Margaret Atwood e Philip K. Dick, entre outros, serviu de base para produções audiovisuais de sucesso.

Para além das séries e filmes, a literatura também influencia artistas da música — nacionais e internacionais, de estilos variados, que bebem da ficção para compor letras e, às vezes, álbuns inteiros.

Se existe aquela velha história de que o Nirvana, liderado por Kurt Cobain, foi responsável por unir todas as “tribos” na década de 1990, a literatura permite que nomes e bandas tão diferentes quanto Pitty, Zé Ramalho e Pink Floyd estabeleçam diálogo direto, entregando mensagens semelhantes a audiências que, à primeira vista, podem parecer distantes umas das outras.

A baiana Pitty inspira-se em Aldous Huxley para criar o álbum Admirável chip novo.

Huxley musicado

A distopia — gênero literário que imagina caóticos futuros alternativos para a humanidade — ganhou fôlego renovado na contemporaneidade, conforme a Bienal 360º explicou na matéria As distopias estavam certas sobre o mundo atual, e tem no livro Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley, um de seus grandes representantes.

Na música, a baiana Pitty liga-se à obra de Huxley para nomear seu álbum de estreia, Admirável chip novo (2003), que vendeu mais de 800 mil cópias e traz uma música homônima do disco falando sobre a condição robótica à qual as pessoas podem ser submetidas pelo poder vigente, por eles — bem como na obra distópica do escritor inglês, em que temas como condicionamento comportamental e manipulação psicológica são explorados.

Mais de 30 anos antes, Zé Ramalho inspirou-se na mesma narrativa para a letra de “Admirável gado novo”, segunda faixa do disco Zé Ramalho 2 (1979). Na música, que se tornou parte da trilha sonora da novela O Rei do Gado, o paraibano discorre a respeito do “povo marcado” do Brasil, os que são moídos pela engrenagem social enquanto “a vigilância cuida do normal”.

O álbum Animals, do Pink Floyd, inspira-se em clássico de George Orwell.

Orwell e Pink Floyd

No exterior, a banda inglesa de rock progressivo Pink Floyd emprestou a narrativa de A fazenda dos animais (1945), de George Orwell, para conceituar o álbum Animals (1977), que traz músicas sobre três tipos sociais representados por animais — e explorados pelo escritor inglês em sua famosa fábula: o porco traiçoeiro, detentor do poder, a ovelha submissa e o cachorro guardião.

Na primeira frase da faixa de abertura, “Pigs (Three different ones)”, o vocalista Roger Waters brinca com o final da obra e dá o tom de como o álbum se desenvolve: “Big man, pig man”, em alusão ao desfecho do livro de Orwell, cuja obra caiu em domínio público no início de 2021 e vem sendo reeditada por diferentes casas.

Na trama do livro, os animais da Granja do Solar — liderados pelos porcos Napoleão e Bola-de-Neve — se rebelam contra o dono e estabelecem um novo regime supostamente democrático, tendo como lema a máxima “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” (de acordo com tradução de Heitor Aquino Ferreira para a edição de 2007 da Companhia das Letras, quando o título ainda era A revolução dos bichos).

No decorrer da experiência, no entanto, brigas internas se instauram e os animais de maior patente começam a ter privilégios que fogem à ideia de igualdade. No final, não é mais possível saber quem é porco e quem é homem, inicialmente tido como grande inimigo.

O romance distópico 1984 inspirou David Bowie a criar o álbum Diamond dogs.

O Grande Irmão

O clássico da distopia 1984, de Orwell, descreve um mundo no qual o Grande Irmão está sempre de olho. Na fictícia Oceânia, a entidade encabeça um grupo totalitário que reprova emoções humanas e reescreve a História com total liberdade, sempre em benefício próprio.

A narrativa inspirou David Bowie a criar seu oitavo álbum de estúdio, Diamond dogs (1974). O disco, que originalmente seria um musical para a TV, reflete a obsessão do inglês pela distopia de Orwell e traz músicas como “1984” e “Big Brother”.

Na segunda faixa citada, a exemplo do que Waters fez em “Pigs (Three different ones)”, Bowie faz alusão ao desfecho — irônico, tragicômico — do romance de Orwell, no qual o rebelde Winston, protagonista da trama, consegue finalmente amar o Grande Irmão e toda opressão que vem a reboque, libertando-se da sina de ser contra o sistema vigente.

Salinger e Édipo

Outro célebre personagem rebelde da literatura, o jovem Holden Caulfield — narrador-protagonista de O apanhador no campo de centeio (1951), de J. D. Salinger — inspirou o líder do Green Day, Billie Joe Armstrong, a escrever a música “Who wrote Holden Caulfield?”, do álbum Kerplunk (1991).

Na faixa, o vocalista descreve o comportamento tipicamente adolescente de Caulfield — filho de família abastada que parece buscar na morna rebeldia uma forma de significar sua existência e, de acordo com a música, precisa ser ajudado senão vai acabar desistindo.

Ainda nos Estados Unidos, The Doors é outra banda que tem influência literária — a começar pelo nome, emprestado do livro As portas da percepção (1954), de Aldous Huxley. Notório leitor de poesia e literatura, o líder do grupo, Jim Morrison, se inspirou no trágico destino do protagonista da peça Édipo rei, de Sófocles, para escrever “The End”.

Na faixa, que tem quase 12 minutos de duração, Morrison parece tentar descrever as sensações e desdobramentos do ato de Édipo — personagem que mata o pai e se casa com a mãe, Jocasta, após uma profecia funesta do Oráculo de Delfos.

Chico Buarque e João Cabral

Um dos maiores representantes da MPB e escritor consagrado com o Prêmio Camões, Chico Buarque transita pela música e pela literatura há muitas décadas. Não é surpresa, então, que em 1966 tenha musicado — ao lado de Airton Barbosa — o longo poema Morte e vida Severina (1955), de João Cabral de Melo Neto, outro vencedor do Camões.

Como ficcionista, Chico lançou os romances Estorvo (1991), Budapeste (2003), Leite derramado (2009) e O irmão alemão (2014), entre outros, pelos quais venceu os prêmios Jabuti (três vezes), Casa de las Américas e APCA.