Sérgio Sant’Anna e a tradição do conto brasileiro

Um dos maiores escritores da segunda metade do século 20 no Brasil, o carioca Sérgio Sant’Anna morreu há um ano, vítima da Covid-19. Sant’Anna escreveu peças de teatro, romances, novelas e poemas, mas ficou conhecido pela excelência de seus contos, muitos deles transitando entre a ficção e o ensaio.

Ele deixou uma obra robusta, que impressiona pela regularidade e alto nível. Livros como O voo da madrugada, O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro e A senhorita Simpson estão entres os melhores do gênero conto publicados nos últimos 50 anos no Brasil.

Além disso, diferentemente de muitos autores que perdem o fôlego na maturidade, Sant’Anna publicou alguns de seus melhores livros em sua última década de vida, como Páginas sem glórias, O homem-mulher e O conto zero.

Histórias que demonstravam o total domínio do escritor naquilo que chamava de “narrativas”, pois achava que a palavra “conto” limitava a amplitude que dava às suas criações, que normalmente também cruzavam a zona cinzenta da ficção para entrar na autobiografia, na crítica de arte e em outros gêneros.

Sérgio Sant’Anna, morto em 10 de maio de 2020, é um dos grandes nomes da geração de contistas brasileiros surgidos nos anos 1970.

A geração do conto

Carioca, Sérgio Sant’Anna morou na juventude em Belo Horizonte. Um tempo, os anos 1970, em que o conto brasileiro viveu uma de suas fases mais férteis. Uma leva de grandes escritores apostou nas histórias curtas como plataforma ideal para suas produções. Autores como Luiz Vilela, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Sérgio Faraco, Murilo Rubião, J. J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Moacyr Scliar, Clarice Lispector, Nélida Piñon, entre tantos outros. Foi o chamado boom do conto brasileiro.

Uma época em que tanto o mercado editorial quanto a imprensa estavam tomados pela febre das narrativas curtas. Havia muitos concursos e revistas especializadas no gênero.

“Só como exemplo, a revista carioca Ficção — que circulou mensalmente durante quatro anos, de 1976 a 1979 — abrigou em suas páginas 350 contistas brasileiros contemporâneos, boa parte deles desconhecidos até então”, diz a professora Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília (UnB). Ela diz que a revista publicava exclusivamente contos, de 10 a 15 por edição, e chegou a uma tiragem de 15 mil exemplares, vendidos em bancas.

Regina Dalcastagnè: “Sérgio Sant’Anna surge nesse momento [os anos 1970], aproveita os espaços, experimenta, aperfeiçoa seus instrumentos e expande sua obra”.

“Sérgio Sant’Anna surge nesse momento, aproveita os espaços, experimenta, aperfeiçoa seus instrumentos e expande sua obra”, completa a professora, que lembra ainda da importância de Lygia Fagundes Telles, que, apesar de ter escrito romances, dedicou quase que toda sua carreira ao conto. “Ela tem um volume maior de narrativas curtas”, diz Regina, comparando a produção da autora paulista com a de outra grande ficcionista, Clarice Lispector. “Há o fato de que Lygia produziu por muito mais tempo, é claro.”

“A diferença entre a fase atual e os anos 1970 é que nas gerações mais recentes de ficcionistas os dois perfis se combinam na mesma pessoa”, diz o escritor Italo Moriconi, que há duas décadas empreendeu um ousado projeto, em que compilou Os cem melhores contos brasileiros do século.

“Não existe mais nada equivalente ao ‘contista mineiro’. Um autor ou autora publica um livro de contos agora, daqui a dois anos publica um romance e vice-versa. Noto que nos últimos anos há autores experimentando com contos de maior extensão, às vezes quase noveletas.”

Clássicos

Pode-se dizer, então, que a “febre do conto” nos anos 70 foi uma exceção em nossa história literária, o que não quer dizer que ele não tenha sido praticado por grandes autores, que se revezavam entre as histórias longas (romances) e as de tiro curto, geralmente publicadas primeiro em periódicos e depois reunidas em livro.

Italo Moriconi: “Tradicionalmente, um livro de contos era uma coletânea de trabalhos já publicados, incluindo ou não inéditos”.

“O suporte ideal e clássico para o conto é a revista, semanal ou mensal, o periódico cultural, o caderno de variedades, arte e cultura, etc. Tradicionalmente, um livro de contos era a coletânea de trabalhos já publicados, incluindo ou não inéditos”, diz Moriconi.

Era o que acontecia com muitos autores célebres, como Lima Barreto, Machado de Assis e, décadas depois, João Guimarães Rosa. Autor do clássico romance Grande sertão: veredas, Rosa escreveu contos que pairam no imaginário dos leitores brasileiros, como “A terceira margem”, presente na coletânea Primeiras estórias, e “O burrinho pedrês”, que abre Sagarana, outro célebre livro do escritor mineiro.

Machado de Assis, que se consagrou com algumas obras-primas romanescas, como Memórias póstumas de Brás Cubas, também marcou seu nome entre os maiores contistas, com histórias poderosas como “Pai contra mãe” e “Missa do galo”.

Romance x conto

O mercado editorial, e em certa medida a crítica literária, sempre fizeram questão de delimitar o espaço de cada gênero no meio literário, mas sem muito critério ou argumentos sustentáveis para isso. Então o conto acabou virando uma espécie de “primo pobre” do romance.

“No Brasil das últimas décadas parece que o escritor só é levado a sério quando publica um romance. Depois dos anos 1970, os contos meio que desapareceram das grandes editoras. A desculpa era justamente que o público não se interessava mais pelo gênero”, diz Regina Dalcastagnè.

“Foi só em meados dos anos 1990 que eles retornaram, em coletâneas importantes de grandes autores ou em antologias que fizeram muito sucesso. Mas tenho a impressão de que o romance ainda é o gênero mais prestigiado no Brasil, seja pelas grandes editoras, seja pelos prêmios literários, seja nas universidades”, completa.

Lygia Fagundes Telles dedicou grande parte de sua carreira aos contos. Várias de suas histórias se tornaram clássicas.

Italo Moriconi diz que quando começou o projeto com a editora Objetiva para lançar Os cem melhores contos do século a ideia era “ir contra essa corrente”. “O conceito acadêmico de prosa literária privilegia o romance, apesar de que o conto é mais lido em salas de aula e oficinas, pela praticidade de ser curto. Já o mercado sempre acalentou a ideia de que conto não vendia”, diz o antologista, que consultou, leu e releu cerca de 200 livros para escolher as 100 histórias que entrariam no livro, além de consultar outras 20 antologias de contos publicadas ao longo do século 20.

Ainda assim, o conto brasileiro, impulsionado pela geração dos anos 1970, construiu uma tradição que ainda dá frutos. Após a maré baixa dos anos 1980 (que também teve bons momentos, com livros como Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu), na década seguinte o conto ressurgiu com força na chamada “geração 90”, grupo de autores reunidos por Nelson de Oliveira em duas coletâneas.

“Quando fiz a antologia, a tendência era considerar contos muito longos como algo meio ultrapassado, do tempo do Edgar Allan Poe”, diz Moriconi. “Marcaram época os estilos sucintos, como o de Dalton Trevisan e do próprio Rubem Fonseca de Feliz ano novo. Chegamos até o miniconto. Mas observo que os novos autores e autoras estão encarando forçar os limites e de certa forma romper com a ideia de que curto tem que ser muito curto.”

“Acredito que o que mudou hoje foram as condições de publicação e recepção dos contistas. As redes sociais ajudam a divulgar as narrativas curtas, mas também dissolvem essa produção”, diz Regina.

Clarice Lispector, autora de contos clássicos como Os laços de família.

Dez histórias para conhecer o conto brasileiro

“Uma vela para Dario”, Dalton Trevisan: um homem morre no meio da rua e é roubado. Uma história forte sobre a perversidade humana.

“Natal na barca”, Lygia Fagundes Telles: Uma mulher com o filho doente encara uma viagem sinistra em um barco, em pleno Natal.

“O cobrador”, Rubem Fonseca: Em um monólogo colérico, o personagem central fala sobre os crimes que cometeu porque a sociedade lhe deve várias coisas, de bens de consumo a carinho.

“Pai contra mãe”, Machado de Assis: História sobre a escravidão, mostra a “luta” entre um pai branco e uma mãe negra. Uma das histórias curtas mais forte do Bruxo.

“O voo da madrugada”, Sérgio Sant’Anna: Pessoas enlutadas enfrentam um angustiante voo em um avião cheio de cadáveres. Sant’Anna constrói um relato marcado pelo terror psicológico.

“Os laços de família”, Clarice Lispector: A célebre autora mostra os conflitos psicológicos originados em um grupo familiar, seus segredos, fantasias e desejos.

“A terceira margem do rio”, João Guimarães Rosa: Tomado pela “loucura”, o personagem deste conto decide viver em sua canoa, na margem do rio.

“I love my husband”, Nélida Piñon: Uma história forte, carregada de crítica social, sobre o casamento convencional e a condição da mulher.

“Gestalt”, Hilda Hilst: Uma história carregada de metafísica sobre um matemático e um porco. Potente e enigmática, como é toda obra de Hilda.

“Sargento Garcia”, Caio Fernando Abreu: Um conto ousado sobre uma relação gay dentro de um quartel do exército.