Sensação da literatura americana, Colson Whitehead publica divertido romance policial

O norte-americano Colson Whitehead começou a publicar no final dos anos 1990, mas foi há pouco tempo que seus livros começaram a serem traduzidos no Brasil. A Harper Collins já havia lançado por aqui The underground railroad: Os caminhos para a liberdade e O reformatório Nickel, que ganharam o Pulitzer de ficção de forma consecutiva — fato raro na história da premiação.

Agora a editora traz ao público brasileiro o décimo livro de Whitehead, Trapaça no Harlem, uma obra com muito humor, sobre assaltos, golpes e crimes que tem como palco o famoso bairro nova-iorquino nos anos 1960.

Em The underground railroad, o escritor conta uma história repleta de alegorias sobre a escravidão em uma fazenda produtora de algodão nos Estados Unidos. O livro foi saudado por Barack Obama e Oprah Winfrey e comparado a Amada, o célebre romance de Toni Morrison, pelo New York Times.

Reformatório também está impregnados pela questão racial, ao ter como inspiração a história real da Dozier School for Boys, na Flórida, onde crianças condenadas por delitos menores sofreram abusos violentos durante mais de 100 anos — a grande maioria delas, claro, era negra.

Colson Whitehead, autor de Trapaça no Harlem.

O Harlem de Colson Whitehead

O novo livro, muito aguardado por conta do recente sucesso dos romances anteriores, também entra fundo na questão racial. Seu mote é uma rebelião no Harlem, ocorrida nos anos 1960, após a morte de um jovem negro por um policial branco — caso parecido com o de George Floyd, morto em maio de 2020, enquanto Whitehead terminava Trapaça no Harlem.

Mas o livro traz um pouco mais de leveza e diversão. A prosa continua eficiente, porque Whitehead é daqueles autores “de escrita fácil”, com uma narrativa que flui muito bem, aparada por ótimos diálogos que ajudam a desnudar os personagens.

No centro da trama está Ray Carney. Ele tem uma vida pacata cuidando da família e de sua loja de móveis usados. Vende um pouco de tudo: tevês, rádios, sofás. O cotidiano segue tranquilo até que entra em cena Freddie, o primo picareta de Carney, que de uma hora para outra se vê recrutado como receptador de um grande assalto.

É quando a vida do protagonista dá uma grande guinada, e ele conhece um Harlem muito diferente daquele a que estava acostumado, tomado por policiais corruptos, gangsteres violentos, vinganças elaboradas, produtores de pornografia barata e outros delinquentes.

“Tinha dias que Carney sentia a necessidade de pressionar o primo até ele admitir estar mentindo, e em outros o amor que sentia era tão grande que até mesmo o menor traço de desconfiança fazia com que se sentisse envergonhado”, diz um dos trechos do romance, em que Carney se vê dividido por sentimentos ambíguos.

“Quando colocou a tevê na tomada e ligou, a recompensa foi um ponto branco no centro da tela e um zumbido petulante. Ele não perguntou onde foi que Freddie arranjou aquilo. Ele jamais perguntava.”

Em entrevistas, o autor disse que passou anos escrevendo o romance e o terminou em “pequenos pedaços” durante os meses em que esteve recluso por conta da pandemia de Covid-19 em Nova York, cidade que chegou a ser o principal foco da doença nos Estados Unidos.

Basicamente, Trapaça no Harlem é um romance policial. Mas não nos moldes mais tradicionais, com esquemas narrativos consagrados, porque Whitehead dá seu toque especial ao gênero, com o contexto social pairando por toda a história. No que é uma de suas características como escritor: uma grande pluralidade. Além dos engenhosos romances, ele escreveu ensaios e até um livro de não ficção sobre pôquer.  

Formação

Formado em Harvard, Colson Whitehead começou a escrever para o The Village Voice. Desde então, paralelamente à escrita de romances, publicou ensaios, textos de não ficção e resenhas nos principais  jornais e revistas americanos, incluindo The New York Times, Granta, The New Yorker e Harper’s. O escritor mantém um site oficial com sua agenda, biografia e lista de livros publicados.

Livros de Colson Whitehead

Ficção

Não ficção

  • The Colossus of New York (2003)
  • The Noble Hustle: Poker, Beef Jerky & Death (2014)

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Trapaça no Harlem
Colson Whitehead
Trad.: Rogério W. Galindo
Harper Collins
416 págs.