Seis boas novidades da literatura brasileira

Mesmo durante o período pandêmico, a literatura brasileira contemporânea segue firme, com um ritmo crescente de lançamentos. E a diversidade é uma das marcas desse momento. Para dar conta dessa produção, a Bienal 360° fará mensalmente um apanhado com os destaques de nossa produção no romance, conto, crônica e poesia.

Para dar a largada, escolhemos seis livros de autores que representam bem esse momento fértil e de diversidade, tanto nos temas quanto na forma. O destaque fica por conta do já clássico romance As mulheres de Tijucopapo, de Marilene Felinto, que após quatro décadas de seu lançamento original ganha uma caprichada reedição.

 Uma estreante, um autor já firmado no meio literário e uma promessa recente também dão as caras. A sergipana Camilla Canuto, de 26 anos, estreia com o romance Há uma lápide com o meu nome. Após o sucesso de Torto arado, o baiano Itamar Vieira Junior lança Doramar ou a odisseia. E o paulistano Daniel Galera, autor do premiado Barba ensopada de sangue, reúne três novelas sombrias em O deus das avencas.

As mulheres de Tijucopapo
Marilene Felinto

Livro mais celebrado da crítica, tradutora e escritora Marilene Felinto, As mulheres de Tijucopapo ganhou nova edição pela Ubu. Escrito em 1982, quando a autora tinha 22 anos, o livro narra a viagem de retorno da narradora Rísia a Tijucopapo, localidade fictícia onde sua mãe nasceu, que evoca a história real de Tejucupapo, no Pernambuco. No século 17, a cidade foi palco de uma batalha entre mulheres da região e holandeses interessados em saquear o estado. O livro é construído por meio de uma escrita elaborada, em um fluxo de consciência de teor histórico, feminista e antirracista. Características que são destacadas na rica fortuna crítica da nova edição, que traz prefácio inédito da escritora Beatriz Bracher, posfácio da pesquisadora Leila Lehnen e ensaios e resenhas de Ana Cristina Cesar, João Camillo Penna, José Miguel Wisnik, Marilena Chaui e Viviana Bosi.

As mulheres de Tijucopapo
Marilene Felinto
Ubu
240 págs.

Doramar ou a odisseia
Itamar Vieira Junior

Depois de se tornar um fenômeno da literatura brasileira com o romance Torto arado, que vendeu mais de 150 mil exemplares, o autor baiano volta às prateleiras com um livro inédito, desta vez de narrativas curtas. Doramar ou a odisseia dá continuidade ao diálogo permanente com nossas questões sociais, proposto por Vieira Junior em seu livro mais famoso. Parte dos textos foram publicados em A oração do carrasco (2017), livro finalista do Prêmio Jabuti em 2018, e há outras narrativas inéditas em livro. Lidos na sequência, atestam a vitalidade de um escritor que encontra inspiração em personagens que desafiam os limites que lhes foram impostos.

Doramar ou a odisseia
Itamar Vieira Junior
Todavia
160 págs.

Risque esta palavra
Ana Martins Marques

A mineira Ana Martins Marques é uma das vozes poéticas mais importantes de sua geração. Ela retorna agora com Risque esta palavra, uma coletânea de poemas com versos que nascem da observação e da curiosidade. Em seu novo livro, a poeta de Belo Horizonte cria uma espécie de inventário de experiências afetivas no conjunto dos poemas. Sua poesia, segundo o crítico Murilo Marcondes, alia a elaboração formal a uma reflexão sobre a vida, promovendo um “estreitamento entre linguagem e experiência”.

Risque esta palavra
Ana Martins Marques
Companhia das Letras
120 págs.

Aos meus homens
Marcelo Ricardo

Nos versos de Aos meus homens, lançado junto com o filme Adé, o autor baiano foca nos variados tipos de masculinidades negras, em discussões que passam pela paternidade, irmandade e encontros amorosos. Crítico das amarras tradicionalmente impostas pela sociedade, o poeta apresenta homens negros que subvertem a lógica opressiva. O resultado é um conjunto que atravessa os mais variados sentimentos do ser humano, como o amor e a desilusão, guiado por um eu lírico apegado à ancestralidade africana e à espiritualidade.

Aos meus homens
Marcelo Ricardo
Malê
204 págs.

O deus das avencas
Daniel Galera

Nas três novelas deste volume, o autor de Barba ensopada de sangue (2012) e Meia-noite e vinte (2019) explora as mudanças de um mundo em desenfreada transformação — que aponta para caminhos sombrios. Na narrativa que dá nome à obra, um casal espera a chegada do primeiro filho, cercado por incertezas com relação ao futuro do país. Na segunda, “Tóquio”, um homem solitário tenta se reaver com o próprio passado, em um mundo devastado. E na última, “Bugônia”, uma civilização em simbiose com a natureza é ameaçada por seres de um planeta em ruínas.

O deus das avencas
Daniel Galera
Companhia das Letras
248 págs.

Há uma lápide com o meu nome
Camilla Canuto

O apagamento da mulher está no centro do romance de estreia da autora sergipana. Na família que constitui a narrativa, Adelaide é incompreendida pela filha, Alice, e vive cerceada pelo marido, João, em um rotina de excessos e faltas, amarguras e ressentimentos. Nos papéis que precisam ser desempenhados no dia a dia, resta às mulheres da trama a resignação e o silêncio. “Como Emma Bovary e Anna Karenina, Adelaide viveu aquém dos romances. Não significa que não merecesse mais”, anota Gregorio Duvivier no texto de quarta capa.

Há uma lápide com o meu nome
Camilla Canuto
Oficina Raquel
108 págs.