Romance de Tony Bellotto vira série policial

“Polícia mata o ladrão número 1 do Rio”, noticiou o jornal O Estado de S. Paulo, no dia 16 de setembro de 2005, em texto assinado por Roberta Pennafort e Alexandre Rodrigues. Na abertura da matéria, a constatação: “Chegou ao fim a trajetória de crimes do assaltante de casas mais procurado do Rio”.

Essa história real, a de Pedro Machado Lomba Neto, ou Pedro Dom, foi ficcionalizada por Tony Bellotto no romance Dom, lançado em 2020. O livro serve como base para a série homônima da Amazon Prime Video, com estreia marcada para 4 de junho. O trailer da adaptação, dirigida por Breno Silveira, já está disponível.

Morto pela polícia aos 23 anos, após uma perseguição duradoura pelas ruas do Rio de Janeiro, Pedro começou a roubar para sustentar seu vício em cocaína e era filho do ex-policial Victor Lomba, autor do livro O beijo da bruxa (2011).

A obra de Lomba, segundo informações de Bellotto à Bienal 360º, também serviu de base para a equipe de roteiristas (Fábio Mendes, Higia Ikeda, Carolina Neves, Marcelo Vindicatto e Breno Silveira) escrever a série, que traz Gabriel Leone no papel de Pedro.

Tony Bellotto, autor do romance Dom. Foto: Chico Cerchiaro.

Primeiro contato

O que veio a se tornar o romance Dom, de Bellotto, e posteriormente a série dirigida por Silveira, foi pensado inicialmente como um longa-metragem. Há dez anos, o autor do livro e o responsável pela adaptação discutiram a ideia de fazer um filme.

Na época, Bellotto conheceu Victor Lomba e ouviu toda a história de Pedro. O projeto, engavetado por anos, saiu do bloco de anotações quando o pai do rapaz morto em 2005 insistiu para que a história de seu filho fosse escrita.  

“A princípio resisti à ideia, pois não me sentia motivado a escrever sobre uma história real. Um dia, por acaso, encontrei as anotações e percebi que ali havia material para um trabalho de ficção”, conta Tony, que também é guitarrista da banda Titãs.

A condição para que escrevesse o livro foi clara: seria um romance baseado na história, então a imaginação do autor teria tanta importância quanto os fatos reais. Feito o combinado, a ideia saiu do papel — em um “longo e bastante trabalhoso processo”.

Gabriel Leone interpreta Pedro Dom.

Pedro Dom: personagem complexo

Livros costumam gerar bons filmes, vários ganhadores do Oscar, com destaque para o recente Nomadland, e séries de sucesso. Em conversa com a Bienal 360º, o roteirista Marcelo Rubens Paiva, um dos autores de Séries: o livro, explicou que produções audiovisuais de sucesso costumam cativar por conta de seus personagens complexos. É o caso de Pedro Dom.  

Nascido em família de classe média, o rapaz não parecia ter motivos para entrar no ramo do roubo de apartamentos — a não ser seu vício em cocaína e, conforme mostra a série, a influência de amigos. Se fosse pelos ensinamentos do pai, ao que tudo indica, teria se mantido longe da criminalidade.

“Você sabe como é que bandido acaba, Pedro? Embaixo da terra ou aqui”, diz o pai de Dom (interpretado por Flavio Tolezani) em uma cena da adaptação, enquanto mostra os encarcerados para o filho pequeno. “Olha. Olha, porra! Presta atenção. Tá vendo?”, questiona segurando o queixo do menino.

A trajetória de Dom mostra que o incentivo não deu muito certo. Lembrando que se tratam de ficcionalizações da vida de Pedro, e não como tudo aconteceu na realidade. O próprio Bellotto explica: “Pelo fato de ser uma história real, ela suscita diferentes interpretações”, referindo-se às especificidades de cada versão (livro e audiovisual).

Flavio Tolezani no papel de Victor Lomba, pai de Dom.

Diferentes versões

Tratando-se de mídias diferentes, é natural que existam peculiaridades. Para Bellotto, no romance “prepondera o trabalho de imaginação, que é exercido pelo autor e leitor”.

Já o audiovisual “tem sua magia própria, criando cenários, sons, música e ambientações que o livro não pode fornecer, apenas sugerir”, mesmo que a adaptação seja “sempre incompleta”.

De qualquer forma, o que cativou ambos realizadores foi um ponto em comum, que parece nortear as obras: “O que mais atraiu a mim e ao Breno Silveira, diretor da série, foi o aspecto trágico da relação de um pai ex-policial que não consegue impedir que o filho trilhe o caminho do crime”.

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Dom
Tony Bellotto
Companhia das Letras
344 págs.