“Revolta da vacina”, uma HQ para os tempos de pandemia

Todo artista deseja que sua produção dialogue com questões do tempo em que vive. É o que está acontecendo com o carioca André Diniz. Ele é autor da HQ Revolta da vacina, uma história passada no começo do século 20 no Rio de Janeiro, mas que guarda grandes semelhanças com os dias atuais, em que o país vive imerso em uma pandemia e a vacinação é um tema controverso.

A história criada por Diniz tem como pano de fundo a crise social e sanitária que o Rio de Janeiro, então capital federal, vivia em 1904. Enquanto o país tentava se ajustar à recente mudança de sistema de governo, do Império para República, proliferavam-se as moléstias causadas pelo saneamento precário, e por mosquitos e ratos, como a varíola, a febre amarela e a peste bubônica.

Nesse contexto, a solução encontrada para a crise urbanística foi uma reforma geral na cidade, em que os moradores de cortiços foram escorraçados para os morros da cidade. A solução para a epidemia foi a vacina compulsória, idealização do sanitarista Oswaldo Cruz, o que gerou uma revolta na população.

O que ajuda a dar um ar ainda mais profético ao livro de Diniz é que ele foi feito há quase 15 anos e publicado pela primeira vez em 2013, com o título Z de Zelito, que é o personagem principal da história.

“Não fiquei satisfeito com aquela edição, então aproveitei o convite da DarkSide Books para rever algumas coisas mais técnicas, tirar as cores e transformar tudo em preto e branco. Mas a história permanece a mesma”, diz o autor, que desde 2016 vive em Portugal.

André Diniz: “Naquela época até era mais compreensível que a população tivesse receio em relação à vacina, até porque a maneira como as coisas foram feitas foi truculenta”.

Zelito

Com um traço que lembra muito as xilogravuras presentes na literatura de cordel nordestina, Diniz coloca esse pano de fundo na trajetória do personagem Zelito, um jovem ilustrador cearense que parte para o Rio de Janeiro e tem seis meses para provar ao pai que poderá construir uma carreira de futuro.

Zelito é uma espécie de ovelha negra da família. O preferido era o irmão, que morreu jovem, sem que pudesse concretizar os sonhos dos pais de ter um filho doutor, casado com uma mulher “direita” e com muito filhos.

Na capital, enquanto procura trabalho como cartunista nos jornais, Zelito se envolve nas manifestações que iriam culminar na rebelião de 1904.

“Essa história inicialmente me foi sugerida por um amigo, o Alexandre Linares”, relembra. “Mas não queria fazer algo puramente histórico. Então criei o personagem Zelito, que participa de perto de todos os acontecimentos da época. Acho que assim o leitor acaba se identificando mais com a história.” 

À saga de Zelito em busca de um lugar de destaque na imprensa carioca Diniz acrescenta outros personagens, com seus dramas. Soledad é uma mulher cujo pai era dono do cortiço onde Zelito foi morar assim que chegou ao Rio de Janeiro. No entanto, o velho morre e sua casa é desapropriada pela prefeitura — o que de fato aconteceu com muitas construções à época — para que a reforma urbanística da cidade acontecesse. Zelito e Soledad então vão morar juntos.

Há um tom sombrio na HQ, que lembra também a atmosfera criada pelo russo Fiódor Dostoiévski no clássico Crime e castigo, em que o jovem Raskólnikov erra pelas ruas de São Petersburgo. “Há propositadamente um clima que varia entre o onírico e o real. Além de pesquisar bastante sobre o assunto, lembro também que procurei inspiração no cinema mudo, no expressionismo alemão, e especialmente em Encouraçado Potemkin, do russo Serguei Eisenstein”, explica o artista, que já assinou mais trinta obras, publicadas em países como França, Inglaterra e Polônia.

André Diniz trabalha na HQ Malditos amigos, inspirada na claustrofóbica São Paulo.

Conexão

As conexões da história contada por Diniz com o momento vivido pelo país hoje são muito claras. Assim como agora, em 1904 houve uma “revolta” de parte da população em relação ao que dizia a ciência, representada pela figura do médico sanitarista Oswaldo Cruz, que defendia a vacinação compulsória da população.

“Acho que naquela época até era mais compreensível que a população tivesse receio em relação à vacina, até porque a maneira como as coisas foram feitas foi truculenta”, diz o autor. “Mas hoje há tantos meios de comunicação para se informar,  então a coisa é meio surreal.”

O historiador Luiz Antonio Simas escreve no posfácio da obra que “sem qualquer esclarecimento sobre a eficácia da vacinação, a população sabia apenas que brigadas de vacinadores, acompanhadas por policiais armados, teriam autorização para violar residências, vacinar as pessoas e prender os que se recusassem a tomar a danada”. E complementa: “Até mesmo Rui Barbosa declarou que ninguém teria o direito de contaminar o próprio sangue com um vírus. Imaginem então o que achava a população mais pobre e afastada da educação formal”.

Carreira

André Diniz vai tomar em breve a primeira dose da vacina contra o coronavírus. Ele mudou para Portugal em busca de “qualidade de vida” e se diz satisfeito com a vida que leva. Lá, pode conciliar seu trabalho com uma rotina menos estressante. Carioca, antes de mudar para o exterior, morou em São Paulo, uma cidade que considera um “furacão”, para o bem e o mal.

Diniz já havia publicado fora do Brasil, mas morando em Portugal os laços com editoras e leitores de outros países ficou mais estreito. “Publico por uma editora chamada Polvo. Eles fazem um trabalho bacana e tem vários desenhistas brasileiros em seu catálogo”, diz o artista, que prepara uma nova HQ, desta vez inspirada na claustrofóbica São Paulo.Vai se chamar Malditos amigos.

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Revolta da vacina
André Diniz
DarkSide Books
176 págs.