Retrato íntimo mostra genialidade e fraquezas de Raul Seixas

Desde que Raul Seixas morreu, em agosto de 1989, mais de 40 livros sobre o artista baiano foram lançados. Muitos deles com pouco apuro técnico e rigor historiográfico. “Muita coisa sem nenhuma importância”, nas palavras de Kika Seixas, que foi casada com o músico entre 1979 e 1984.

Depois de anos lendo relatos pouco críveis sobre o ex-marido, Kika resolveu resgatar suas memórias da convivência com Raul, em um livro íntimo, muito carinhoso e franco, chamado Coisas do coração — Minha vida com Raul Seixas. Como o próprio nome deixa claro, não é uma biografia do ídolo, mas sim um resgate de quem viu de perto a ascensão e queda de um gênio da música brasileira.

“Raul era um artista que se expunha muito. Que queria estar sempre em evidência. Então as pessoas aproveitaram esse material e foram fazendo coisas meio sem sentido”, diz Kika. “Minha filha, muitas vezes, escutava versões sobre a vida do pai que não condiziam com a realidade.”

Com a ajuda do amigo Toninho Buda, parceiro de Raul, que coassina a obra, Kika revirou o “HD” da cabeça em busca de lembranças e empreendeu um processo de pesquisa com Buda, que gravava  as conversas e depois as transcrevia.

“Achei que tinha chegado a hora de falar. Queria mostrar como era o Raul de verdade, uma pessoa maravilhosa, muito ligada aos pais e que gostava de ser o provedor da família.”   

O livro começou a ser pensado em 2019, e o plano era lançá-lo em 2020. Mas como foi o ano em que a “Terra parou”, para lembrar de um clássico visionário de Raul, o lançamento foi adiado. “Isso acabou sendo bom, porque tivemos mais tempo para pesquisar e preparar melhor o texto”, diz Kika.

Kika Seixas, autora de Coisas do coração — Minha vida com Raul Seixas.

Raul em Coisas do coração

  • Os dois se conheceram na gravadora WEA
  • No aniversário de  35 anos de Raul não pareceu ninguém, “só” Erasmo Carlos
  • A música “Aluga-se” foi composta por Raul após ele ler na seção de cartas do jornal O Globo um comentário que “a solução era alugar o Brasil”
  • “À Beira do Pantanal” é uma versão de uma música folclórica irlandesa chamada “Down in the willow Garden”
  • Já “Abre-te sésamo”refere-se ao fato de o Brasil estar em processo de abertura política, no começo dos anos 1980

Encontro com Raul

Se a vida de Raul foi inspiradora, a de Kika também foi muito rica em boas experiências. Vindo de uma família carioca com boas condições financeiras, ela rodou a Europa ainda muito jovem e por lá conheceu gente pra lá de interessantes.

“Em 1976 voltei para a Europa e fiquei na casa de uma grande amiga, Vivian Magnus Mayer, que era esposa do Albert Koski, o maior empresário do show business europeu”, relembra Kika em uma das passagens do livro. “Com eles assisti alguns dos maiores artistas e bandas da época, como The Who, Paul McCartney & The Wings, Jethro Tull, JJ Cale e até o show de Eric Clapton na Plaza de Toros de Ibiza.”

Outra figura que ganha destaque é o americano Lennie Dale, criador do grupo Dzi Croquettes, com quem ela deu vários “rolês” por Londres e Ibiza, onde conheceu gente como os atores Omar Sharif, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau e o estilista Valentino.

Na volta ao Brasil, foi trabalhar na WEA (Warner-Elektra-Atlantic), gravadora que tinha sido criada por André Midani, ex-diretor artístico da Phonogram/Philips. Foi lá que ela conheceu Raul, à época um engravatado executivo da gravadora.

Parceria

A partir daí, Kika e Raul fizeram uma parceria sólida, no amor e no trabalho — em 1981 nasceu a filha do casal, a hoje DJ Vivi Seixas, e Kika então passou a cuidar da agenda do artista, como sua empresária.

Esta é uma das partes mais interessantes do livro, quando Kika rememora bastidores das criações com Raul. Os dois assinaram 15 canções em parceria, entre elas “Coisas do coração”, que dá nome ao livro — música com uma letra inspiradora sobre o amor.    

“Um artista de verdade pensa em sua obra 24 horas por dia. No próximo show, disco, música, etc. O Raul era assim”, diz. “Lembro muito do ambiente do estúdio. Era muito inspirador. Eu não era cantora, mas o Raul insistia que eu fizesse segunda voz em algumas músicas.”

Kika relembra dos insights criativos que acometiam Raul nas horas mais inesperadas. “Com ‘Geração da Luz’ foi assim. Ele acordou todo esbaforido com um verso da letra e correu anotar: ‘Eu já ultrapassei a barreira do som, fiz o que pude às vezes fora do tom…’”

Álcool

Mesmo sendo um relato singelo, o livro não deixa de falar sobre o álcool, que causou sérios problemas na vida privada e profissional de Raul. “Eu também precisava mostrar que toda a genialidade dele foi se acabando com o álcool. E foi muito doloroso para mim me separar do Raul gostando muito dele. Nós nos separamos nos amando.” 

Na fase final do músico, bastante debilitado por conta da pancreatite que o mataria, Kika exalta o papel do amigo e admirador Marcelo Nova, que resgatou Raul do ostracismo e gravou com ele o álbum “A panela do Diabo”, que deu à dupla um disco de ouro.

“É o epitáfio do Raul, com músicas lindíssimas. Acho muito importante o papel que o Marcelo teve, gravando e levando o amigo e ídolo para fazer 50 shows pelo Brasil.”  

As 10 músicas essenciais de Raul Seixas

  • “Ouro de tolo”
  • “Eu nasci há dez mil anos atrás”
  • “Maluco Beleza”
  • “Coisas do coração”
  • “Aluga-se”
  • “Metamorfose ambulante”
  • “Tente outra vez”
  • “Medo da chuva”
  • “Carpinteiro do universo”
  • “Rockixe”

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Coisas do coração — Minha vida com Raul Seixas
Kika Seixas
Ubook
456 págs.