Quem é Paulina Chiziane, vencedora do Prêmio Camões 2021

Com apenas dois livros publicados no Brasil (Niketche — Uma história de poligamia e O alegre canto da perdiz), a moçambicana Paulina Chiziane, vencedora do Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, ainda é pouco conhecida por aqui.

Paulina já esteve no Brasil. Em 2015, participou de uma conferência na Academia Mineira de Letras, ao lado de Conceição Evaristo, autora de Becos da memória. No entanto, sua fama no Brasil não se compara ao de seu conterrâneo Mia Couto, amplamente editado no país e presença constante em nossos eventos literários.

Mas é bem provável que com o Camões, prêmio que já foi concedido aos brasileiros Chico Buarque, Raduan Nassar e Dalton Trevisan, ela passe a ter mais livros editados no Brasil. Até porque sua literatura fala sobre temas que ganharam relevância no meio literário brasileiro nos últimos anos, como feminismo e questões de raça.

Paulina Chiziane, vencedora do Prêmio Camões 2021.

Breve histórico

  • Nasceu em 1955
  • Cresceu em Maputo, capital de Moçambique
  • Foi a primeira mulher a escrever um romance em seu país
  • Tem apenas dois livros publicados no Brasil:
  • Niketche — Uma história de poligamia e O alegre canto da perdiz
  • Seus livros falam sobre a condição da mulher africana
  • E debatem temas como machismo e colonialismo
  • Foi membro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique)
  • Venceu o Prêmio Camões em outubro de 2021

Quem é Paulina Chiziane

Assim que Paulina venceu o prêmio Camões, divulgado na última quarta-feira (20), a emissora de TV Euronews entrevistou a autora no que parece ser o quintal de sua casa. De chinelo e bastante à vontade em uma cadeira, ela fala com o repórter próxima a uma fogueira. Uma imagem que vai contra o estereótipo que estamos acostumados do escritor cosmopolita e urbano. 

E a visão da autora se completa com o discurso igualmente singular da entrevista. “Nunca falei nos livros com minha voz pessoal. Mesmo nas narrativas em primeira pessoa, estou a trazer a voz coletiva. É todo um povo que é agraciado por um prêmio.”

Paulina nasceu em 1955, em Moçambique, e cresceu em Maputo, capital do país. Quando jovem, fez parte da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), organização que lutava pela independência moçambicana, ocorrida apenas em 1975, na qual as mulheres tiveram grande destaque.

Depois de publicar alguns contos na imprensa, estreou com A balada de amor ao vento, em 1990. Além de Niketche e O alegre canto da perdiz, os livros publicados no Brasil, é autora de Ventos do Apocalipse e O sétimo juramento, entre outros.

Os livros

De origem humilde, Paulina costuma dizer que não é romancista, mas sim uma contadora de histórias. E essa definição faz bastante sentido em Niketche, em que a influência da narrativa oral está bem visível ao leitor.

O livro mistura toques de bom humor com consciência social e lirismo ao traçar um painel vasto da condição feminina na sociedade moçambicana.

No romance, Rami é uma esposa fiel e subserviente, que faz tudo que a tradição manda. Mesmo assim, não consegue ser amada por Tony, com quem é casada há mais de 20 anos. Certo dia, Rami descobre que o marido tem várias amantes e filhos espalhados pelo país. Ela então decide iniciar uma longa jornada para conhecer uma a uma as outras mulheres do marido.

“Olho para todas elas. Mulheres cansadas, usadas. Mulheres belas, mulheres feias. Mulheres novas, mulheres velhas. Mulheres vencidas na batalha do amor. Vivas por fora e mortas por dentro, eternas habitantes das trevas. Mas por que foram embora os nossos maridos, por que nos abandonam depois de muitos anos de convivência?”, diz um dos trechos de Niketche.  

Dá para notar que, apesar de simples, a linguagem é carregada de significados e poesia. Características ainda mais marcantes em O alegre canto da perdiz, que também amplia o leque de assuntos, entrando em temas como colonialismo e misticismo. Além, claro, de girar em torno da condição da mulher em uma sociedade machista.    

Se muitos leitores colocam em xeque os prêmios literários, o Camões deste ano serviu, no Brasil, para jogar luz em uma autora potente, mas ainda pouco editada no país. Então, que venham mais livros de Paulina Chiziane. 

Compre os livros na loja Bienal Rio

O alegre canto da perdiz
Paulina Chiziane
Dublinense
352 págs.

Niketche — Uma história de poligamia
Paulina Chiziane
Companhia de Bolso
293 págs.