Quebrando tabus na Estação Plural

Uma plateia colorida e muito animada esteve presente na noite desta quinta-feira (09/12), na Estação Plural para um bate-papo sobre como as obras com representatividade LGBTQIAP+ estão formando uma nova geração de leitores.

No painel, a escritora Clara Alves, autora do best-seller “Conectadas” (Seguinte); a escritora Elayne Baeta, autora de “O amor não é óbvio” (Record), considerado o primeiro best-seller lésbico do Brasil; o escritor Pedro Rhuas, autor de “Enquanto eu não te encontro” (Seguinte); o escritor, Juan Jullian, autor do romance “Querido ex”; e o escritor Deko Lipe, amante da literatura infantil, infanto-juvenil LGBTQIAP+, e idealizador do projeto literário “Primeira Orelha”.

Mediador da mesa, o autor e roteirista Felipe Cabral relembrou a tentativa de censura a uma publicação que mostrava um beijo entre dois homens, episódio ocorrido na edição de 2019 da Bienal do Livro Rio. “É muito importante que a gente se veja, se reconheça nas histórias. Não vai ter censura!”, declarou ele.

Para os autores, entretanto, nos últimos anos foram observados avanços na sociedade em relação à literatura não-hétero.

“Quando eu ‘saí do armário’, há 15 anos, eu não encontrei literatura para me identificar, para me inspirar e me sentir acolhido. Eu li “O terceiro travesseiro”, de Nelson Luiz de Carvalho, que era uma história trágica baseada em fatos. Mas não podemos esquecer Caio Fernando Abreu, Cassandra Rios, que foi censurada na ditadura, João Silvério Trevisan, João Neri, que são autores que vieram muito antes e que abriram os caminhos da literatura LGBTQIA+. Mas precisávamos de uma literatura jovem e isso me faz lembrar que as coisas estão andando”, pondera Felipe.

Para Clara Alves, ainda há muito mais a ser feito: “Ainda temos muito para avançar. Precisamos contemplar mais letras na sigla LGBTQIAP+, tanto para os leitores, quanto na autoria desses livros. A gente quer autores trans, assexuais. Ainda temos muito caminho pra percorrer. Nas indicações sempre temos os mesmos livros no mercado tradicional. É preciso furar essa bolha e expandir”, enfatizou a autora.

O escritor Juan Jullian enfatizou sobre a importância de valorizar a literatura independente: “Sobre autores independentes, na Amazon, você encontra autores plurais. Você tem a Maria Freitas que conta histórias de extraterrestres não binários, tem Koda que traz contos hot, e essas pessoas chegam a muitos leitores. Eles só não estão nas grandes editoras. Atenção!” clamou o escritor.

Sobre a diversidade de gêneros literários, os autores acreditam que é preciso ter histórias que vão além do romance: “Precisamos de ficção científica e de outros gêneros que tenham LGBTQIAP+ no protagonismo. A gente vê mais isso com autores internacionais, mas precisamos expandir. A gente quer pessoas que apenas sejam. Que sejam o que elas quiserem ser, com magia, viagens a outros planetas” disse Clara.

Para Deko Lipe, faltam histórias que naturalizem pessoas LGBTQIA+, não necessariamente com essa temática, mas que esses personagens estejam inseridos na vida, de uma maneira natural, para que as crianças não-hétero cresçam se sentindo naturais.

De acordo com Elayne, é preciso parar com essa ideia de que livro LGBTQIAP+ é para leitor LGBTQIAP+: “Eu li a vida toda livros héteros e não sou hétero. O amor expande em diversas sexualidades. O amor é um sentimento e ele habita o peito de diversos tipos de pessoas. Essa cobrança não é só para as editoras, mas também para os leitores”, declarou.

O escritor Pedro Rhuas pontuou que a literatura LGBTQIAP+ está avançando do “não-lugar” para ter o próprio lugar. E que isso é uma afirmação de personalidades e do trabalho dos autores: “Estamos avançando de termos apenas personagens legais, heroínas, pessoas para quem você torça pela felicidade e não queira nenhum mal, para naturalizar o gay trambiqueiro, a lésbica mau-caráter, os anti-heróis, porque as pessoas são múltiplas. A prova que estamos no caminho certo é ter esse espaço cheio de pessoas que nos apoiam. A gente está aqui para recuperar os nossos contos de fadas que nunca foram contados”, exaltou Pedro.