Por que “Mulheres que correm com os lobos” voltou à lista dos livros mais vendidos após 30 anos

No livro Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem (1992), publicado há quase 30 anos, a psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana Clarissa Pinkola Estés propõe um retorno às origens selvagens da mulher. A obra ganhou nova edição em 2018, pela Rocco, e desde então vem liderando a lista de obras de não ficção mais vendidas no Brasil, de acordo com números do PublishNews.  

Não é preciso se assustar com a selvageria da qual fala a autora, pois a conotação não é ruim. “O termo selvagem neste contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle, mas em seu sentido original, de viver uma vida natural, uma vida em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis”, explica Clarissa no texto de introdução.

A obra, que surge da longa experiência da profissional em estudos arquetípicos, busca mostrar como uma espécie de verdadeira natureza da mulher vem sendo soterrada pelas amarras sociais. Para isso, a autora revisita mitos, lendas e contos de fadas, sendo que o pontapé inicial para o estudo foi a análise da biologia de animais selvagens, em especial os lobos.

Cena da animação Wolf’s Eyelash (2016), de Elizaveta Starikova, baseada no livro de Clarissa Pinkola Estés.

Conheça Clarissa Pinkola Estés

  • Nasceu em Indiana, nos Estados Unidos, em 1945
  • Vem de uma linhagem hispano-mexicana
  • Foi adotada por “uma família de húngaros impetuosos”, nas palavras da própria Clarissa
  • Cresceu próxima às fronteiras dos estados de Michigan e Indiana, cercada pela natureza
  • É poeta, psicanalista e especialista em tratamentos pós-traumáticos
  • Antes de publicar Mulheres que correm com os lobos, estudou padrões arquetípicos por mais de 20 anos
  • O livro é baseado no estudo da biologia de animais selvagens, em especial os lobos
  • O curta-metragem de animação Wolf’s Eyelash (2016), dirigido por Elizaveta Starikova, é baseado em sua obra mais famosa

O que é a Mulher Selvagem?

De acordo com Clarissa, para entrar em contato com o arquétipo da Mulher Selvagem que vive soterrado no inconsciente humano, valendo-se da premissa junguiana, é preciso um esforço constante. “Como no início da restauração do nosso relacionamento com ela, a mulher selvagem pode se dissolver em fumaça a qualquer instante”, explica a autora. 

Devido aos obstáculos impostos pelo meio em que a mulher vive, normalmente determinado a tratar a que se rebela como se fosse um ser perigoso, Clarissa diz que é necessário valorizar a ideia dessa selvageria interior. “Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção”, escreve.

A lista de qualidades equivalentes segue. Algumas outras observadas pela autora, em Mulheres que correm com os lobos, são:

  • Ambos, mulheres e lobos, são gregários por natureza
  • Curiosos
  • Dotados de grande resistência e força
  • Profundamente intuitivos
  • Têm grande preocupação para com seus filhotes, parceiro e matilha
  • Experiência em se adaptar a circunstância mutáveis
  • Determinação feroz
  • Extrema coragem

Libertação

Ao reconhecer que a “psicologia tradicional” não dá conta da profundidade da Mulher Selvagem, Clarissa — que cresceu cercada pela natureza, onde sentia poder “encostar no rosto de Deus” — oferece seu livro a todas suas semelhantes, independentemente da cultura, época ou política.

Reconhecer-se uma Selvagem, segundo a autora, o que seria uma maneira de reavivar a saúde da mulher, “implica delimitar territórios, encontrar nossa matilha, ocupar nosso corpo com segurança e orgulho independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria, estar consciente, alerta, recorrer aos poderes da intuição e do pressentimento inatos”.

A partir desse movimento, para complementar o raciocínio, a psicanalista afirma que o cansaço sentido pelas mulheres ao final do dia terá um gosto muito mais prazeroso, tendo “como origem o trabalho e esforços satisfatórios, não o fato de viverem enclausuradas num relacionamento, num emprego ou num estado de espírito pequenos demais”.

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Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem
Clarissa Pinkola Estés
Trad.: Waldéa Barcellos
Rocco
576 págs.