Por dentro do universo de Jeff Lemire, criador da HQ “Sweet tooth”

A obra do premiado autor canadense Jeff Lemire flerta com o existencialismo e mostra que histórias em quadrinhos podem ser tão impactantes quanto uma boa narrativa literária. Na HQ Sweet tooth, adaptada recentemente para uma série homônima de oito episódios da Netflix, o clima “pesado” não é diferente — ainda mais devido ao persistente cenário pandêmico do mundo real.    

A história em quadrinhos, com roteiro e arte de Lemire, é muito mais violenta do que sua adaptação. Já na abertura, Gus — protagonista de Sweet tooth, um híbrido entre humano e cervo, bem como todos os bebês nascidos após a doença que matou quase todo o mundo — reflete sobre a condição solitária em que vive. Morando em uma cabana somente com seu pai moribundo, o menino foi criado isolado de tudo e achando que as árvores ao redor lhe protegem do fogo que destruiu a humanidade. 

Jeff Lemire, autor de Sweet tooth.

Há regras bem claras deixadas por seu pai, todas envolvendo a segurança de seu filho, e elas são quebradas quando o homem morre — vítima do mesmo vírus, ou seja lá o que for (ninguém sabe ao certo), que acabou com todos os outros seres humanos de maneira rápida, implacável e misteriosa.

A partir daí, Gus conhece Tommy Jepperd, um violento sobrevivente que lhe dá o apelido de sweet tooth — ou “bico doce”, conforme o personagem é chamado em português. Juntos, o big man (“grandão”) e o híbrido partem em busca de um misterioso local que promete cuidar bem desses curiosos seres nascidos em um cenário pós-apocalíptico, no qual reina a maldade humana.

Aos que esperam uma história bonita de amizade: nada é bem o que parece. 

Detalhe do personagem Gus na HQ Sweet tooth, de Jeff Lemire.

Série versus HQ

Recomendada para maiores de 14 anos, a adaptação audiovisual de Sweet tooth é muito mais “palatável” do que a história em quadrinhos. De acordo com Susan Downey, esposa de Robert Downey Jr. e produtora executiva da série ao lado do marido, o objetivo era entregar um produto que pudesse ser visto por toda a família.

O resultado é que todo o colorido das páginas da HQ e a inocência do híbrido Gus, interpretado por Christian Convery, parecem se manter, mas as lutas mais violentas e repletas de sangue, com crânios explodindo e arcadas dentárias voando pelos ares, se perdem.

Christian Convery no papel de Gus, um híbrido de homem e cervo.

Na série da Netflix, Jepperd é vivido por Nonso Anozie, um ator negro, e é ex-jogador de futebol americano. Na HQ, o homem que acolhe o protagonista é branco de olhos azuis, ex-jogador de hóquei no gelo. Ambos são destemidos grandalhões e bons de briga.

Além disso, os dois têm um estilo sarcástico e não medem esforços na hora de proteger Gus dos caçadores que vivem em busca das recompensas oferecidas pelos híbridos. A motivação do personagem Jepperd para ajudar o pequeno muda de um formato para outro, e só o que dá para adiantar — sem estragar a surpresa — é que, nos quadrinhos, a coisa é muito mais sinistra.

Curiosidades da série

• O ator Robert Downey Jr., que interpreta o Homem de Ferro no Universo Cinematográfico Marvel, é produtor executivo de Sweet tooth

• Além de efeitos gráficos computadorizados (CGI), a série usa próteses e bonecos para dar vida aos híbridos

• Na preparação para o papel de Gus, Christian Convery estudou o movimento dos cervos e teve aulas de parkour

• O piloto da série foi filmado entre maio e junho de 2019, antes da pandemia de Covid-19 estourar

• As gigantes áreas verdes da Nova Zelândia serviram como cenário para a adaptação

Gus e Tommy Jepperd na HQ Sweet tooth.

Outros trabalhos de Jeff Lemire

O autor e ilustrador canadense tem uma das mais festejadas trajetórias da atualidade. Entre outras conquistas, ganhou o Prêmio Eisner pela série Black Hammer e foi eleito duas vezes o melhor quadrinista do Canadá pelo Schuster Award.

Nos roteiros de Lemire, que já fez parceria com diferentes ilustradores e também cria suas próprias artes, destacam-se tons sombrios. Para entrar no universo criativo do autor, o ideal é que — como sugeriria Dante — o leitor abandone toda esperança.

Para citar três exemplos, há decadentes super-heróis reclusos, vivendo no anonimato e de forma miserável, como acontece na premiada HQ citada acima; a trajetória de um misterioso ser coberto por bandagens, em O ninguém, que faz uma releitura do clássico O homem invisível, de H. G. Wells; e a história de Family tree, na qual uma menina de oito anos começa a se transformar em árvore — e isso é o prenúncio do fim dos tempos.

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Black Hammer — Vol. 1: Origens secretas
Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart
Trad.: Donaldson Garschagen, Fernando Scheibe e Leonardo Alves
Intrínseca
184 págs.

O ninguém
Jeff Lemire
Trad.: Bernardo Santana
Pipoca & Nanquim
156 págs.

Family tree — Vol. 1: Nascimento
Jeff Lemire, Phil Hester, Eric Gapstur e Ryan Cody
Trad.: Fernando Scheibe
Intrínseca
96 págs.