Para entender a história do feminismo

O #MeToo, movimento contra o assédio sexual que surgiu nas redes sociais em 2017, representa bem o sistema de “ondas” que tem caracterizado o feminismo ao longo de três séculos. É o que mostra a historiadora Lucy Delap em Feminismos: Uma história global, editado pela Companhia das Letras.

Professora da Universidade de Cambridge e conceituada pesquisadora de questões de gênero, ela escreveu um livro que foge de qualquer academicismo. Inclusive, não se furta em muitas vezes narrar em primeira pessoa, colocando-se como exemplo de alguma ideia ou paradigma que está tentando demonstrar ao leitor.

Mesmo sendo tão envolvida com o tema, Lucy parece encontrar o distanciamento perfeito para falar de um assunto que carrega muita paixão — e algum tanto de ódio também. O livro mostra como as “ondas” feministas foram dispersas, mas aconteceram em quase todas as partes do mundo desde o século 18.

“O feminismo busca uma aliança que abrange mais da metade da humanidade”, escreve Lucy. “Talvez nunca tenha existido um movimento tão ambicioso em nossa história.” Mas o que querem as feministas?, pergunta a historiadora logo em seguida.

“Todas compartilham a noção de que ser mulher significa uma desvantagem em relação aos homens e que isso pode ser enfrentado por meio de lutas. Mas as reivindicações políticas resultantes variaram drasticamente ao longo do tempo e procederam sob muitos nomes diferentes”, diz.

E completa: “O feminismo seria mais bem compreendido como um conjunto de ações, questões e demandas imbricadas e internamente complexas, que vêm sendo formuladas desde o século 18, ou mesmo antes. Suas preocupações mudam com o tempo”.

Chimamanda Ngozi Adichie autora do manifesto “Sejamos todos feministas”

Temas

Para examinar as diferentes formas pelas quais mulheres se mobilizaram pela igualdade de gênero ao redor do mundo, Lucy Delap parte de oito grandes temas:

  • Sonhos
  • Ideias
  • Espaços
  • Objetos
  • Visuais
  • Sentimentos
  • Ações
  • Canções

O primeiro tópico é bastante interessante porque mostra os desejos, muitos deles “utópicos”, conforme a própria historiadora aponta, de feministas de diferentes matizes. Falando sobre o início de sua carreira, Lucy conta que o sonho de uma amiga era que o feminismo apagasse por completo a divisão dos gêneros, onde masculino e feminino fossem categorias simplesmente irrelevantes.

“Hoje, com várias formas de identidade queer, trans e gênero neutro sendo adotadas, seja de forma experimental ou mais energética, talvez esse sonho seja menos transgressivo, e minhas próprias opiniões tenham se tornado menos convencionais.”

Feminismos também esmiúça as complexidades do movimento, sem deixar de lado o paradoxo central de que as feministas também praticaram as próprias exclusões, ouvindo determinadas vozes e silenciando outras. Ou seja, Lucy não tem receio de apontar as contradições do movimento.

Bifurcações

Trata-se de um tema instigante e muito, mas muito complexo. É o tipo de assunto que leva a bifurcações que parecem não ter limite, com uma discussão dando origem à outra. Mas Lucy separa bem essas nuances, em que colonialismo, nacionalismo, economia, violência e imperialismo são assuntos que desembocam no mesmo caldeirão de ideias do feminismo.

Outro bom momento é quando a autora mostra que o ativismo feminino sempre esteve ligado a outros movimentos — socialista, religioso, nacionalista, anticolonialista. O que certamente ampliou seu leque de atuação.

Um tema que está presente em todo livro é um paradoxo central do feminismo: como movimento, o feminismo insiste na inclusão das mulheres em todas as áreas da vida social e política e exige a transformação radical dessas estruturas excludentes. Mas o feminismo também exerce suas próprias formas de marginalização e tem lutado para abranger todas as mulheres de forma igualitária.

“As mulheres negras, as da classe trabalhadora, as lésbicas, trans e bissexuais, as com deficiência, as não ocidentais e não cristãs muitas vezes foram excluídas daquilo que a teórica Chela Sandoval chamou de ‘feminismo hegemônico’.”

Na década de 1990, falava-se de um “mundo pós-feminista”, no qual o poder político, o sucesso econômico e as riquezas culturais estariam à disposição das mulheres. Lucy mostra que, claro, o avanço foi imenso, mas é só olhar o noticiário para que feminismo continue sendo uma pauta importante e necessária. E lembra do manifesto da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que viralizou mundo afora: “Sejamos todos feministas”.

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Feminismos: Uma história global
Lucy Delap
Trad.: Isa Mara Lando e Laura Teixeira Motta
Companhia das Letras
336 págs.