Para (começar) entender o mestre Stephen King

Aos 73 anos, Stephen King é autor de mais de 60 livros — quase um por ano vivido. Com essa obra monstruosa — há livros com mais de mil páginas —, ele virou sinônimo do gênero de terror, mas sua obra também explora outros caminhos, como suspense, dark fantasy, ficção científica, ficção especulativa, além de dramas realistas poderosos.

Essa máquina de produzir livro atrás de livro, com uma imaginação para além do compreensível, vendeu mais de 400 milhões de exemplares, traduzidos em mais de 40 países. King literalmente produziu universos para chamar de seu, como o descrito na série A torre negra, que o escritor levou mais de 30 anos para concluir.  

A série pode ser lida como uma síntese de toda a carreira do autor americano, já que mistura alta fantasia, faroeste, ficção científica e terror numa narrativa que forma um mosaico da cultura popular contemporânea, em um enredo que acompanha um “pistoleiro” e sua busca em direção a uma torre cuja natureza é tanto física quanto metafórica.

Cena do filme Carrie (1976), de Brian De Palma.

Livros conectados

Vindo de uma família desestruturada, King e o irmão mais velho foram criados com dificuldade pela mãe, Nellie Ruth Pillsbury. No entanto, depois de passar por alguns subempregos — experiência que o ajudaria a escrever vários livros —, ele alcançou o sucesso logo de cara, com seu primeiro livro, chamado Carrie, a estranha (que já teve três versões para o cinema).

O livro narra a história de uma universitária perseguida e atormentada que descobre ter poderes telecinéticos e os usa contra seus perseguidores. O romance fez um sucesso tão grande que permitiu a Stephen King se dedicar integralmente à carreira de escritor.

Carrie também é importante porque antecipou vários dos temas que apareceriam em livros posteriores, como a cidadezinha do interior em choque por conta do aparecimento de eventos inexplicáveis. Como acontece em Salem, em que dois garotos de uma pequena cidade são aterrorizados por vampiros. Ou no famoso It —A coisa, com um monstruoso assassino de crianças espalhando medo em uma cidade fictícia do Maine. 

Jack Nicholson no filme O iluminado (1980), de Stanley Kubrick.

Escritores-personagem

Outro mote explorado por Stephen King é o do escritor como personagem central de um livro. O violento e alcoólatra Jack Torrance, candidato a escritor de O iluminado, tem seu trabalho e sua vida mudados por espíritos malignos num hotel mal-assombrado, perdendo gradualmente a sanidade.

Misery — Louca obsessão, que envereda mais para o realismo psicológico, conta a sinistra história do romancista Paul Sheldon, salvo de um acidente de carro por sua fã número um, Annie Wilkes, que depois o sequestra e o obriga, mediante tortura, a escrever um livro.

Por onde começar?

Como se vê, o americano é um escritor de difícil classificação e o leitor de “primeira viagem” pode ficar na dúvida sobre o que ler primeiro, perdido no imenso universo literário criado por King. Então, diante das várias possibilidades de leitura, sugerimos três eixos, que podem ser a porta de entrada ideal para começar a entender a obra do autor.

Cena do filme Louca obsessão (1990), de Rob Reiner.

Livros adaptados

Esse recorte é bem grande porque Stephen King teve muitos livros adaptados, para o cinema e a TV. Em alguns deles, atuou como roteirista, o que é um ingrediente a mais para instigar a curiosidade. Mas este eixo, dentro da grandiosa obra do autor, dá ao leitor também a possibilidade de fazer a dobradinha livro-filme, ou vice-versa, como preferir. Seguem algumas sugestões:

O iluminado foi um dos primeiros livros de King e ainda nos anos 1970 ganhou uma adaptação feita por Stanley Kubrick, que deixou o romance ainda mais popular. A história de um escritor acossado por espíritos malignos é simplesmente perturbadora.

Carrie, a estranha é o primeiro livro de King, lançado em 1974. Há três adaptações do romance que conta a história de uma universitária possuída e perseguida por espíritos. O filme de Brian De Palma, de 1976, é o mais aclamado.

It — A coisa é um livro que vale por “vários”, pois além de ser bem extenso, com mais de mil páginas, é escrito em “camadas” e conta com vários desdobramentos na história de uma pacata cidade que a cada 27 anos recebe a visita do bizarro palhaço Pennywise, que se alimenta de criancinhas. O filme de 2017, dirigido por Andy Muschietti, teve um sucesso estrondoso.

A zona morta, outro livro dos anos 1970, foi adaptado com sucesso. Dirigido por David Cronenberg, o filme de 1983 fala sobre um homem que acorda de um coma e descobre ter problemas psíquicos. Christopher Walken e Martin Sheen estrelam a adaptação para os cinemas. O mesmo livro ainda virou uma série de TV.

Cena do filme A zona morta (1983), de David Cronenberg.

Série A torre negra

Outra porta de entrada para o novo leitor de Stephen King pode ser os livros em série que o autor escreveu. Certamente a série A torre negra é praticamente “incontornável” para quem quer conhecer uma das facetas de King — e se tornar fã de verdade. É preciso entrar no universo do autor, e talvez esses livros sejam o gatilho que faltava.

Aqui a inspiração são os livros do inglês J. R. R Tolkien, com seu universo imaginário, mas também a cultura pop como um todo. O conjunto levou 33 anos para ser concluído, de 1970 a 2003, e vendeu nada menos que 30 milhões de exemplares.

A série inclui os seguintes romances: O pistoleiro, de 1982, A escolha dos três, de 1987, As terras devastadas, de 1991, Mago e vidro, de 1997, Lobos de Calla, de 2003, Canção de Susannah e A Torre Negra, de 2004, e O vento pela fechadura, de 2012.

Os contos

Há quem defenda que Stephen King é tão bom nos contos quanto nos romances. E uma perfeita oportunidade para entrar em seu ambiente de criação podem ser as histórias curtas, já que elas misturam tudo que pode ser encontrado nos romances, de forma mais estendida. Além disso, a “vantagem” é que a leitura é mais rápida do que a  dos romances, em geral caudalosos. 

Publicado em 2015, O bazar dos tempos ruins é excelente para iniciados e não iniciados simplesmente porque é um excelente livro. Além de  temas instigantes como moralidade, vida após a morte e culpa, a obra traz pequenos comentários autobiográficos, revelando quando, onde, por que e como o autor escreveu cada história. Certamente um ingrediente a mais para ler Stephen King.

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Carrie, a estranha
Stephen King
Trad.: Adalgisa Campos da Silva
Suma
200 págs.

It — A coisa
Stephen King
Trad.: Regiane Winarski
Suma
1104 págs.

A zona morta
Stephen King
Trad.: Maria Molina
Suma
480 págs.  

O iluminado
Stephen King
Trad.: Betty Ramos de Albuquerque
Suma
464 págs.

Misery — Louca obsessão
Stephen King
Trad.: Elton Mesquita
Suma
328 págs.

O bazar dos sonhos ruins
Stephen King
Trad.: Regiane Winarski
Suma
528 págs.