Ensino híbrido: uma alternativa com muitos desafios

Há um ano pais, alunos e professores vivem uma situação até então inédita na história da educação brasileira. Com a pandemia, escolas públicas e privadas adotaram um “sistema” de revezamento, com parte dos alunos em casa, assistindo às aulas pela internet, e outro grupo na escola, junto com o professor.

Um modelo quem tem causado certa apreensão, principalmente nos pais, que relatam preocupação com a assimilação do ensino pelos filhos. Além disso, em muitos casos, eles se sentem sobrecarregados com as “novas” demandas no auxílio às tarefas escolares, especialmente com as crianças menores, ainda em fase de alfabetização. Fora isso, o novo normal na educação também tem sido confundido com algo bem mais complexo — o chamado ensino híbrido.

Ex-diretora Global para a Educação do Banco Mundial, Claudia Costin vem há décadas acompanhando de perto as mudanças no sistema educacional — no Brasil e no exterior. A partir de 2010, ela explica, vários países europeus desenvolveram “competências digitais” que serviram para o “letramento digital” dos estudantes. Um assunto que voltou como uma avalanche às discussões desde que a pandemia do novo coronavírus fechou escolas mundo afora.

Claudia Costin: “Querendo ou não, essa pandemia construiu um esboço do nosso sistema híbrido de ensino”.

“A maior contribuição desse processo é que dá maior liberdade e tempo para o professor fazer o essencial de sua função, que é aperfeiçoar conteúdos”, diz Claudia, atual diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe) da FGV. “Além de dar a possibilidade da personalização no ensino.”

O uso integrado das tecnologias digitais para auxiliar o professor na coleta e análise de dados é algo que vem sendo objeto de estudo de diversos pesquisadores há anos. É o chamado ensino híbrido, que nos últimos meses tem sido confundido como o simples rodízio entre aulas presenciais e online que a maioria das escolas tem adotado durante a pandemia.

“Na verdade, não é isso”, diz o professor Fernando Trevisani, consultor em metodologias ativas. “As tecnologias, por exemplo, quando são utilizadas na transmissão de aulas, não caracterizam a realização do ensino híbrido.”

Fernando Trevisani: “Os pais perceberam a importância do papel do professor, da escola e o quanto os alunos se desenvolvem dentro dela”.

Ensino híbrido: muito além das aulas online

A questão, como se vê, é mais complexa. O mero uso das tecnologias em uma transmissão professor-aluno não aproveita todo o potencial que essas ferramentas digitais podem trazer, como, por exemplo, a coleta e análise de dados, que geraram gráficos, permitindo que os professores saibam mais sobre a aprendizagem dos alunos. “Isso porque, em uma transmissão, o aluno pode ficar passivo ouvindo a explicação do professor, não gerando nenhuma ação por parte dele”, diz Trevisani.

Claudia Costin é totalmente favorável ao ensino híbrido: “Se bem aplicado, dá grande resultado”. E a aplicação depende de vários fatores. Um deles é colocar o foco do processo de aprendizagem no aluno, e não mais na transmissão de informação que o professor realiza.

Isso ocorre por meio dos modelos de aulas que o ensino híbrido propõe, todos eles contando com o uso da tecnologia digital integrada com o ensino presencial, facilitando a análise e coleta de dados para o professor. A partir desses dados analisados, o professor pode planejar atividades que vão colocar o aluno em um papel mais ativo na construção do conhecimento.

Trevisani dá vários exemplos: “Quando os alunos fazem uma pesquisa e a partir dela escrevem um resumo para mostrar as informações encontradas, quando assistem a um vídeo e têm que responder algum questionário sobre o conteúdo, eles criam um mapa mental, debatem com os colegas, coletivamente, etc. Então, com o ensino híbrido, o professor pode avaliar os alunos de uma maneira mais constante, por atividades, durante a coleta de dados”.

“Todas essas atividades consideram o papel ativo do aluno. Diferente do papel que ele tem quando participa de uma aula em que o professor é o orador, que fala e o aluno fica ouvindo, assumindo assim um papel passivo, pois não utiliza a comunicação e a argumentação, nem na execução de tarefas, como por exemplo criar um mapa mental a partir dos conceitos que ele precisa estudar”, explica o professor, que é coautor do livro Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação, obra lançada em 2015, muito antes da chegada do novo coronavírus. Em seu perfil no Instagram, o professor se dedica a divulgar ações e práticas de ensino híbrido.

O “nosso” ensino híbrido

O que nos acostumamos a chamar de “ensino híbrido” desde que estudantes passaram a ter aulas em casa, via internet, é apenas um arremedo do “verdadeiro” método que especialistas vislumbram. Ou seja, ainda é uma tentativa muito tímida de mudar conceitos historicamente arraigados no ensino nacional. Além de ter sido uma mudança feita “na marra”, como diz Claudia Costin, que foi Secretária Municipal de Educação no Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. “Querendo ou não, essa pandemia construiu um esboço do nosso sistema híbrido de ensino.”

E como tudo que não é planejado, esse ponto de virada abrupto na educação trouxe mais dúvidas do que certezas. Além de ter desnudado mais um lado de nossa desigualdade. “A pandemia desvelou tudo de errado que temos em relação à desigualdade educacional, que sempre foi imensa. A crise provocada pela Covid-19 só acelerou esse processo de desigualdades”, diz Claudia.

As diferenças de acesso às tecnologias

Isso porque, se crianças de classe média têm acesso a equipamentos de boa qualidade, internet rápida, uma casa estruturada e pais com repertório para auxiliá-las nas tarefas, nas periferias a realidade é outra. Crianças de famílias vulneráveis quase não têm estrutura nenhuma, dividem poucos cômodos na casa com outros familiares e muitas vezes só têm um celular para a família inteira.

Além disso, a conhecida desigualdade entre os estados também se acentuou. Levantamento nacional realizado pelo site G1, em 2020, mostrou que 99% dos estudantes da rede estadual do Paraná têm acesso ao ensino online durante a pandemia. No Piauí, esse índice é de somente 9%.

Mas tanto Claudia Costin como Fernando Trevisani veem com otimismo algumas lições deixadas pela pandemia. “Por um lado, a escola se conscientizou de que precisa dialogar mais, oferecer mais informações aos pais. Do outro, os pais viram que ser professor é complexo”, diz Claudia. Ela cita o “exército” de docentes que foi para linha de frente e “tomou para si a tarefa de levar o ensino a quem mais precisa”.

O novo papel do professor

Já Trevisani acha que, a partir de agora, a sociedade vai “ressignificar o papel do professor”, pois os pais vão refletir sobre isso a partir da própria experiência, já que muitos tiveram que exercer um papel de “mediador” entre o aluno e a escola, principalmente no caso de crianças menores, que têm a necessidade de um acompanhamento maior por terem menos autonomia. “Os pais perceberam a importância do papel do professor, da escola e o quanto os alunos se desenvolvem dentro dela.”

É difícil mensurar o prejuízo que a pandemia vai causar na educação a médio e longo prazos, mas é certo que “essa geração vai pagar um preço muito grande”, diz Claudia. “Mas não quer dizer que o futuro está completamente comprometido. Vai depender muito das políticas públicas que serão implementadas pelos governos a partir de agora. É preciso que boas políticas sejam conduzidas”, explica.

Verdadeiro ensino híbrido

• Mudança de planejamento pedagógico

• Uso integrado das tecnologias digitais para auxiliar o professor na coleta e análise de dados

• Personalização do ensino

• Maior autonomia do aluno

Desafios e dificuldades do novo normal na educação hoje

• Alunos divididos em turmas online e presencial

• Dúvidas em relação à assimilação dos conteúdos

• Pais se sentindo “sobrecarregados” com a tarefa de auxiliar os filhos pequenos

• Uso das tecnologias não aproveita o potencial que essas ferramentas digitais podem trazer para o professor, sendo mera reprodução do ensino tradicional, em sala