Pandemia e Brasil atual marcam debates no segundo dia da Bienal

O início do segundo dia da Bienal do Rio foi marcado por falas enfáticas sobre o momento atual do Brasil. Logo pela manhã, o sociólogo Jessé Souza, a escritora e apresentadora Luana Génot e o jornalista Muniz Sodré (online) protagonizaram um bate-papo quente, em que as desigualdades — de ontem e de hoje — do Brasil estavam no centro das discussões. A mediação foi do jornalista Ruan de Sousa Gabriel. 

“Minha história está interligada com a história do Brasil. Mas, durante muito tempo, as pessoas negras não contaram suas histórias. Os escravos não tinham nomes. Eram uma massa sem identificação. Por isso é tão necessário falar, escrever, dar nome às pessoas”, disse Luana, autora de Sim à igualdade racial.

Um dos mais respeitados intelectuais do país, Muniz Sodré disse ter uma visão “menos catastrófica do Brasil”. “Não divido o país apenas entre arcaico e moderno. O Brasil é de uma heterogeneidade radical”, diz. Para ele, o momento atual tem sido fértil em revelar histórias até então pouco conhecidas do público. “Há um Brasil subterrâneo que começa a ser revelado agora.”

Já o sociólogo Jessé Souza deu ênfase ao papel das elites na permanência da desigualdade social no país, dizendo que esse fato é ainda mais grave que a corrupção praticada dentro dos governos. “A elite quer roubar o Brasil. Nós somos imbecilizados pela elite. Somos filhos da escravidão.”

Com a transmissão pela internet, o público agora tem a chance de se manifestar publicamente nos comentários do YouTube. “Que venham mais e mais palestras assim! Mostrando a nossa realidade, que muitos se negam a enxergar”, disse Silviane Rodrigues.

Mesa “As desigualdades e as elites no Brasil” abre o segundo dia de Bienal.

Acadêmicos

Nos últimos meses, a Academia Brasileira de Letras ganhou os holofotes por conta dos vários novos membros que elegeu, entre eles a atriz Fernanda Montenegro e o compositor Gilberto Gil. A 20ª edição da Bienal do Rio promoveu um encontro histórico entre os acadêmicos Geraldo Carneiro, Antonio Cicero, Rosiska Darcy de Oliveira, Antônio Torres e Zuenir Ventura.

Sob a mediação da jornalista Bia Corrêa do Lago, eles falaram sobre suas experiências durante a pandemia e como superaram o isolamento.

“O que mais senti falta foi do abraço. Meus netos moram ao lado da minha casa, e o mais difícil foi não ter contato físico com eles”, disse Zuenir Ventura, que é homenageado da festa. Ele também falou sobre Minhas histórias dos outros. “Fui instigado pela minha agente literária, Lúcia Riff, a escrever mais algumas histórias desse livro que é uma espécie de autobiografia.”

Rosiska Darcy de Oliveira, que participou remotamente do papo, lembrou que seu livro Liberdade teve o lançamento interrompido pela pandemia, mas que, agora lançado, parece se encaixar ainda mais com o momento que vivemos. “Fomos desafiados em nossa capacidade de esperança e resistência.” Ela também falou sobre seu livro Elogio da diferença, que completa 30 anos e é um marco do feminismo no Brasil.

Antônio Torres falou sobre o processo criativo de Querida cidade, romance que levou 15 anos para terminar. “Se eu pudesse, ficaria a vida inteira reescrevendo esse livro”, disse. O público ainda foi brindado com poemas inéditos de Antonio Cicero e Geraldo Carneiro, que leram seus textos. 

Zuenir Ventura fala durante o encontro “Acadêmicos pós-pandêmicos”.

Best-sellers

Uma das mesas mais aguardadas do dia reuniu as autoras Thalita Rebouças e Paula Pimenta para conversar com o músico Vitor Kley sobre a criação em diferentes formatos, como o cinema, a música e a TV.

Em suas falas, os três enfatizaram que produzir para várias mídias tem a ver com “liberdade”. “A gente tem que ser livre para ser o que quiser. E nossos trabalhos podem incentivar as pessoas a fazerem o mesmo”, disse Vitor, autor estreante do livro infantil Turma do menino Sol, que faz parte de um projeto musical com três volumes e clipes em animação, um deles exibido no telão da Bienal.

“Acho que é preciso fazer com o coração, com e sem inspiração. Escrever, sempre. Não desista de seus sonhos, mesmo que zoem de você”, disse Thalita Rebouças, respondendo a uma pergunta do público.

O encontro foi marcado por muita tietagem aos convidados e por muitas perguntas sobre a escrita e a carreira literária.

Autora de mais de 20 livros e da série Fazendo meu filme, Paula Pimenta fez uma revelação artística. “Componho muito antes de escrever. Quero em breve transformar algumas dessas canções em livro”, disse.

O encontro acabou com Vitor Kley cantando à capela seu maior hit, “Sol”.

Registro da mesa “Em todas as mídias”, com Thalita Rebouças, Vitor Kley e Paula Pimenta.

Flup

O encontro mais emocionante ficou para o final do dia. Uma celebração dos 10 anos da Flup (Festa Literária das Periferias) reuniu quatro jovens autores que foram revelados na primeira edição do evento.

Jessé Andarilho, Rodrigo Santos, Yasmin Thayná e Monique Nix contaram um pouco de suas trajetórias de superação. Heloisa Buarque de Hollanda e Ana Maria Machado, que foram fundamentais para a história da Flup, mediaram o papo e também relataram seu envolvimento para que a Festa fosse realizada.

“Lembro que, por indicação da Heloisa, o Ecio Salles e o Julio Ludemir [criadores do evento] foram conversar comigo na Academia Brasileira de Letras, na época eu era presidente da instituição”, disse Ana Maria Machado. “Eles vieram com um furacão de ideias, e eu me empolguei muito.”

“O livro salvou minha vida”, disse Rodrigo Santos, autor da antologia de contos Carcará. “Todos me diziam lá em São Gonçalo que ser escritor não era profissão. Mas a Flup botou a gente no mundo. No primeiro evento, fui avaliado pelo Silviano Santiago.”

“A Flup e o Julio me deram confiança para acreditar em mim. Para subir em um palco e acreditar no que falo”, completou Yasmin Thayná, que hoje é roteirista e cineasta.

Ana Maria Machado e Heloisa Buarque de Hollanda coordenam a mesa com quatro participantes da primeira Flup.

Lulu

O maior hitmaker do país, Lulu Santos entrou no palco do “Estação Plural” cantando “Sábado à noite”, um de seus maiores hits. Ele está lançando o livro Lulu em traço & verso, com letras e cifras de grandes sucessos de sua carreira, ilustradas pelo artista gráfico Daniel Kondo.

Mediada pelo apresentador da GloboNews Marcelo Cosme, a conversa foi muito descontraída e Lulu falou de como suas canções tocaram tanto tantas pessoas ao longo de 40 anos de carreira.

“A relação que as pessoas têm com as canções é incrível. Por isso esse livro se soma ao que elas já conhecem, com as ilustrações e cifras.” Ao final, o maior hitmaker do país comandou um verdadeiro karaokê.