Os trabalhadores do livro

Na maioria das vezes, o autor de um livro é um só. Ele é festejado por seus leitores. Seu nome está na capa a brilhar nas livrarias. Mas, na verdade, o livro é uma obra coletiva — um longo caminho do sonho à realidade. Há neste processo uma infinidade de profissionais que ajudam a materializar o que, no começo, era apenas uma ideia.

Neste dia do trabalho, a Bienal 360° ajuda o leitor a entender melhor como é o processo de elaboração e criação de um livro, da ideia inicial ao objeto pronto para ser lido. Desde o século 15, quando o alemão Johannes Gutenberg imprimiu a Bíblia ainda de forma bastante rudimentar, o livro segue como um objeto essencial para o desenvolvimento da humanidade.

De lá para cá, no entanto, ele foi sendo aprimorado como objeto e hoje movimenta uma cadeia enorme de produção, absorvida por milhares de leitores no mundo todo.

Apesar de nos últimos anos a autopublicação ter aberto uma nova frente para quem quer publicar uma obra, as editoras ainda têm papel fundamental na produção de livros — das pequenas aos grandes conglomerados. E é lá que quase todo o processo de feitura se dá.

Marcos Pereira: “As editoras e livrarias, que são poucas para um país do tamanho do Brasil, estão concentradas no sul e no sudeste, então a logística passa a ser muito importante.”

Autor, preparador e editor

A partir da ideia inicial e da primeira versão escrita, que no mercado editorial é chamado de “original”, tudo começa. Com esse texto em mãos, um editor vai ler e sugerir alterações. Se for uma obra de ficção, pode propor mudanças na história, se for um livro técnico, cortar ou adicionar informações, temas e capítulos.

Há também a figura do preparador, que após a aprovação do livro pelo editor, vai trabalhar diretamente no texto em relação à fluidez, à padronização e continuidade da escrita e, se for o caso, pode até reescrever certos trechos para dar mais clareza à obra. O resultado é um arquivo repleto de marcações em vermelho, com as alterações. O preparador é quem vai “limpar o texto”, nas palavras da editora-executiva da Autêntica, Rejane Santos.

“Para muitos livros, a preparação é importantíssima. Às vezes, a obra é interessante, mas o autor não soube adequar muito bem sua escrita. O texto precisa ser como uma estrada limpa, não pode ter lombadas, obstáculos no caminho.”

Com sede em Belo Horizonte e há 24 anos no mercado, a Autêntica começou lançando livros para o público universitário. Mas ao longo dos anos abriu o leque e hoje edita de romances “cabeça” a young adult, de infantis a livros de arte.

“Cada tipo de livro tem suas peculiaridades, demanda um tipo de cuidado e de profissional. Mas em todos, a revisão é uma obsessão nossa. Porque o trabalho pode estar lindo, mas, se há uma vírgula fora do lugar, o leitor vai perceber”, diz Rejane.

Rejane Santos: “O trabalho pode estar lindo, mas, se há uma vírgula fora do lugar, o leitor vai perceber”.

Designer e revisor

Antes da revisão final, entra em cena o designer, que escolhe o tipo de fonte (letra), como serão as margens, ilustrações, etc. Ou seja, é quem dará “a cara” para o livro. A obra também pode ter um pesquisador, fotógrafo e ilustrador, dependendo do tema. Nos livros de literatura infantil, autor e ilustrador têm praticamente a mesma importância, pois para a criança é importante também “ver” a história.

É só depois disso que será feita a revisão ortográfica. Um especialista vai checar se as regras da língua foram respeitadas, se há viúvas (palavras solitárias em uma linha) ou espaços duplos entre as palavras. Essa revisão é feita com o livro diagramado, que no jargão das editoras é chamada de “prova” ou “boneco”.

Dependendo da complexidade do livro e da obsessão do revisor, pode-se haver sete, oito, dez provas, com mais de um profissional lendo, além do editor. No meio de todo esse processo, é preciso solicitar um número de ISBN (International Standard Book Number), fornecido pela Câmara Brasileira do Livro, mediante pagamento de uma taxa. Esse número é como se fosse o DNA do livro, que vai identificá-lo no meio do imenso mar de publicações.

Depois, deve-se pensar em textos de “orelha”, prefácio, posfácio ou quarta capa. Muitas vezes, para chamar a atenção do leitor, esses textos são encomendados e assinados por gente bem-sucedida na área da qual o livro se encaixa. Se for um livro de literatura, de prosa ou poesia, é comum que autores consagrados sejam chamados para avalizar a obra.

Aí tem a embalagem, que é a capa, e o título, que não é uma tarefa fácil, pois é com ele que o leitor pode ser “fisgado”. Só então o livro segue para ser impresso. E é sempre com emoção. Quem já editou um livro conhece o frio na barriga que dá antes de pegar a obra impressa. Depois de tanto trabalho, revisões e revisões, achar um erro é o pior dos mundos.

A apresentação gráfica de um livro, muitas vezes, é fundamental para “fisgar” o leitor.

Impressão e expedição

Quase todas as editoras do país terceirizam a impressão de seus livros. O grupo Record é uma das poucas que possuem gráfica própria para fazer seus livros. “Nosso parque industrial é muito bom, dá conta de atender as editoras”, diz Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). “Uma das coisas que deve ser bem pensada nesta fase de produção é a tiragem da obra. É preciso avaliar bem a viabilidade de cada livro, para que ele não encalhe, ou, por outro lado, deixe leitores desamparados”, completa.

Para Pereira, que também é sócio-fundador da Sextante, o mais “complicado” é a distribuição. “As editoras e livrarias, que são poucas para um país do tamanho do Brasil (cerca de 1.500), estão concentradas no sul e no sudeste, então a logística passa a ser muito importante.”

Nessa etapa da “cadeia do livro’, Rejane destaca os profissionais da “retaguarda”, que não costumam aparecer nos créditos de uma obra. Trata-se, primeiro, dos encarregados em fazer a expedição do produto — embalar e cuidar da logística daquilo que seguirá ou para o consumidor final ou para outros distribuidores, que são as livrarias.

Mesmo com o crescimento das vendas online — o que “salvou a leitura no Brasil durante a pandemia”, conforme Marcos Pereira —, as editoras precisam de espaço para guardar seus estoques. E livro é volumoso. “A Autêntica tem 1.400 livros ativos no catálogo. É preciso organizar bem esse showroom. Por isso a importância dos profissionais da logística em uma editora”, diz Rejane.

Na pandemia, sua editora cresceu, não demitiu ninguém e contratou mais profissionais para a equipe, que hoje conta com 52 pessoas. Além de Belo Horizonte, há funcionários em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília.

Comunicação e marketing

Outros profissionais importantes, mas que não apareçam para o leitor, são os que trabalham na comunicação e no marketing. “Depois de impresso o livro, é preciso convencer um monte de gente: o jornalista a dar espaço nos veículos de comunicação, o livreiro a vender a obra…”, diz Marcos Pereira. E esse trabalho é feito paralelamente à venda dos livros.

Perigo à vista

Muitos desses empregos podem estar em perigo. A Constituição de 1988 garantiu a imunidade tributária ao livro e uma decisão de 2004 o desonerou das contribuições de PIS e Cofins. No ano passado, porém, o governo federal — em sua proposta de reforma tributária — sugeriu que os livros passem a ser tributados com a alíquota de 12% a partir da criação de um novo imposto chamado CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), o que deve causar grande impacto no segmento e no valor final do livro.

Marcos Pereira e Rejane Santos acreditam que a proposta “não vai passar”, mas vislumbram um período difícil para o mercado editorial se realmente houver a tributação. “Se acontecer, além de o preço do livro aumentar mais ou menos uns 20%, muitas livrarias, que já sofreram muito na pandemia, vão fechar. E mais empregos deixarão de existir”, diz Marcos Pereira.