Os múltiplos caminhos narrativos do K-Pop

O K-Pop, por definição, refere-se à música pop sul-coreana — representada por grupos como o BTS, por exemplo, eleito “artista do ano” pela revista Time em 2020 e o primeiro a chegar ao topo da Billboard com uma letra em coreano, a Life goes on. Esse estilo musical, no entanto, é apenas uma das facetas de um grande movimento cultural iniciado na Coreia do Sul no final da década de 1990.

A fama do BTS, formado em 2013, foi decisiva para espalhar a cultura do K-Pop pelo mundo.

A Hallyu, ou Onda Coreana, vem há mais de 20 anos promovendo a imagem do país por meio de seus bens culturais. “K-Pop na música, K-Food [comida], K-Beauty [estética], K-Dramas [novelas]: K-TUDO!”, explica Érica Imenes, uma das apresentadoras do podcast Kpapo e coautora — ao lado de Babi Dewet, também ouvida pela Bienal 360º — dos livros Manual de sobrevivência (2017) e Além da sobrevivência (2019).

Érica Imenes é jornalista, escritora e uma das apresentadoras do podcast Kpapo.

As obras, que ainda contam com as contribuições de Natália Pak e Sol Paik e foram pensadas para iniciantes e já iniciados no K-Pop, apoiam-se em uma pesquisa de aproximadamente 300 páginas que Érica elaborou para seu TCC de Jornalismo. Além disso, são frutos de quase uma década de estudo das autoras a respeito da Hallyu.

Em um panorama cultural tão vasto, a literatura não poderia ficar de fora. “Com toda certeza os universos e linguagens da literatura e K-Pop podem se complementar. A literatura é basicamente isso, a união de vivências, experiências, informações e histórias diferentes”, diz Babi, autora do livro Sonata em punk rock (2016), que traz toda vibe e personagens inspiradas nas novelas coreanas.

Babi Dewet é autora de ficção, mantém um canal com seu nome no YouTube e apresenta o podcast Kpapo.

Junção de dois mundos

No Brasil, ao que tudo indica, essa relação vem se fortalecendo com o tempo. Em 2020, chegaram às prateleiras nacionais os títulos Um lugar só nosso, de Maurene Goo, Shine: uma chance de brilhar, de Jessica Jung, e Nasci para brilhar, de Lyla Lee — todos ambientados no universo do K-Pop.

“Acho que é questão de tempo para o próprio mercado brasileiro encontrar autores que sejam fãs e estejam escrevendo essas histórias — porque elas estão sendo escritas”, afirma Babi, em uma visão que é compartilhada por Érica: “Temos autores incríveis de fanfic aqui no Brasil, mesmo que a maioria esmagadora não esteja publicando seus trabalhos em editoras”.

A vida com você, de Bárbara Lorrany, Primeiras vezes — Volume 1, de Penélope A., e Diário de um Army, de Natally Cristina, são exemplos de obras à margem do mercado tradicional: as três foram publicadas apenas em e-book e estão disponíveis na Amazon.

Para além do trabalho ficcional dos escritores, várias músicas de K-Pop dialogam abertamente com a literatura e têm enorme engajamento do público. As referências vão dos clássicos poemas Paraíso perdido e Divina comédia, de Milton e Dante Alighieri, respectivamente, às narrativas mais populares, como Harry Potter (J. K. Rowling) e O iluminado (Stephen King).

Os clipes de Paradise lost, da artista Gain (integrante do grupo Brown Eyed Girls) e inspirado na obra de Milton, e Joker, do grupo feminino Dalshabet e baseado no personagem homônimo da DC, somam juntos cerca de 36 milhões de visualizações no YouTube.

Outros caminhos

O mês de fevereiro de 2020 foi um ponto de virada na história do cinema: durante a cerimônia do Oscar, realizada no dia 9, o filme Parasita — dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho e com atuações de Song Kang-ho e Jang Hye-jin, entre outros — levou quatro estatuetas para casa, incluindo a de melhor filme.

Já no dia 21 de dezembro de 2012, há quase uma década, o clipe Gangnam style se tornava o maior viral da história da internet ao atingir o número de 1 bilhão de visualizações no YouTube. Hoje, a música de Psy está chegando aos 4 bilhões de views — o que representa mais da metade da população mundial.

Para quem quiser se aprofundar mais no que há por trás dessa civilização asiática, e talvez compreender melhor a disseminação e ascensão de sua cultura, Babi Dewet deixa três dicas: Pachinko, de Min Jin Lee, um calhamaço de mais de 500 páginas que narra a saga de quatro gerações de imigrantes coreanos no Japão do século 20; Herdeiras do mar, de Mary Lynn Bracht, sobre a pouco conhecida saga das mulheres coreanas na Segunda Guerra Mundial; e Contos da tartaruga dourada, de Kim Si-seup, considerado o ponto fundador da prosa coreana.