Os monstros invadem Belo Horizonte no novo livro de Jim Anotsu

Aos 33 anos, o mineiro Jim Anotsu já coleciona 13 livros publicados e uma certa fama de autor de histórias bem mirabolantes. A mais recente delas partiu de uma ideia inusitada: e se na época de Juscelino Kubitschek, o ex-presidente nascido em Minas Gerais e “pai” de Brasília, tivesse existido monstros?

Foi assim que nasceu O serviço de entregas monstruosas, um livro infantojuvenil bem diferente que a editora Intrínseca acaba de publicar. Na trama, uma conspiração quer destruir o mundo mágico para sempre, e apenas um menino de 13 anos, chamado Gustavo, uma fada sabichona, chamada Strix, junto com um dragão “beeem desobediente”, podem salvá-lo.

Com suas motos e vassouras voadoras, o Serviço de Entregas Monstruosas leva encomendas sobrenaturais para qualquer lugar de Bello Horizonte — isso mesmo, uma cidade quase com o mesmo nome e características da capital mineira.

E quando Gustavo e a fada Strix sofrem uma tentativa de roubo na sua primeira entrega, as coisas ficam ainda mais complicadas. Isso porque, sem saber, eles carregavam uma raridade digna da atenção de grandes mestres do crime… o último ovo de Dragão da Patagônia.

Jim Anotsu: “Costumo dizer que faço literatura infantojuvenil pós-moderna”.

Pós-moderno

O livro é contado em “mineirês” por um personagem “não confiável”, o próprio menino Gustavo, e apenas “traduzido” por Jim Anotsu, que acabou colocando umas palavras que o narrador não entende e “não gosta”.

Com muitas imagens e outros elementos que interagem com a narrativa, o livro chama a atenção pela extensão. São mais de 400 páginas, algo “fora do padrão” dos livros publicados para o público leitor na faixa dos 8 aos 13 anos no Brasil.

Essa e outras ousadias estéticas estão no centro do projeto literário de Anotsu, que escreve desde os 8 anos de idade e foi “alimentado” na infância com clássicos da literatura para jovens, como A ilha do tesouro, do escocês Robert Louis Stevenson.

“Costumo dizer que faço literatura infantojuvenil pós-moderna”, diz o autor, que publicou seu primeiro livro em 2010. “Isso porque uso recursos como a metalinguagem e gosto de brincar com referências literárias de outros estilos também. Por exemplo, a questão do narrador não confiável, falho e às vezes mentiroso, vem de Machado de Assis e de Laurence Sterne, autor de A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy”, explica o autor.

Literatura brasileira

Formado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com habilitação voltada para o estudo de clássicos da literatura inglesa, ele traz uma bagagem de autores pós-modernos como os americanos Thomas Pynchon e David Foster Wallace. Autores considerados “difíceis” até mesmo por leitores experientes.

E a epígrafe de Pynchon que abre O serviço de entregas monstruosas“Por que as coisas deveriam ser fáceis de entender?” — é uma espécie de mantra para Jim Anotsu e seu projeto estético.   

“Lá fora os livros para crianças são enormes. Mas no Brasil há uma tradição de livros de 100 páginas”, diz. “Quero mesmo desafiar os jovens leitores, que eles não tenham medo de encarar um livro grosso e que traga referências diferentes. É uma semente. Se um leitor, no futuro, depois de passar por vários outros livros, identificar as referências que trago em meus livros, isso para mim é o suficiente”, diz o autor, que “deu um jeito” de colocar referências de O leilão do lote 49, de Thomas Pynchon, em O serviço de entregas monstruosas.

Mas apesar de dar o seu toque pós-moderno ao gênero, Anotsu se diz um grande admirador da literatura infantojuvenil brasileira, que qualifica como “uma das melhores do mundo”. Ele elogia o trabalho da conterrânea Stella Maris Rezende, da paulista Janaina Tokitaka e de uma das decanas da literatura infantil brasileira, Lygia Bojunga.

Outra marca dos livros de Jim Anotsu, que também está muito presente na obra mais recente, é a “mineirice”. Belo Horizonte é mais que cenário de O serviço de entregas monstruosas, é praticamente uma personagem da trama.

“Os jovens leitores conhecem detalhes da Londres de Neil Gaiman. Sabemos tudo sobre Nova York, mas quase nada sobre os lugares mais próximos de nós. A Pampulha é o quintal da minha casa, então é muito natural que eu coloque esse lugar nas histórias.”

Uma outra vertente do trabalho do escritor são as histórias em que ele situa seus personagens no mundo imaginário do jogo Minecraft. Ele começou a escrever de forma despretensiosa, mas as histórias se tornaram um grande sucesso e foram parar em quatro livros, que foram traduzidos com sucesso em países como Itália. “Inclusive escrevi outros dois livros especialmente para os leitores italianos, que não foram publicados no Brasil”, diz o autor dos também populares A batalha do Acampamonstro, Rani e o Sino da divisão.

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O serviço de entregas monstruosas
Jim Anotsu
Intrínseca
416 págs.