Os dilemas dos super-heróis humanos

Super-heróis de índole duvidosa, zumbis clássicos, muito sangue e intrigas de toda sorte se combinam no imaginário do norte-americano Robert Kirkman, criador das histórias em quadrinhos The Walking Dead (2003-2019) e Invencível (2003-2018), ambas lançadas pela Image Comics.

A primeira, clássica história de zumbis adaptada para uma série homônima, foi um sucesso estrondoso — com Norman Reedus no papel de Daryl Dixon e Andrew Lincoln na pele de Rick Grimes. Agora, no último mês de março, a segunda HQ citada também ganhou uma versão audiovisual.

Robert Kirkman, criador das histórias em quadrinhos The Walking Dead e Invencível

Em oito episódios com cerca de 50 minutos cada, o desenho Invencível (ou Invincible, no título em inglês) é uma produção original da Amazon Prime Video recomendada para maiores de 18 anos.  

A primeira temporada, disponível para assinantes, parece se manter fiel à narrativa dos quadrinhos de Kirkman — com cabeças sendo esmagadas, corpos estraçalhados, problemas familiares, dilemas morais e estudantes do colegial tentando conciliar uma vida normal de adolescente com brigas contra alienígenas perigosos. De acordo com o criador, mais duas temporadas já estão confirmadas.  

Omni-Man, considerado o super-herói mais poderoso do planeta, é pai de Mark Grayson, o Invencível.

Resumo da trama

No desenho, Mark Grayson é, inicialmente, um estudante caricato de escola norte-americana: precisa lidar com os ataques frequentes do valentão e não tem coragem de chegar na menina que gosta. O único detalhe é que ele é filho de um vultramita, o Omni-Man, que saiu de seu planeta de origem para proteger a Terra — supostamente.

Meio alienígena e meio homem, filho da humana Deborah Grayson, Mark começa a descobrir seus poderes tardiamente — com destaque para o de voar — e passa a treinar com seu pai, que é tido como o super-herói mais forte do planeta, mesmo não fazendo parte da legião “oficial” de heróis, os Guardiões Globais.

Com isso, a tediosa vida escolar de Mark é substituída por intensas batalhas diárias contra os inimigos mais estranhos possíveis. Nesse novo ritmo, o protagonista — que escolheu “Invencível” como nome de batalha, quando está vestindo seu uniforme amarelo, azul e preto — se aproxima de outros seres superpoderosos mas cheios de problemas pessoais, como a Eve Atômica.

Invencível e Eve Atômica.

Detalhe sórdido

O primeiro episódio de Invencível já deixa claro que não se trata de uma história tradicional de super-heróis, na qual existe uma sólida lição moral a ser transmitida para o espectador. Muito pelo contrário, evidencia-se a sordidez do jogo social e mostra como o poder pode ser uma arma perigosa.

Após cerca de 30 minutos de desenvolvimento dos personagens, nos quais é feito um breve relato da infância de Mark Grayson, com seu pai e sua mãe sendo caracterizados, a história embrenha por caminhos violentos e sinistros envolvendo o Omni-Man e os Guardiões Globais — uma verdadeira carnificina, na verdade, para que fique mais claro. 

Depois disso, na abertura de cada novo episódio um splash de sangue é adicionado ao letreiro que surge na tela contendo o nome do desenho. O Invencível começa a se afogar em sangue, basicamente, e um conselho dado por sua mãe — a humana Deborah — parece ganhar maior relevância com o desenvolver da trama: “Você deve decidir o tipo de herói que quer ser”.

The boys é uma série da Amazon inspirada na HQ homônima de Garth Ennis.

Adaptações de sucesso

Invencível parece seguir uma linha em ascensão nos canais de streaming: a de adaptações de quadrinhos menos infantilizadas, nas quais predominam a violência, corrupção e desilusão — a minissérie WandaVision é um bom exemplo. 

Outra produção recente de grande sucesso é a série The boys, também lançada pela Amazon e inspirada na HQ homônima do britânico Garth Ennis, em que os super-heróis são funcionários públicos do tipo mais podre e precisam confrontar o justiceiro Billy Butcher e sua turma.

Já quando se pensa em um exemplo mais clássico, talvez Watchmen (1986-87) seja o grande nome. Na consagrada graphic novel do inglês Alan Moore, adaptada para o cinema por Zack Snyder em 2009, o governo proibiu a circulação dos super-heróis, mas Rorschach e alguns outros personagens nostálgicos não dão ouvidos ao decreto. Desenvolve-se uma história envolvendo conspirações, violência e paranoia.

Clancy, protagonista de The midnight gospel.

Desenhos para adultos

Os desenhos para adultos não são novidade. Pelo menos desde Os Simpsons, criado em 1989, e South Park, de 1997, esse segmento já é muito bem representado. Mas parece haver, atualmente, um fôlego renovado do gênero, principalmente nas produções da Netflix.

Em BoJack Horseman (2014-20), o personagem que dá nome ao desenho é um cavalo alcoólatra e drogado que não consegue se libertar do passado, quando era um figurão de sucesso em uma sitcom. A narrativa se desenvolve com inúmeras questões existenciais pesadas e personagens cheios de camadas, como a agente de talentos Princess Carolyn (felina), ex-namorada de BoJack, e a escritora Diane Nguyen (humana).

E em The midnight gospel (2020), para fechar com dois exemplos, essa questão mais adulta é levada ao extremo. Muito focada no roteiro, com diálogos profundos sobre os mais diversos assuntos — espiritualidade, alcoolismo, sexo, sentido da vida —, a animação é protagonizada por Clancy, apresentador de um podcast intergaláctico.