Os desafios da literatura infantojuvenil

Autoras como Ruth Rocha e Lygia Bojunga dedicaram suas carreiras exclusivamente à literatura infantojuvenil, sem desvios de rota no caminho. Mas mutos escritores que publicam livros para crianças também têm trajetórias sólidas na “literatura adulta”. Mesmo Monteiro Lobato, o “pai” da literatura infantil brasileira, também publicou em outros gêneros.

Marina Colasanti é um caso exemplar. Grande parte de sua carreira foi dedicada à literatura para crianças, com obras que lhe renderam inúmeros prêmios e a fizeram ser muito lida e reconhecida por essa produção. Mas Marina estreou com um livro “inclassificável” — Eu sozinha (misto de crônica e conto, com toques autobiográficos), em 1968, quando trabalhava no Jornal do Brasil. Desde então, sua carreira “adulta” se tornou também referencial, com livros espalhados pelos mais diversos gêneros, do conto à poesia.

Consagrada nos dois “universos”, ela não consegue diferenciar aquilo que escreve, seja para adulto ou criança. “Eu só penso no conjunto como um todo”, diz a autora, que em 2020 lançou um elogiado livro de poemas, Mais longa vida, após hiato de 10 anos no gênero.

Marina Colasanti: “Ao sair de um gênero e entrar no outro, me sinto renovada, com um novo olhar a empenhar no próximo livro”.

Para qualquer idade

“É como se estivesse realizando um mosaico em que cada livro, independentemente do gênero a que pertence, representa uma peça. Mas sei que o conjunto mais importante, aquele em que represento a excelência, é o das histórias maravilhosas. Que se destinam a qualquer idade.”

O paranaense Miguel Sanches Neto, aos 55 anos, é autor de dezenas de livros, nos mais diversos gêneros, entre eles o infantojuvenil. Ele conta que a produção infantil começou muito cedo, ainda nos anos 1980, quando se dedicava a estudar e produzir poesia. “Mas só fui publicar quando minha filha era criança, nos anos 2000, quando eu tinha uma interação dela como minha primeira leitora. Fiz até livrinho artesanal. Lia as histórias para ela e as amigas”, diz o autor de romances históricos como Um amor anarquista e A Bíblia do Che.

Um de seus livros dedicados às crianças também traz um enredo embalado em fatos históricos. A guerra do chiclete conta a história de meninos que, em meio à escassez de látex durante a Segunda Guerra Mundial, tentam fazer uma pequena revolução na cidade onde moram.

Entre gêneros

Sanches Neto é um operário da palavra. Há 30 anos ele escreve diariamente, ou conforme gosta de frisar, “madrugadamente”. “Estou sempre em um projeto de escrita. A safra é contínua, não há entressafra”, diz. “O que há é que eu descanso de um gênero trabalhando em outro.”

Para Marina Colasanti, transitar entre a literatura infantil, a ficção, a crônica e a poesia, é uma “necessidade”. “Mudar de gênero me obriga a mudar a maneira de caçar. Todo escritor é um caçador, de temas, de palavras, de construções linguísticas. E cada caça tem suas próprias manhas, exige armas apropriadas. De modo que ao sair de um gênero e entrar no outro, me sinto renovada, com um novo olhar a empenhar no próximo livro.”

Já a paulista Sônia Barros fez caminho inverso. Ela estreou como autora infantojuvenil em 1997, e só uma década depois lançou seu primeiro livro de poesia, chamado Mezzo voo. Mas a poesia sempre foi presente em sua vida.

“Só depois, quando lecionava para crianças e adolescentes, senti vontade de escrever para esse público leitor que tanto me cativou e sensibilizou durante a convivência em sala de aula. Foi nesse período que resolvi apresentar originais às editoras e, então, com a publicação e boa receptividade dos primeiros livros, veio a certeza de que era o caminho que eu desejava seguir”, diz a autora, que em 2014 venceu o Prêmio Paraná de Literatura na categoria Poesia, com a coletânea Fios. Mas a poesia continuou predominando. Em 24 anos de produção literária, além dos três livros de poemas para o público adulto, a maioria dos seus livros infantis é de poesia ou prosa poética.

Miguel Sanches Neto: “No fundo, os adjetivos, ‘infantojuvenil’ no caso, são secundários. O texto tem que ser literário e ponto final”.

Desafios

Vários grandes autores da literatura brasileira se aventuram a escrever livros para crianças, com grande sucesso. Clarice Lispector, João Ubaldo Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade são alguns exemplos.

Eles tiveram que “adaptar” seus discursos para uma nova linguagem e um novo público, já que um dos desafios da literatura para crianças é justamente saber transitar em um universo em que há mais limites se comparado à literatura adulta, tanto na forma quanto no conteúdo.

É fundamental saber que aquele texto terá que ser lido por uma personalidade em formação, com um universo imaginário muito forte, com um vocabulário ainda em construção, conforme frisa Miguel Sanches Neto. Ele tem um livro infantil na gaveta que ninguém quis editar porque fala sobre uma máquina cujo combustível é o xixi. As pessoas então vão até ela para abastecer o reservatório. “No fundo, os adjetivos, ‘infantojuvenil’ no caso, são secundários.”

Maria Colasanti conhece bem os desafios da literatura infantojuvenil, mas diz que não precisa “virar a chave” quando escreve para crianças. “Só preciso ter a intenção. E o foco. Abordo os mesmos temas, sofrimento, medo, enfrentamento, amor, morte — temas que fazem a literatura para qualquer idade”, diz. “Nem posso afirmar que mudo de linguagem, pois minha linguagem é igualmente compactada e metafórica. O que muda é a forma de narrar.”

Sônia Barros: “Literatura, não importa a que público se destine, deve ser encantamento, sonho, fantasia, reflexão, emoção”.

Contra o didatismo

Marina, Miguel e Sônia são taxativos em relação a um certo vício de alguns livros escritos para crianças: o didatismo. Obras escritas menos sob a égide da arte e mais sob a régua da pedagogia, com o claro o objetivo de “passar ensinamentos ou mensagens”, conforme diz Sônia Barros.

“Literatura, não importa a que público se destine, deve ser encantamento, sonho, fantasia, reflexão, emoção”, diz a autora de Biruta, livro que ganhou o selo “Altamente Recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

São livros que Marina chama de “cavalos de Troia”. “O limite mais grave imposto à literatura infantil é o da educação. Desde François Fénelon, mentor do neto de Luís XIV, a literatura infantil tem um pé atado à educação. Escrevem-se livros para crianças com o claro propósito de “educar”, de veicular conceitos do momento, de forma suficientemente óbvia para não permitir dupla interpretação”, diz a escritora que no ano passado foi indicada, junto com o ilustrador Nelson Cruz, ao Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantojuvenil. O resultado será conhecido em março de 2022, durante a Feira do Livro Infantil de Bologna.

Mas, então, o que seria um bom livro escrito para crianças? Para Sônia Barros, há alguns critérios que podem ser levados em conta nessa avaliação, como levar o leitor a compreender melhor o seu próprio mundo. No entanto, ela prefere dizer que “um bom livro para crianças é capaz de envolver e sensibilizar leitores de todas as idades”. Definição que vai ao encontro do que pensa Miguel Sanches Neto: “O texto tem que ser literário e ponto final”.