Os amores e angústias de Maria Flor

Há uns 15 anos, a literatura brasileira passou por uma onda narrativa chamada autoficção. Livros de contos e romances cujas narrativas (e personagens) se aproximam muito da realidade vivida pelos próprios autores. Em sua estreia na literatura, a atriz Maria Flor utiliza esse recurso para criar o romance Já não me sinto só.

A narradora do livro se chama Maria e é atriz. A autora diz que ao escrever a história queria mesmo injetar uma “confusão” na cabeça do leitor. “Será que aquelas histórias realmente aconteceram com ela? O que é verdade e o que não é ali?”, diz.

Com uma escrita econômica, de frases curtas, o livro narra o drama de um término de relacionamento. Após se separar, Maria, a personagem, é convidada para fazer um filme em Jalapão, dirigido por Júlio, um diretor com quem teve uma história no passado. Tendo o Norte do Brasil como cenário para uma história de amor, a atriz passa por uma profunda jornada de autoconhecimento sobre quem foi e quem deseja ser.

Maria Flor: “Quero que meu livro seja lido por jovens mulheres que também desejam se autoconhecer, porque é essa a ideia do romance: uma pessoa que busca, antes de qualquer coisa, se conhecer”.

Da angústia à euforia

O reencontro com o ex-namorado, antes mesmo de revê-lo, desperta na protagonista as lembranças deste caso mal resolvido, anos antes. A partir do momento em que o vê, Maria então vivencia situações que vão da angústia à completa euforia. Outros personagens somam à trama boas doses de humor, impasses e curiosidades sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Entre gravações do filme e mudanças no roteiro, problemáticas históricas como o machismo também são abordadas pela autora. Nada que surpreenda os leitores que acompanham a postura contundente da atriz por meio das redes sociais, nas quais registra mais de 600 mil seguidores. Suas opiniões sobre a pauta nacional têm gerado amor e ódio na internet.

A escrita

O livro começou a ser escrito entre 2016 e 2017, mas foi só com o início da pandemia que a atriz conseguiu tempo para terminar o romance. “Comecei escrevendo a sinopse de uma narrativa, não sabia que seria um romance. Mas escrevia um pouco e parava, por conta dos compromissos profissionais. Em 2020, quando tudo parou, consegui tempo para finalmente sentar e escrever”, relembra. “Mas estava insegura com relação ao final da história, e meu editor me ajudou muito nessa fase.”

Maria Flor estreou como atriz em 2003, na série Malhação, da TV Globo. Desde então, participou de várias produções de sucesso, como a novela Cabocla e as séries Som & fúria e Aline, esta última adaptada dos quadrinhos de Adão Iturrusgarai.

Ela também escreve roteiros. Em 2012, produziu o roteiro, junto com Marcia Leite, da série do Multishow Do amor. Uma trama, que assim como em seu livro, gira em torno de um casal de jovens descolados.

Desde a adolescência

Maria Flor explica que escreve há muitos anos, desde a adolescência. Mas que nunca foi uma obsessão publicar um livro. “Surgiu a oportunidade, escrevi e publiquei”, diz. Ela também não identifica nenhuma influência imediata que aproxime seu livro com outra obra. “Acho difícil falar em ‘influência’, parece meio pretensioso.” Ainda assim, diz gostar muito de Clarice Lispector, de quem admira a obra e o “posicionamento como mulher”. “Li muito Saramago, acho um escritor fantástico”.

A obra do norueguês Karl Ove Knausgard, autor da série de romances Minha luta, também está entre as leituras marcantes de Maria. Em seis romances, Knausgard recria literariamente sua vida, em uma escrita memorialista e muito fluída, mas também carregada de dor. Um conceito literário que, de uma maneira outra, também está na história escrita por Maria Flor.

“Quero que meu livro seja lido por jovens mulheres que também desejam se autoconhecer, porque é essa a ideia do romance: uma pessoa que busca, antes de qualquer coisa, se conhecer”, diz a atriz, que em breve estará na nova novela da Globo, Um lugar ao sol.

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Já não me sinto só
Maria Flor
Ilust.: Anna Cunha
Planeta
192 págs.