Os 30 anos do assombroso “O silêncio dos inocentes”

Um dos momentos mais icônicos da brilhante carreira de Anthony Hopkins certamente foi quando ele deu vida ao macabro e enigmático Hannibal Lecter, personagem pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator em 1992.

Em pouco mais de 14 minutos em cena (de um filme de 2 horas e 18 minutos), o galês roubou o protagonismo de O silêncio dos inocentes, longa de Jonathan Demme lançado há 30 anos, em maio de 1991. A atuação de Hopkins, que acaba de receber mais uma estatueta, agora pelo papel em Meu pai, deu vida a um dos vilões mais conhecidos, amados e temidos do cinema.

E, junto com o estrondoso sucesso do filme, fez com que o livro O silêncio dos inocentes, do norte-americano Thomas Harris, se tornasse um grande best-seller. Desde então, os livros do autor já venderam mais de 50 milhões de exemplares no mundo.

Publicado em 1988, o romance policial teve carreira discreta até ser adaptado para o cinema com grande êxito. Autor de poucos livros (cinco, no total), Harris tinha lançado dois outros thrillers antes de O silêncio dos inocentes: Domingo negro (1975) e Dragão vermelho (1981), o primeiro a apresentar o psiquiatra canibal Hannibal Lecter.

Anthony Hopkins em cena de O silêncio dos inocentes, filme de Jonathan Demme que levou cinco estatuetas do Oscar.

O livro é sempre melhor?

Quando se fala em adaptações literárias para o cinema, há um clichê — em que muitos acreditam — que ecoa longe: “O livro é sempre melhor que o filme”. Neste caso, a sentença foi relativizada pela acachapante atuação de Hopkins e os prêmios que a adaptação recebeu.

O que, de certa forma, ofuscou a qualidade literária do romance, ainda que tenha se tornado best-seller mundial justamente por conta do sucesso do filme. Trata-se de uma situação muito peculiar, porque em geral são livros já consagrados, por crítica ou público, que atraem Hollywood. Mas quem viu o filme e leu o livro sabe que ambos são boas obras, cada uma à sua maneira.

O livro de Harris é daqueles que fisgam o leitor nas primeiras linhas e não o soltam antes do ponto final. É bem escrito e tem uma trama “amarrada”. A narrativa é muito fluida e não dá voltas. Nas primeiras páginas a jovem agente do FBI Clarice Starling (no filme, interpretada por Jodie Foster) é apresentada ao leitor, que já toma ciência da história que vem pela frente. Apesar de inexperiente, ela é encarregada de investigar um serial killer chamado Buffalo Bill, que mata e tira a pele de mulheres que usam manequim 42.

O assassino canibal

Jack Crawford, chefe de Clarice, então resolve enviar a pupila a uma penitenciária para entrevistar o famoso assassino Hannibal Lecter, que tinha o hábito de comer partes de seus vítimas. Com suas roupas simples e sotaque provinciano, ela vai atrás do sofisticado Lecter em busca de informações que possam levá-la até Buffalo Bill.

Entrevistar criminosos para entender como outros criminosos agem era uma novidade na vida real e na ficção nos anos 1980. Esse é o “pulo do gato” do livro, pois é como se fosse a “espinha dorsal” da narrativa, porque dá a um personagem periférico papel decisivo na trama.

E o que fez do filme um sucesso, o enigma da figura de Lecter, é aprofundado no livro. Os hábitos refinados, a inteligência e o gosto pela arte erudita do doutor assassino ganham sobrevida nas páginas do romance. O leitor, nesse sentido, tem muito mais Lecter do que o espectador do filme. Assim como o desenvolvimento psicológico de Starling e as tramas paralelas ganham maior destaque — as atrocidades cometidas por Buffalo Bill são narradas de forma minuciosa no romance.

O norte-americano Thomas Harris, autor dos livros O silêncio dos inocentes (1988) e Dragão vermelho (1981).

A origem do mal

Thomas Harris, que está com 81 anos, é uma espécie de ermitão da literatura americana. Não chega ao grau de isolamento de J. D. Salinger ou Thomas Pynchon, mas ficou 40 anos sem dar uma entrevista, até falar em 2019 à jornalista Alexandra Alter, do The New York Times. Na época estava lançando Cari Mora, seu primeiro romance desde 1975 a não ter Hannibal Lecter como personagem.

Evasivo, o autor repetiu diversas vezes frases como “acho que nunca inventei nada” ou “tudo aconteceu, nada foi inventado, você não tem que inventar nada neste mundo”, frustrando as tentativas da jornalista e do público em saber de onde vieram as ideias que criaram um dos maiores monstros da literatura mundial.

Mas em um texto da edição comemorativa de 25 anos de O silêncio dos inocentes, ele deu detalhes sobre de onde veio a ideia inicial para criar seu personagem mais famoso.

Nascido no estado do Mississipi, em 1940, Harris começou a trabalhar como repórter do periódico News Tribune. Nesta época também escreveu “contos macabros” para diversas revistas literárias. Nos anos 1960, foi repórter da agência Associated Press. É quando começa a tomar contato com o submundo do crime e com mentalidades patológicas.

No mundo cão

“Certa vez, a revista Argosy pediu que eu fosse à prisão estadual Nuevo León, em Monterrey, no México, para entrevistar um americano sentenciado à morte pelo assassinato de três jovens. Eu tinha 23 anos e achava que, por trabalhar na editoria de polícia de um jornal no Texas, já sabia tudo sobre a vida”, escreve Harris lembrando seus primeiros passos no mundo cão.

O preso se chamava Dykes Askew Simmons, um ex-paciente psiquiátrico de 30 anos. Ele havia tentado fugir da prisão e foi salvo por um médico, também detento. O dr. Salazar cuidava gratuitamente de doentes da comunidade próxima à prisão. “Era um homem pequeno e esguio, com cabelo castanho-avermelhado. Estava de pé, quase imóvel, e possuía certa elegância. Ele me convidou a sentar”, descreve Harris.

Depois de um bate-papo com o médico, o então jornalista fica sabendo pelo diretor da prisão que o agradável e educado dr. Salazar era um assassino. “Como ele é um cirurgião, sabia colocar a vítima em caixas bem pequenas. Ele nunca vai sair daqui. O sujeito é louco”, explica o diretor.

“Anos mais tarde, eu estava tentando escrever um romance”, relembra Harris. “Meu personagem, um detetive, precisava falar com alguém com um entendimento especial da mente criminosa. Perdido no enredo da obra, eu seguia meu detetive quando ele foi consultar um preso no Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos com Transtornos Mentais. Quem você acha que estava esperando na cela? Não era o dr. Salazar. Mas por causa do dr. Salazar pude reconhecer seu colega de profissão, Hannibal Lecter.”

E isso foi o máximo que Thomas Harris falou a respeito da gênese do seu personagem. O restante está em seus livros.

Em 2013, o dinamarquês Mads Mikkelsen encarnou o doutor Lecter na série de TV Hannibal.

Hannibal no cinema

O silêncio dos inocentes: Com atuação antológica de Anthony Hopkins, o filme de Jonathan Demme venceu 5 óscares, incluindo o de melhor direção e ator.

Hannibal: Dirigido por Ridley Scott e lançado em 2001, é baseado no livro de mesmo nome de Thomas Harris. Doutor Lecter fugiu da prisão e está há dez anos vivendo tranquilamente. A trama envolve o milionário Mason Verger, uma vítima e sobrevivente do ataque de Lecter que quer vingança.

Dragão vermelho: Lançado em 2002, a adaptação do livro homônimo conta a história de Lecter antes dos fatos mostrados em O silêncio dos inocentes. Novamente o FBI recorre ao médico para capturar um serial killer.

Hannibal (série): Na série de TV que estreou em 2013, o dinamarquês Mads Mikkelsen encarna de forma brilhante o doutor Lecter. A produção, considerada uma das melhores séries de todos os tempos, mistura histórias dos livros Dragão vermelho e Hannibal.

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O silêncio dos inocentes
Thomas Harris
Tradução: Antonio Gonçalves Penna
Record
360 págs.