O vigor da crônica brasileira, ontem e hoje, em dois lançamentos

Se o Brasil tem um gênero literário pra chamar de seu, esse gênero é a crônica. A História dá conta de que ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal des Débats, publicado em Paris. Mas é certo que aqui ela se aclimatou e tomou forma, com características muito próprias.

Se o ponto alto do gênero coincidiu com ascensão dos jornais diários, que foram palco para os mais brilhantes autores, com a migração para o ambiente online ela não esmoreceu. Dois lançamentos mostram o vigor do gênero no Brasil, ontem e hoje.

Vento vadio (um título brilhante) apresenta ao leitor textos de um dos grandes cronistas brasileiros, mas que em vida não teve sua obra publicada em livro. Antônio Maria deixou milhares de crônicas (não é exagero), e parte delas é agora reunida em um volume com 185 textos, a maioria deles (135) inédita.

Dando um salto dos anos 1950 para 2021, Mas em que mundo tu vive?, do gaúcho José Falero, apresenta a crônica em uma versão 2.0, que dialoga com os novos tempos (os textos saíram originalmente em uma revista online), mas sem deixar de olhar para o passado glorioso do gênero cujo mestre supremo é o capixaba, “naturalizado” carioca, Rubem Braga.

Antônio Maria, autor de Vento vadio.

Dez autores para entrar de cabeça na crônica

  • Rubem Braga
  • Nelson Rodrigues
  • Clarice Lispector
  • Xico Sá
  • Marina Colasanti
  • Paulo Mendes Campos
  • Martha Medeiros
  • Alvaro Costa e Silva (Marechal)
  • Luís Henrique Pellanda
  • Tati Bernardi
Martha Medeiros, importante nome da crônica brasileira.

O bom Maria

Antônio Maria faz parte de uma geração incrível de cronistas, que inclui o já citado Rubem Braga, e uma penca de autores vindos de Minas Gerais, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Aos Cavaleiros do Apocalipse mineiro juntam-se outros grandes da crônica, como Marina Colasanti, Clarice Lispector, João do Rio, Nelson Rodrigues e Cecília Meireles.

Essa turma fez a fama da crônica a partir dos anos 1950, consolidando o texto “anfíbio” que caracteriza o gênero, com o autor ora presente, ora ausente da narrativa — mas sempre onisciente. A partir do próprio umbigo, ele louva a beleza e o estapafúrdio da vida.

É isso que temos em Vento vadio, um estilo de texto único, marcado pela atenta observação de um homem que era múltiplo, atuando em várias frentes de trabalho, no rádio, na televisão, nas boates e na imprensa.

Maria era um cronistas “da noite” por excelência. Durante os anos 1950, assinou uma coluna chamada “Plantão Noturno”, onde descrevia suas observações sobre as festas e bares que frequentava.

Mas, para além desse seu lado boêmio, ele voltou seu olhar para os amores, encontros e desencontros, a gastronomia e o futebol.

A crônica que abre Vento vadio serve como cartão de visitas de Maria, que, com graça e lirismo, apresenta-se ao leitor.

“E com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria: Lembram-se dele? Arão gerou a Aminadabe, Aminadabe a Naasson, Naasson a Salmon, Salmon a dona Diva, que concebeu Antônio por obra e graça de Inocêncio, num entardecer chuvoso do Engenho Pontable”, diz trecho de “Evangelho segundo Antônio”, de 1964.

José Falero, autor de Mas em que mundo tu vive?.

O gênero hoje

Engana-se quem pensa que a crônica morreu junto com seus divulgadores mais célebres. Ela segue viva em autores como Xico Sá, Mário Prata, Antonio Prata, Gregorio Duvivier, Martha Medeiros, Luís Henrique Pellanda, Luiz Ruffato e Tati Bernardi.

O gaúcho José Falero acaba de entrar para esse time. Depois de surpreender crítica e leitores com um romance muito singular, em que mostra a vida sofrida de trabalhadores de um mercado em Porto Alegre, ele surge com Mas em que mundo tu vive?, uma seleta de crônicas publicadas originalmente na revista digital Parêntese.

E nas crônicas o leitor pode desfrutar da mesma fórmula que Falero usou para contar a história em seu romance: um texto que mistura a informalidade das falas das ruas, em um estilo consagrado por João Antônio, com um lirismo sincero e a perspicácia do observador que está no mesmo degrau que seus personagens.

“Um mano meu tinha um cachorro que tinha uns desmaios bizarros. Assim, do nada. Era pá, pum. Num segundo o bicho tava correndo e no outro tava caído. Era assim: pá, pum. Pá: tava correndo, pum: tava caído. Pá, pum”, escreve Falero no divertido “Pá, pum”.

O livro de Falero de certa forma presta um tributo aos grandes mestres da crônica com sua linguagem despojada, livre de afetação, misturando ensaio e ficção, memorialismo e crítica ácida, dando uma nova forma para um gênero que esteve sempre aberto para o olhar diferente de seus mestres.

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Vento vadio
Antônio Maria
Todavia
496 págs.

Mas em que mundo tu vive?
José Falero
Todavia
280 págs.