O que é psicanálise? Um mergulho no inconsciente em dois livros

A psicanálise é motivo tanto de piada quanto de adoração. Basta um passeio pelas redes sociais, ou escutar uma conversa de bar, para entender que essa forma de tratamento por meio da palavra, criada por Sigmund Freud (1856-1939) e que também tem em Jacques Lacan (1901-1981) um de seus grandes expoentes, encontra “especialistas” em todos os cantos.

Justamente por ter se tornado muito popular, tendo influenciado desde o trabalho do pintor Salvador Dalí aos filmes de Woody Allen, a psicanálise acaba sendo vítima de ataques do senso comum. O que não é de todo ruim, se pensar bem: significa que a coisa “pegou”. Mas significa, também, que muita desinformação corre a solta — caso parecido com os de Zygmunt Bauman e Nietzsche, já mostrados pela Bienal 360o.

Para pôr ordem na casa, dois livros lançados há pouco podem ser úteis. Em Freud sem traumas, Alexandre Carvalho escreve uma espécie de guia “para você entender, de uma vez, as teorias que desvendaram a mente humana e mudaram o mundo — e as nossas vidas”, segundo subtítulo da obra. Em uma linha semelhante, Silvia Ons surge com Tudo o que precisa saber sobre psicanálise, no qual se apoia principalmente em Freud e Lacan.

Freud, criador do termo e da prática da psicanálise.

O que é psicanálise?

Na introdução de Freud sem traumas, Alexandre Carvalho é categórico: Freud, comumente referido como o “pai da psicanálise”, é criador de “algumas das teorias mais impactantes, influentes e polêmicas de todos os tempos”.

Na base da psicanálise, segundo Carvalho, está a ideia de que “sob a superfície de cada emoção, de cada escolha, de cada comportamento agressivo ou amoroso, e até das nossas piadas levemente ofensivas, há um oceano oculto chamado inconsciente”.

Freud foi o responsável, assim, pelo modelo de tratamento que preza pela “purgação por meio da palavra”, por “incitar cada indivíduo a um exercício terapêutico de introspecção”. Não há mais uma via de mão única, na qual um (médico) manda e o outro (paciente) obedece. O chamado é para a guerra interior, por assim dizer.

É um avanço e tanto se for pensar na Idade Média, período no qual o “transtorno mental era visto como possessão demoníaca”. “E aí alguém com síndrome do pânico, se desse muita bandeira das suas ansiedades”, continua Carvalho, “tinha 99% de chances de ser queimado vivo.”

Silvia Ons, autora de Tudo o que você precisa saber sobre psicanálise. Foto: Gustavo Macri

A vida de Freud (resumida)

  • Nasce em 6 de maio de 1856, na Morávia, onde hoje é a República Tcheca
  • Muda-se para Viena em 1860, onde vai passar grande parte da vida
  • Em 1881, forma-se em Medicina; no ano seguinte, trabalha no Hospital Geral de Viena
  • Passa a acreditar no poder curativo da cocaína em 1884, sobre o que irá se arrepender
  • Ao assistir estudos de hipnose, em 1885, conclui que a mente pode ter um lado oculto
  • Trata pacientes com hipnose, em escritório próprio, a partir de 1887; não é muito habilidoso
  • Conhece e coopta o divã para sua pratica analítica em 1890
  • Estreia em livro com Sobre a concepção das afasias (1891)
  • Estudos sobre a histeria (1895), publicado ao lado de Josef Breuer, é tido como o marco zero do que viria a ser definido como psicanálise
  • Inventa o termo “psicanálise” em 1896, no artigo “Hereditariedade e a etiologia das neuroses”, sendo este um “método de exploração do inconsciente”
  • Lança A interpretação dos sonhos em 1899
  • Estrutura o aparelho psíquico em “id, ego e superego” a partir de 1923
  • Publica O mal-estar na civilização em 1930
  • Fumava 20 charutos por dia, o que muito provavelmente o levou a lutar contra um câncer de boca por 16 anos
  • Morre em 23 de setembro de 1939, após receber três superdoses de morfina

O amor-próprio ferido

Os livros de Alexandre Carvalho e Silvia Ons, além de tratarem de assuntos muito semelhantes, concordam em uma afirmação contundente: ao lado da teoria heliocêntrica de Copérnico (1473-1543) e da evolução de Darwin (1809-1882), a psicanálise — que sugere que o ser humano não é dono nem de seus próprios sentimentos — é um dos três fantasmas que surgiram para assombrar o amor-próprio do homem, que sempre tendeu a se achar no controle das coisas.

Para mergulhar em um desses pilares, em Tudo o que você precisa saber sobre psicanálise, Silvia Ons começa com uma brincadeira: “É impossível reunir em um livro tudo o que precisamos saber sobre a psicanálise”. Apesar da incapacidade informada já no início, a profissional elabora um guia bastante didático, com frases destacadas e sínteses do que foi explicado nos capítulos.

Algumas interessantes, e úteis para começar a se compreender a psicanálise, são: 

  • O único meio próprio da sessão analítica é o da palavra
  • Não existe análise sem transferência e, portanto, a autoanálise é impossível
  • A verdade que a psicanálise descobre diz respeito ao sujeito em sua singularidade
  • Só a psicanálise contempla que a depressão tem um sentido e uma causa inconscientes, que não é simplesmente um desarranjo bioquímico

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Freud sem traumas
Alexandre Carvalho
LeYa
258 págs.

Tudo o que você precisa saber sobre psicanálise
Silvia Ons
Paidós
272 págs.