O prazer de ouvir: podcasts invadem a literatura

A experiência e o prazer proporcionados pelo rádio nunca saíram de moda. Mas na era da internet, este emaranhado ao qual estamos conectados o tempo todo, os serviços de streaming revolucionaram o hábito de escutar um programa. E assim, tudo se segmentou. Existem programas sobre os mais diferentes assuntos. Inclusive literatura. “O podcast realmente cria uma proximidade com os ouvintes semelhante ao que o rádio faz”, diz o jornalista Rodrigo Casarin, que mantém o programa Página Cinco.

Rodrigo Casarin, do Página Cinco: “O podcast realmente cria uma proximidade com os ouvintes”.

Disponível em plataformas como Spotify, o podcast surgiu na esteira do blog de mesmo nome que ele mantém no portal UOL. Quando teve a ideia, Casarin queria experimentar novos formatos, “até para tentar algo além do texto”. Foi então que em 2019 fez sua estreia como “podcaster”, em um programa que mescla pequenas notas sobre literatura e entrevistas com autores.

Casarin há anos acompanha de perto a literatura brasileira contemporânea. E seu programa, claro, é pautado por esse “nicho” literário. Mas não se prende apenas a isso. Literatura mais “popular” também entra nas discussões, assim como temas “quentes” do momento, como a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, em que todos os setores da sociedade foram afetados, inclusive o mercado editorial. Autores como Sérgio Sant’Anna, o grande contista brasileiro morto em 2020, e J. K. Rowling, a “mãe” de Harry Potter, convivem plenamente juntos no Página Cinco.

Guerrilha literária

Essa mistura de assuntos, conduzidos em tom de conversa entre amigos, que fez do rádio um veículo de massa, é o que tem atraído também os ouvintes de podcasts literários. O 30: Min (fala-se 30 minutos) é um dos mais ouvidos do gênero. Ali, o primeiro mandamento é fazer da literatura algo “vivo”, “mostrar para as pessoas que elas podem ter uma relação íntima com os livros, mas descomplicada”, conforme explica Cecília Garcia Marcon, uma das apresentadoras do programa.

Cecília Garcia Marcon: “Ouvintes confiam muito em nossos comentários e indicações”.

Há oito anos no ar, o 30: Min já está no episódio 327 e é feito em um sistema de “guerrilha”, bem ao estilo do “faça você mesmo” que a internet ajudou a impulsionar. Cecília mora em Campinas, no interior de São Paulo, Vilto Reis, fundador do podcast, vive em Blumenau (SC), Arthur Marchetto, em Santo André (SP) e AJ Oliveira, na capital paulista.


AJ Oliveira: podcast é feito num sistema de “guerrilha”, sem grandes retornos financeiros.

A pauta e as gravações são feitas via Zoom e Skype, semanalmente, já que o programa costuma ser disponibilizado às segundas-feiras. De todos os integrantes, apenas Vilto Reis trabalha mais diretamente com literatura. Ele é editor de livros e foi o fundador do site Homo Literatus. Os outros apresentadores trabalham em áreas diferentes, mas são todos apaixonados por livros e literatura.

Vilto Reis, fundador do podcast 30: Min.

O empenho da trupe tem dado certo. No ano passado, o 30: Min ficou atrás apenas do podcast conduzido por Antonio Fagundes entre os programas literários do iTunes. “O sucesso é por conta da sensação de conversa com o leitor/ouvinte. Eles confiam muito em nossos comentários e indicações, pois fazemos críticas e elogios sem receio”, diz Cecília.

Para Rodrigo Casarin, é justamente essa liberdade que o podcast traz em sua essência, que tem feito a cabeça do público. Afinal, ler e ouvir parecem coisas bem distintas. Mas em se tratando de literatura, elas podem se complementar.

“Penso que meu público capta a proposta de olhar para o que há de verdade nos livros abordados, olhar para além da carcaça”, diz Casarin. “Daí que posso tratar de HQs magistrais e seriíssimas, só para pegar o exemplo citado, e também descer o sarrafo em obras literárias incensadas além da medida por campanhas de marketing, só para ficar em outro exemplo.”

Outro podcast dedicado aos livros que tem feito sucesso é o Rabiscos, que existe desde 2018. Além dos ouvintes brasileiros, o programa, disponível no Spotify, é ouvido nos Estados Unidos, Argentina e alguns países da Europa, segundo Tadeu Rodrigues, que junto com a amiga Jéssica Balbino fundou o podcast.

Além de todos os atrativos já mencionados que um podcast de literatura pode ter, Rodrigues lista alguns motivos mais prosaicos para o sucesso do formato. “Podcasts, como são mais longos, têm sido boas companhias em caminhadas, viagens, fones de ouvidos.”

“Queríamos algo constante e demos o foco na literatura contemporânea”, diz Rodrigues, que é advogado e escritor, mas se define principalmente como “leitor”. “Buscamos valorizar os lançamentos dos livros nacionais e optamos pela linha de conversas com autores”, explica sobre a pauta do programa, que é semanal e vai ao ar às terças-feiras.

Segundo a Abpod (Associação Brasileira de Podcasters), estima-se que no Brasil hoje há mais de 3 mil podcasts ativos. Poucos conseguem capitalizar com o trabalho. O 30: Min tem uma base grande de seguidores, e muitos deles colaboram mensalmente com uma campanha permanente de financiamento coletivo. São os chamados “padrinhos”, que ajudam a financiar o podcast e em troca recebem mimos quando acontecem promoções e edições especiais do programa.

Mas o que impera ainda é o prazer de falar sobre livros e literatura, independentemente dos meios para dar vida aos programas. “O podcast é algo que eu mesmo criei, toco a partir de casa, com estrutura própria e ‘apenas’ veiculo no UOL, da mesma forma que veiculo no YouTube, Spotify, Deezer e afins”, diz Casarin.

A seguir, confira as dicas dos entrevistados sobre alguns podcasts literários:

Quarta Parede: Um podcast onde duas amigas (Larissa Siriani e Anna Livia) analisam a construção de seus personagens favoritos da literatura, cinema e televisão. Em cada episódio, um personagem da ficção é selecionado e debatido. O tom é descontraído e divertido.

O Nome do Livro: Apresentado por Juliana Leuenroth, Luana Werb e Rafael Kalebe, discute livros de estreia, literatura e ditadura, mulheres na literatura, entre outros temas do momento. O programa mais recente trouxe um especial sobre Histórias em Quadrinhos.

Caixa de Histórias — B9: O diferencial aqui são as leituras. Sempre um trecho de uma obra é narrado e comentado buscando apresentar novos livros para novos leitores, mostrando uma nova forma de consumir o conteúdo escrito.

Põe na Estante: Conduzido pela jornalista Gabriela Mayer, é um clube de leitura em formato de podcast. Na pauta, obras brasileiras e estrangeiras, em programas quinzenais.

Litterae: Com apresentação da editora e escritora Anita Deak e do escritor e professor de literatura Paulo Salvetti, o podcast traz discussões sobre a escrita e o uso de recursos literários.

Ilustríssima Conversa: Podcast do caderno de mesmo nome da Folha de S. Paulo, traz entrevistas com intelectuais sobre assuntos contemporâneos, além de discussões sobre o mundo da arte.