O múltiplo Gregorio Duvivier

A figura de Gregorio Duvivier parece onipresente hoje. Desde que emergiu para o grande público, no começo da década passada, ele está em todo lugar. No YouTube com esquetes do canal Porta dos Fundos, na TV com o talk show Greg News, nas crônicas da Folha de S. Paulo, no teatro, no cinema, nos livros…

Seu mais recente projeto, “5x Comédia”, sobre a rotina imposta pela pandemia da Covid-19, acaba de estrear. Criada por Monique Gardenberg, é primeira série brasileira original do Amazon Prime Video.

Além do talento para atuar em várias frentes, há algo que o une a todas essas atividades: uma relação próxima com o texto escrito. Vindo de uma família de artistas — o pai, Edgar Duvivier, é músico e escultor; a mãe, Olivia Byington, cantora e compositora —, Gregorio teve acesso à literatura desde cedo, quando começou a ler histórias em quadrinhos com as séries Asterix, Tintim e Lucky Luke. O que logo o levou para o universo do fundador da literatura infantojuvenil brasileira, Monteiro Lobato, até chegar na prolífica obra do britânico Roald Dahl, autor de A fantástica fábrica de chocolate. “Acho que foi o autor que mais li, e que li mais vezes”, diz Gregorio. “É um poço infinito: Matilda, Convenção das bruxas, O bom gigante amigo”, diz, citando alguns dos sucessos do autor.

Gregorio Duvivier: “Conheci o [Luis Fernando] Verissimo, nos jornais de casa, e passei a sonhar em escrever como ele, com seu humor e seu poder de síntese. Até hoje sonho”.

O início com a poesia

Gregorio já tinha uma trajetória no teatro quando estreou na literatura, em 2008, com o livro de poemas A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, publicado pela editora carioca 7Letras.

E livro e autor chamaram a atenção de figurões da literatura brasileira. Millôr Fernandes e Ferreira Gullar elogiaram o jovem poeta. Em meio a trocadilhos, os poemas mostravam a verve humorística que seria marca de seus diversos trabalhos no futuro.

A boa recepção do livro o levou a dar um passo à frente como autor. Em 2013, a Companhia das Letras editou Ligue os pontos — poemas de amor e big bang. A nova coletânea foi igualmente festejada. O jornalista Marcelo Coelho se empolgou com os poemas e escreveu, na Folha de S. Paulo, que se descobria ali “uma nova e intensa estrela no horizonte da poesia brasileira”.

Uma recepção calorosa na sempre competitiva cena literária brasileira. “Nunca. Não pela frente. Se falaram mal de mim foi como se deve fazer: pelas costas”, diz o autor ao ser perguntado se sofreu algum tipo de preconceito por ser um ator que também é escritor.

Pensando em quem lê

Formado em Letras pela PUC-RJ e criado à base de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, Gregorio logo se destacou também como um cronista que tem ajudado a revigorar o mais brasileiro dos gêneros literários.

“Conheci o [Luis Fernando] Verissimo, nos jornais de casa, e passei a sonhar em escrever como ele, com seu humor e seu poder de síntese. Até hoje sonho.”

Apesar do início como poeta, Gregorio é um cronista “menos lírico” e mais alinhado com a pauta do dia a dia. Seus textos comentam o último escândalo de corrupção, as escorregadas dos políticos de plantão e o conservadorismo de parte da população. Sempre com um viés progressista — o que, em um país polarizado como o Brasil da última década, gera seguidores e detratores.

“Acho que não existe essa opção de estar distante dela”, diz sobre a política. “O homem é um animal político. Entendo quem prefere não se expor. Mas não consigo.”

Gregorio Duvivier comanda o Greg News: “O homem é um animal político. Entendo quem prefere não se expor. Mas não consigo”.

Escrever com prazo

E de onde surgem os temas? “O assunto parte quase sempre do papo. Que pode ser um papo com amigos ou comigo mesmo. Mas a conversa é o melhor ponto de partida. A crônica é o boteco do jornal.”

Ele cita Antonio Prata, Adriana Falcão (sua ex-sogra), Fabrício Corsaletti e Tati Bernardi como bons exemplos de cronistas que escrevem bem e “com estilo”.

Além dos livros de poesia e das crônicas, Gregorio também já assinou roteiros, textos de teatro e TV. Trabalhos que têm, cada um, suas próprias particularidades. “Acho que é importante ter em mente sempre quem está lendo”, explica.

“Uma crônica precisa dialogar com o jornal, um roteiro precisa contar uma história audiovisual, você precisa escrever com a cabeça no set de filmagem. Escrever é servir, e é preciso saber pra quem, como e quando. Não se escreve fora do tempo e do espaço.”

E, ultimamente, é o tempo quem tem pautado o que o escritor vai produzir. “Hoje quase não escrevo sem prazo”, revela. “Com o aumento da demanda, os textos com prazo acabam passando na frente, e furam a fila das prioridades. Por isso a poesia acabou ficando pra trás. Ninguém encomenda um poema. ‘Eu quero um soneto na minha mesa pra ontem!’ Taí uma ideia de esquete.”

Cena de 5x Comédia, primeira série brasileira original do Amazon Prime Video

Exercício de desapego

Mas para ele, de todos os formatos, o roteiro é o que exige um autor mais generoso. “Sua obra não lhe pertence”, afirma, com a autoridade de quem está acostumado a criar de maneira coletiva com os colegas do Porta dos Fundos, onde a profusão de ideias é uma das marcas.

“Um roteirista vaidoso não entendeu nada do seu ofício, e pode botar tudo a perder. O barato dessa profissão está em dividir a autoria, e deixar com que ela seja contaminada por todos os profissionais que tocarem nela. É um exercício de desapego.”

Desconforto para escrever

Comediante que publica livros, escreve roteiros e atua como ator. Guardadas as devidas proporções, a carreira de Gregorio Duvivier lembra a trajetória de Woody Allen, o cineasta nova-iorquino, clássico moderno, que caiu em desgraça após ser acusado pela filha adotiva Dylan Farrow de abuso sexual.

“Nem me fala”, diz Gregorio sobre as acusações que arranharam a imagem de um artista que é referência para ele. “Estou evitando me deparar com essas informações. Não vi o filme, nem li sua autobiografia. Acho ele um papa do humor feito a sério. Faz o tipo de comédia de que eu mais gosto, onde o humor flerta com o drama e a tragédia. Tomara que sua obra consiga se salvar do naufrágio.”

Além de tudo que escreve, Gregorio diz que “morre de vontade” de se arriscar na narrativa longa, no romance ou no conto, mas que esbarra no tempo. “Um projeto desses precisa de dedicação integral.”

Mas ainda que seu trabalho envolva o prazer de escrever e ter escrito, é uma espécie de desconforto que o guia quando se senta para produzir. “Escrever parte desse desconforto, desse não estar à vontade. Embora a crônica seja a arte de fazer parecer que se está à vontade.” E é isso que o motiva a estar em vários lugares, com sua assinatura e criatividade atenta ao mundo ao redor.