O legado de Rubem Fonseca

Morto há um ano, em 15 de abril de 2020, aos 94 anos, Rubem Fonseca segue um escritor popular, lido e editado. Autor de mais de 30 livros, em 2021 a Nova Fronteira reedita cinco obras do contista, que chegam aos leitores com novas capas, projetos gráficos e textos críticos (prefácios e posfácios).

São livros de várias fases da carreira do escritor, dos mais antigos O cobrador (1979) e O caso Morel (1973), até os mais recentes Calibre 22 (2017), José (2011) e Axilas e outras histórias indecorosas (2011). Além disso, haverá uma nova edição da HQ O seminarista, adaptada do romance homônimo, com roteiro do próprio Rubem Fonseca e ilustrações de Rodrigo Rosa.

Considerado um dos mestres do conto brasileiro, Fonseca também deixou sua marca em diferentes gerações de escritores — de Marçal Aquino a Raphael Montes, de Patrícia Melo a Tony Bellotto. O gaúcho Michel Laub engrossa a lista. Ele conheceu a obra do mineiro ainda na adolescência, “lá pelos 15, 16 anos”.

Rubem Fonseca se notabilizou pelos contos do início da carreira, mas se tornou popular com os romances.

Temas do cotidiano

“O que me atraiu primeiro foi que eram contos sobre temas muito diferentes dos que eram tratados nos livros do colégio”, diz o autor de Solução de dois estados, lançado em 2020. “Eram coisas muito mais próximas da minha vida — embora, claro, eu não fosse assassino, policial ou detetive particular.”

A explicação de Laub vai ao encontro do rótulo que a crítica colou em Fonseca: de grande renovador do conto brasileiro, gênero que nos anos 60 atravessava uma “entressafra”, depois de a geração de 45 ter retratado o Brasil profundo em histórias “regionalistas”.

Fonseca, que publicou seu primeiro livro, Os prisioneiros, em 1963, deu uma guinada, tanto na temática quanto na linguagem. Seus livros retratavam o crescimento das cidades, a urbanização do país, com tudo de bom e ruim que esse processo trouxe.

Michel Laub: “Tudo vem a partir da linguagem. Reli coisas dele recentemente e me dei conta disso — todo o ritmo daqueles primeiros contos, toda a originalidade, está na combinação fatal que ele faz de vocabulário e sintaxe”. Foto: Renato Parada

Muitas novidades

Influenciado pela literatura anglo-saxã, principalmente pelos americanos do começou do século 20, Fonseca trouxe várias novidades para a literatura brasileira. Ele apostou em histórias violentas, que mostravam o lado perverso do ser humano, mas que estavam atreladas a uma questão “social”, que mostrava de onde vinha a brutalidade exposta. Embalados em boas tramas, os relatos violentos, altamente sexuais e às vezes escatológicos não pareciam gratuitos.

Mas dentre todos os atrativos da literatura de Fonseca, certamente a linguagem é a mais celebrada por leitores e críticos. É o que mais atrai Michel Laub também. “Tudo vem a partir dela [a linguagem]. Reli coisas dele recentemente e me dei conta disso — todo o ritmo daqueles primeiros contos, toda a originalidade, está na combinação fatal que ele faz de vocabulário e sintaxe.”

Vindo da classe média letrada, Fonseca conseguiu passar incólume ao que hoje se convencionou a chamar de “lugar de fala”. A narração de um assalto violento na voz de um dos criminosos no célebre conto “Feliz ano novo” sempre foi visto como uma vitória da criação literária, e não como a emulação de uma realidade que não pertencia ao autor.

Marcelo Moutinho é autor de contos e crônicas que, assim como vários textos de Rubem Fonseca, têm o Rio de Janeiro como “personagem” e cenário. Como Laub, Moutinho acredita que o melhor de Fonseca está na linguagem moderna que trouxe para a literatura brasileira, até então encastelada em beletrismos que mais afastavam do que conquistavam leitores.

Vindo de uma família de comerciantes do subúrbio do Rio, ele foi fisgado pela prosa sem rodeios de um autor que levou a linguagem das ruas para os livros. “Eram diálogos semelhantes aos que eu ouvia nas ruas de Madureira, uma prosa sem enfeite, cuja contundência prescindia de penduricalhos formais”, diz Moutinho, autor de Rua de dentro.

Para Laub, essa “descida” do autor ao português das ruas, ajudou a “desmistificar a literatura”. “Ele conseguiu levar, para seus contos e romances, a fala das ruas”, confirma Moutinho. “Basta conversar com as pessoas para perceber como até hoje o palavrão muitas vezes é malvisto, no Brasil, quando se trata de texto literário. Rubem confrontou essa premissa torta há mais de quatro décadas.”

Mestre do conto

Quando Fonseca morreu, o crítico Alcir Pécora escreveu na Folha de S. Paulo que tinha sido no conto que o autor “atingiu o seu mais alto desempenho literário”. E lista uma série de autores que junto com Fonseca ajudaram a arejar o gênero no Brasil, entre eles Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

A opinião de Pécora é também a de várias gerações de leitores. Fonseca estreou no conto e seguiu fiel ao gênero por vários anos. Ele emplacou uma sequência de livros impactantes, com as coletâneas Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia McCartney (1967), Feliz ano novo (1975) e O cobrador (1979). Cinco livro de tirar o fôlego e que seguem atualíssimos até hoje.

“Para mim a obra dele é impecável no formato curto (ou médio, pensando naqueles contos que são quase novelas) até O buraco na parede, diz Michel Laub. “Depois alguma coisa aconteceu com o Rubem Fonseca (ou comigo como leitor) e nunca mais encontrei essa força nos textos.”

Marcelo Moutinho: “Mesmo em livros mais recentes, como José, de 2011, há essa perspectiva de decifração do espaço urbano, notadamente o Rio de Janeiro”.

Uma das marcas

O formato “médio” a que se refere Laub também é uma espécie de “marca” de Fonseca. Não eram raros contos de 40 ou 50 páginas, em que havia vários personagens e até mesmo reviravoltas na história, como num breve romance.

Em 1973, Fonseca publica seu primeiro romance — O caso Morel. Uma história que mistura crime, sexo, investigações nebulosas e uma espécie de jogo proposto pelo autor, em que vai dando pequenas pistas (às vezes falsas) ao leitor sobre o desenrolar da história. É um livro icônico em sua carreira porque mostra os caminhos que o autor seguiria dali em diante com romances policiais como A grande arte e Buffo & Spallanzani, ambos adaptados para o cinema, outra grande obsessão do autor.

Apesar de incensado pelas histórias cruas dos contos iniciais, foi com os romances que Fonseca atingiu maior público, para além daquele leitor “de literatura”. Seu livro Agosto, lançado em 1990, foi sucesso de vendas e virou minissérie da Rede Globo. No livro, Fonseca constrói um mosaico detetivesco cujo pano de fundo é o suicídio de Getulio Vargas em 1954. Era a grande literatura encontrando a massa.

“Li bem mais os contos. Mas entendo que os romances tenham essa acolhida de público”, diz Marcelo Moutinho. “No Brasil, embora tenhamos uma produção de excelência na área, as narrativas curtas costumam ficar à margem do romance. É uma lógica que o mercado tem imposto cada vez com mais força e na qual, infelizmente, alguns setores da crítica e do jornalismo cultural embarcaram.”

Biografia

José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925. No entanto, adotou o Rio de Janeiro e incorporou a cidade em sua obra. Apesar de ter uma postura reservada, evitando a imprensa e eventos literários, sua biografia era conhecida. Formando em Direito, trabalhou na polícia, morou nos Estados Unidos e foi executivo da Light. Descendente de portugueses, gostava de vinho e charutos, iguarias apreciadas por vários de seus personagens.

Nos últimos anos abriu a guarda e seu isolamento ficou menos rígido. Foi visto em diversos eventos públicos, como na entrega do prêmio Camões, o mais prestigioso da língua portuguesa, que ganhou em 2003 — no mesmo ano venceu o Juan Rulfo.

Esteve também, em 2010, na performance da pupila Paula Parisot, que ficou dias em uma caixa de acrílico dentro de uma livraria para promover seu romance. A escritora, inclusive, foi pivô da saída de Rubem Fonseca da Companhia das Letras, editora que se recusou a publicar um livro de Parisot “indicado” pelo contista.

Um das últimas aparições públicas do autor, em 2013, foi na inauguração de uma biblioteca no metrô carioca, onde discursou para os operários da obra. Em um depoimento emocionado a favor da leitura, o que fica também evidente é a verve carioca do mineiro Fonseca.

“Um olhar que busca ler a cidade a partir da algaravia de discursos que a atravessam”, conforme diz Marcelo Moutinho, citando “o magistral” conto “A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro”, no qual Augusto, o protagonista, reencena a figura do “flâneur”.

“Mesmo em livros mais recentes, como José, de 2011, há essa perspectiva de decifração do espaço urbano, notadamente o Rio de Janeiro”. E, para encerrar, cita trecho do livro que à época surpreendeu pelo tom autobiográfico empreendido pelo reservado Fonseca.

“José parava de ler a fim de perambular pelas ruas do centro, quando conseguia escapar de sua mãe. E as imagens os sons e os cheiros daquela cidade chamada São Sebastião do Rio de Janeiro o despertaram para outra realidade e lhe fizeram descobrir um novo e atraente mundo, deram-lhe uma vida nova.”


Em 2003, Rubem Fonseca venceu o Prêmio Camões, maior honraria da literatura em língua portuguesa, pelo conjunto da obra.

Biblioteca Rubem Fonseca

>> CONTOS
Os prisioneiros (1963)
A coleira do cão (1965)
Lúcia McCartney (1967)
Feliz Ano Novo (1975)
O cobrador (1979)
O buraco na parede (1995)
A confraria dos espadas (1998)
Secreções, excreções e desatinos (2001)
Pequenas criaturas (2002)
Mandrake, a bíblia e a bengala (2005)
Ela e outras mulheres (2006)
O romance morreu (2007)
Axilas e outras histórias indecorosas (2011)
Histórias de amor (2012)
Amálgama (2013)
Histórias curtas (2015)
Calibre 22 (2017)
Carne crua (2018)

>> ROMANCES
O caso Morel (1973)
A grande arte (1983)
Bufo & Spallanzani (1985)
Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988)
Agosto (1990)
O selvagem da ópera (1994)
Diário de um fescenino (2003)
José (2011)

>> NOVELAS
E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto (1997)
O doente Molière (2000)
O seminarista (2009)

>> ANTOLOGIAS
O homem de fevereiro ou março (1973)
Romance negro e outras histórias (1992)
Contos reunidos (1994)
64 Contos de Rubem Fonseca (2004)
O melhor de Rubem Fonseca (2015)