O início do Mestre do Terror: “Carrie”, de Stephen King, ganha nova edição

Faz quase meio século desde a estreia de Stephen King no romance. Carrie foi publicado em 1974, já com grande sucesso, e trazia alguns dos elementos que fariam o autor ganhar a alcunha de Mestre do Terror. Relações turbulentas, acontecimentos sobrenaturais e toques de perversidade se combinam no livro do norte-americano, que apresenta uma protagonista com poderes telecinéticos e acaba de ser reeditado pela Suma.

A ocasião é especial: em setembro, King completa 75 anos. Por isso, como parte das comemorações, Carrie volta com projeto gráfico renovado e uma tradução saída do forno, assinada por Regiane Winarski, que substitui a de Adalgisa Campos da Silva. Além disso, a editora prepara outras reedições e prevê o lançamento de Fairy tale, um inédito do autor.

A longevidade de King é impressionante para alguém que trabalhou compulsivamente por durante toda a vida, tendo atingido a incrível marca de mais de 90 livros publicados, e precisou desde cedo lidar com a fama.

Sem contar os problemas com álcool e drogas que enfrentou durante os anos 1980, período nebuloso para um autor cujo trabalho está enraizado, de várias maneiras, na cultura pop — a primeira adaptação de Carrie para o cinema, por exemplo, com direção de Brian De Palma, dá uma amostra disso.

Há, ainda, outras duas adaptações do mesmo livro: a de 2013, dirigida por Kimberly Peirce e com Chloë Grace Moretz no papel de Carrie; e a de 2002, com Angela Bettis no papel principal e direção de David Carson. A mais aclamada, no entanto, continua sendo a versão clássica de 1976.

Stephen King, autor de Carrie.

Conheça Carrie White

A Bienal 360º já mostrou que, para começar a entender a obra de Stephen King, o leitor terá de se virar nos trinta. As dezenas de publicações podem confundir a cabeça dos marinheiros de primeira viagem, mas o guia mencionado e mais esta reedição podem ser de grande ajuda. Se ainda não conhece o Mestre do Terror, por que não começar do começo, aproveitando a nova edição de Carrie?

No primeiro romance de King, que traz uma personagem baseada em duas meninas que o autor conheceu na escola, Carrie White é uma estudante excluída, alvo da crescente maldade das colegas. Em 1966, por exemplo, quando uma chuva de pedras atinge a casa onde a personagem e a mãe moram, as colegas ficam felizes que “a vadia White tivesse tomado na cara outra vez”. “O que nenhuma delas sabia, é claro, era que Carrie White era telecinética”, explica o narrador.

No meio do livro, uma definição do Dicionário Ogilvie de Fenômenos Psíquicos pode ajudar o leitor a entender o poder de Carrie, que futuramente será usado como vingança contra todos aqueles que, de alguma forma, tentaram ridicularizá-la ao longos dos anos:

Telecinese é definida como a capacidade de mover objetos ou provocar mudanças em objetos pela força da mente. O fenômeno foi descrito de forma mais confiável em momentos de crise ou situações de estresse, quando automóveis foram levitados para serem tirados de cima de corpos presos ou detritos tirados de prédios desabados etc.

Primeiros passos de Stephen King

  • Na faculdade, assinou a coluna “Caminhão de Lixo do King”
  • Não tinha grana nenhuma e costumava jantar uma iguaria, a Caçarola Cheery (combinação de cereais e creme de amendoim frito)
  • Começou a vender histórias de ficção científica e terror depois de se formar, apesar de ter publicado narrativas antes disso
  • O pontapé inicial foi com o conto “Último turno”, comprado por 200 dólares pela revista Cavalier
  • Conheceu a esposa, Tabitha Spruce, em 1970; em 73, tinham dois filhos
  • A ideia para o que viria a se tornar Carrie surgiu em 1972
  • O livro saiu dois anos depois, em 1974
  • Duas colegas de escola de Stephen King que sofriam bullying foram inspirações para montar a personagem do romance
Detalhe do pôster da adaptação cinematográfica de 2013, com Chloë Grace Moretz no papel de Carrie.

Nos bastidores da sangrenta redenção

Não dá para avançar no enredo de Carrie sem estragar a surpresa, mas a trama está focada em uma “pegadinha” contra a protagonista que terá consequências devastadoras, envolvendo incêndios e explosões — tudo noticiado em jornais da cidade, que é uma maneira de King conferir veracidade à narrativa.

O que dá para afirmar, sim, é que por meio da personagem King tentou acertar contas com aquelas duas colegas reais de escola, já mencionadas, que sofriam bullying. Uma delas, Tina, se suicidou, e a outra, Sandy, morreu em decorrência de um ataque epilético. Os nomes são fictícios, mas as história assombraram o autor.

“Esses foram os fantasmas que ficavam se intrometendo entre mim e o que eu estava escrevendo, que ficavam insistindo que eu os unisse de alguma forma numa história que contaria o que poderia ter acontecido se poderes telecinéticos existissem (e, até onde sei, eles podem existir)”, explica King no prefácio de Carrie. “O que poderia ter acontecido se o mundo fosse tão justo com meninas quanto ele é difícil para elas.”

É claro que exorcizar esses demônios por meio da escrita não foi tarefa fácil. King tinha medo de revisitar essas memórias, afinal, como explica no mesmo texto, não teve “sabedoria ou coragem moral” para impedir, na época, que suas colegas fossem tratadas daquela maneira. O livro veio à tona, no entanto, e restou um desejo do autor: “Às vezes — na verdade, com bastante frequência —, eu queria que Tina e Sandy estivessem vivas para lê-los”.

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Carrie
Stephen King
Trad.: Regiane Winarski
Suma 208 págs.