O incrível universo das biografias musicais

A era das vacas magras para fãs de música acabou há muito tempo. Com a chegada da internet, e mais recentemente do streaming, um disco está ao alcance de um clique. Algo bem distante da era analógica da música, quando conseguir um álbum (LP, depois CD) era caro e trabalhoso.

O mesmo vale para livros sobre música, muito mais escassos até a década de 90, quando o mercado editorial brasileiro como um todo deu um salto. Agora, com mais editoras e mais facilidade para publicar, as histórias sobre o universo musical tem se multiplicado.

Ano a ano, as livrarias são povoadas por novos lançamentos. Mas para ficar na música brasileira, saíram recentemente livros sobre Tom Zé (O último tropicalista, de Pietro Scaramuzzo), Luiz Melodia (Meu nome é ébano: a vida e a obra de Luiz Melodia, de Toninho Vaz), Jacob do Bandolin (Um coração que chora, de Gonçalo Junior), o movimento recifense Mangue Beat (Mangue Beat: a cena, o Recife e o mundo, de Luciana Ferreira Moura Mendonça), além de dois retratos diferentes sobre a trajetória dos Novos Baianos (Acabou chorare: o rock encontra a batida de João Gilberto, de Marcio Gaspar, e Caí na estrada com os Novos Baianos, de Marília Aguiar). 

André Barcinski: “Biografia musical já é um gênero bem estabelecido no Brasil”.

A editora Cobogó, por exemplo, tem uma coleção especial voltada para destrinchar álbuns, nacionais e internacionais. “O livro do disco” já publicou obras sobre o icônico disco de estreia da banda novaiorquina Velvet Underground e o também essencial A tábua de esmeraldas, de Jorge Ben Jor.

Os livros são “de tiro curto”, com no máximo 150 páginas, mas conseguem “contextualizar” as obras com o período em que foram produzidas. O mais recente lançamento da série é um livro em que Arthur Dantas Rocha analisa o clássico do rap nacional “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s.

Os fenômenos pop também não têm passado desapercebidos. Ícones do K-pop, a música jovem que vem da Coreia do Sul, os grupos BTS e Black Pink, apesar da pouca estrada, já ganharam biografias no Brasil. Além disso, vários outros livros que tentam entender o mais recente furacão da música adolescente tem sido publicados, como K-pop, manual de sobrevivência: tudo o que você precisa saber sobre a cultura pop coreana, que a Bienal 360° mostrou em matéria sobre as interfaces do fenômeno para além da música.

Anos 1990

“Biografia musical já é um gênero bem estabelecido no Brasil”, diz o jornalista e escritor André Barcinski. Mas nem sempre foi assim. Até os anos 1990, a oferta desses livros era bem menor. Nesse período, mais precisamente em 1991, Barcinski arrumou as malas e seguiu para os Estados Unidos em busca de entrevistas com bandas emergentes do rock americano. Entre elas o Nirvana, que estava lançando o disco Nevermind, responsável pelo estouro do movimento grunge e por colocar o rock novamente em primeiro plano no cenário musical.

Aos poucos Barcinski foi conseguindo entrevistas exclusivas com nomes como Ramones, The Cramps, Jello Biafra (Dead Kennedys), Ministry e Red Hot Chili Peppers. O que era para ser uma série de reportagens para a revista Bizz tornou-se um livro chamado Barulho, uma importante referência entre obras sobre música lançadas no Brasil. 

Detalhe da capa do livro Barulho, de André Barcinski.

“O Barulho foi acontecendo meio espontaneamente”, diz o jornalista da Folha de S.Paulo. “Depois que vi a quantidade de entrevistas que consegui marcar é que pensei que poderia virar um livro. Cheguei aos Estados Unidos exatamente no dia em que o Nevermind estava saindo. Peguei a ebulição de tudo. Era impossível, do Brasil, 30 anos atrás, saber que aquele negócio seria um fenômeno tão grande.”

Consumidor de biografias musicais desde os anos 1990, Barcinski diz que no Brasil já existia uma literatura focada em música, e cita o precursor O que é punk, de Antonio Bivar, lançado pela editora Brasiliense na icônica coleção “Primeiros Passos”, que visava “orientar” o jovem leitor em temas importantes.

“O Barulho não foi o primeiro, portanto. Mas talvez tenha sido um dos primeiros livros que lidou com rock internacional em reportagem”, diz o autor de Pavões misteriosos, livro que investiga o crescimento da música jovem no Brasil entre 1974 e 1983.

Muito mercado

Os artistas muito populares, claro, têm mais espaço nesse universo de publicações. É só pensar em quantas biografias há dos Beatles ou de Frank Sinatra. E, conforme diz Barcinski, “nos últimos anos esse mercado tem crescido muito”. O que fez aparecer também livros sobre personagens que atuam nos bastidores da música.

“Acabei de ler um livro sobre Don Kirshner, produtor da banda The Monkees. Ele não era uma figura conhecida do grande público, mas a história dele é brilhante. Outro cara que tenho lido muito, e tem livros lançados no Brasil, é o Peter Doggett. Ele tem um livro maravilhoso sobre o David Bowie, O homem que vendeu o mundo.

Lacunas

Mesmo com uma profusão de livros sobre música, o jornalista acha que existe muitos assuntos e personagens para se biografar no Brasil. Ele dá o exemplo dos artistas que durante a “era do vinil” venderam milhares de discos.

“Existem lacunas e muitas delas são sobre artistas considerados bregas. Existe um preconceito muito grande com a música popular brasileira. Música romântica dos anos 1950, 1960 e 1970”, diz o escritor que assina a biografia de João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, chamada Viva la vida tosca.

“Artistas como Nelson Ned, Odair José e Waldick Soriano, que venderam milhões de discos, precisam ser mais lembrados. Tem gente fazendo trabalho sobre esses artistas, como o Paulo Cesar de Araújo. Mas acho que é pouco ainda. As editoras e os serviços de streaming poderiam se dedicar a lançar mais documentários e livros sobre artistas que venderam muito e sustentaram a indústria do disco no Brasil em uma época difícil.”

Compre os livros na loja Bienal Rio

O homem que vendeu o mundo
Peter Doggett
Trad.: José Roberto O’Shea
Nova Cultura
572 págs.

The Beatles — A biografia
Bob Spitz
Trad.: Antônio de Pádua Danesi
Larousse
1000 págs.

Caí na estrada com os Novos Baianos
Marília Aguiar
Agir
208 págs.

Racionais MC’S: Sobrevivendo no inferno
Arthur Dantas Rocha
Cobogó
168 págs.

BTS: A biografia não oficial dos ícones do K-pop
Adrian Besley
Trad.: Viviane Diniz
Galera
210 págs.

João Gordo: Viva la vida tosca
João Gordo e André Barcinski
DarkSide Books
320 págs.