O Horror que pode transcender a ficção

As narrativas do Horror e do Fantástico foram o ponto de partida da terceira mesa realizada no Espaço Plural neste domingo, terceiro dia de Bienal do Livro Rio. A escritora argentina Mariana Enríquez e os norte-americanos Matt Ruff e Josh Malerman participaram pela internet para falar sobre algo que entendem muito bem: as relações travadas pelo gênero Horror entre ficção e realidade. 

Conhecida como Princesa do Terror, Mariana estreou na ficção aos 21 anos, com o romance “Bajar es lo peor”. Nos contos de “As coisas que perdemos no fogo” (Intrínseca), a escritora recorre ao sobrenatural para trabalhar os medos e traumas argentinos, como o período da ditadura militar. Em breve, a obra será adaptada para o audiovisual. “Estou feliz, disponível para ajudar no que for necessário (na adaptação). Só espero que não reduzam certas complexidades da trama. Mas estou confiante.”, completou.

O recente lançamento de “Nossa parte de noite” (Intrínseca) traz a história de pai e do filho que, para se protegerem da perseguição, tortura e assassinatos que caracterizam o regime militar, se envolvem com a Ordem, sociedade secreta que se relaciona com a Escuridão em busca da vida eterna por meio de rituais cruéis. “É uma história sobre a hereditariedade como maldição. Será que podemos fugir disso? Há também uma crítica política ao status quo, sobre a necessidade de se questionar o poder”, finaliza.

Matt Ruff transita pelo suspense, ficção científica e histórias em quadrinhos. Seu livro “Lovecraft Country” foi adaptado em 2020 pela HBO e se tornou um seriado da emissora. Lançada no Brasil como “Território Lovecraft”, a série utiliza os elementos de horror presentes na literatura do escritor americano H.P Lovecraft, para lidar com o racismo existente nos Estados Unidos da década de 1950. “Existem os elementos sobrenaturais, mas em ‘Território Lovecraft’ os maiores horrores são os do mundo real, o preconceito e o racismo, afinal, ele era um supremacista branco”, declara Ruff.

Sobre autores de sucesso do passado, cujas obras, com o tempo, se tornaram racistas e misóginas (como o caso do próprio H.P Lovecraft), Matt acredita ser possível reconhecer a qualidade de suas produções, mas sempre sendo verdadeiro, sincero. “A adaptação para a HBO me deixou muito feliz. Não foi uma cópia exata, alguns detalhes marcam diferenças, mas o elenco é incrível e todos os recursos necessários foram empregados.”

Josh Malerman é escritor, músico e produtor de cinema. “Caixa de pássaros” (Intrínseca), seu romance de estreia, foi adaptado para a Netflix como “Bird Box”, em 2018. Estrelado pela atriz Sandra Bullock, o longa foi assistido por quase 50 milhões de pessoas na semana de estreia.

“Malorie”, a sequência de “Caixa de Pássaros”, foi lançado em 2020 pela mesma editora e também terá adaptação para o cinema. Receptivo, Josh disse não conhecer a literatura de horror escrita por autores brasileiros: “Por favor, me enviem uma relação de obras para que eu possa conhecer e ler!”, pediu, bem-humorado.