O fenômeno George Orwell

Não é de hoje que George Orwell (1903-1950), cujo trabalho ficcional parece conversar diretamente com os tempos atuais, é um fenômeno de vendas. No primeiro dia de 2021, para impulsionar ainda mais esse quadro, a obra do britânico caiu em domínio público e está sendo reeditada, com diferentes traduções, por inúmeras editoras.

Se vivemos em um período de fake news, regimes governamentais que flertam com o autoritarismo e recordes de audiência no programa Big Brother Brasil, no qual o público faz as vezes do Grande Irmão imaginado por Orwell, o timing parece ter sido perfeito para que o trabalho do autor de clássicos como 1984 e A fazenda dos animais (ou A revolução dos bichos, dependendo da tradução) se tornasse ainda mais popular.

A obra do inglês George Orwell caiu em domínio público no início de 2021.

Mais atual do que nunca

Para Daniel Lameira, um dos criadores da Antofágica e editor da Aleph, a importância de Orwell cair em domínio público vai além do fato de estar movimentando o mercado editorial — mesmo que esta seja, claro, uma questão importante.

“É como se no ápice de um best-seller como Crepúsculo [de Stephenie Meyer], por exemplo, todas as editoras pudessem lançá-lo de um dia para o outro”, exemplifica Lameira. “É um caso sem comparação, que eu me lembre, na história do mercado: algo que está indo tão bem, com tantas pessoas procurando, e todas as editoras podem lançar suas versões.”

O editor ainda reflete que não é à toa que o autor tem sido tão badalado. “O trabalho dele dialoga com nossas ânsias atuais enquanto seres humanos e faz críticas pontuais à realidade político-social. Infelizmente, Orwell é mais atual do que nunca.”

Novas versões

São várias as novas traduções dos livros de Orwell. Uma das mudanças mais significativas está na opção que alguns tradutores fizeram pelo título A fazenda dos animais, substituindo o tradicional A revolução dos bichos — como nos casos de Paulo Henriques Britto e Denise Bottmann, ambos ouvidos pela Bienal 360º.

Denise explica que há um bom motivo para o novo título em português de Animal farm. “Adotei sistematicamente, seguindo o original, as traduções ‘bichos’ para beasts, ‘animais’ para animals e ‘criaturas silvestres’ (e, uma vez ou outra, ‘bichos do mato’) para wild creatures”, diz a curitibana, que assina a versão da L&PM.

Dentro da narrativa, afinal, ainda de acordo com a tradutora, a separação está bem marcada e deve ser respeitada — “por razões que, aliás, ficam muito claras durante a leitura do texto”. “Assim, não entendo como eu poderia falar em Fazenda dos bichos ou, ainda menos, em Revolução dos bichos”.

Paulo Henriques Britto, responsável pela versão da Companhia das Letras, também optou por A fazenda dos animais. Para o carioca, trata-se de um “livro de leitura fácil e agradável, ainda que em alguns momentos — como a cena da repressão à revolta das galinhas — a presença do horror no meio de uma história que imita o formato das narrativas infantis cause um choque, o que é sem dúvida proposital”.

A tradutora Denise Bottmann: “Toda e qualquer obra de qualquer época sempre pode encontrar ressonância junto a algum leitor”.

Temas contemporâneos

Ainda segundo Paulo Henriques, não há dúvida de que o escritor britânico tem algo a ensinar para o século 21. “Se o alvo imediato de Orwell neste livro [A fazenda dos animais] e em outros é o stalinismo, na verdade há um sentido mais amplo, o totalitarismo em geral”, conta.

“E há um outro sentido bem específico: o modo como o poder deturpa a linguagem, usa a linguagem para distorcer a realidade, criar uma ‘realidade’ alternativa”, completa.

Para Denise Bottmann, em um comentário mais abrangente, “toda e qualquer obra de qualquer época sempre pode encontrar ressonância junto a algum leitor”. E é bom lembrar que A fazenda dos animais “não é um manual didático”, de acordo com a tradutora, e não cabe à literatura o papel de ser pedagógica ou catártica.

Já na visão do editor Daniel Lameira, o maior ensinamento que Orwell deixa em seu trabalho poderia ser mais explorado em discussões. “A visão crítica sobre a concentração do poder na mão de poucas pessoas é algo que hoje é menos debatido do que outros elementos do mundo dele.”

“Mas os temas mais comumente discutidos”, continua, “são muito contemporâneos: a falsificação da verdade, invasão de privacidade, fake news, dados sendo compartilhados com grandes empresas, exemplifica.”

Paulo Henriques Britto: “Orwell ensaísta é um dos grandes do seu tempo e do seu idioma”.

O que ler?

“A meu ver o Orwell ficcionista é um escritor menor; já o Orwell ensaísta é um dos grandes do seu tempo e do seu idioma”, diz Paulo Henriques, que recomenda qualquer boa coletânea de ensaios do britânico para um leitor de primeira viagem — as coletâneas Ensaios, editada pela paulista Pé da Letra, e George Orwell: ensaios, da portuguesa 70 Edições, são dois volumes lançados em 2021.

“Há um ensaio longo sobre a passagem de Orwell por um colégio interno que preparava os alunos para a admissão numa public school — designação paradoxal das escolas particulares exclusivas que formam a elite inglesa — chamado Such, such were the joys”, especifica o tradutor, que também é ficcionista e lançou recentemente o livro de contos O castiçal florentino. “Talvez seja o que há de melhor em toda a obra de Orwell.”

Já para Denise Bottmann, que também gosta dos ensaios do inglês e considera A fazenda dos animais “simpático e divertido”, a obra de Orwell como um todo é “elemento integrante de uma bagagem cultural mínima”. “Não é necessário gostar ou desgostar, mas é bom que se leia, creio eu”, diz.

Na visão de Daniel Lameira, o clássico distópico é a melhor pedida. “1984 é uma obra essencial para quem quer conhecer o autor”, afirma. “Esse livro conseguiu reunir bem todos elementos que ele explora em outras obras.”

O editor ainda deixa duas outras recomendações com “pegada” mais autobiográfica: Lutando na Espanha, que narra a experiência do autor na Guerra Civil Espanhola, e Na pior em Paris e em Londres, que “conta as peripécias que ele passou vivendo como garçom, vendedor de sebo e divide um pouco a visão dele de mundo que ele teve nesses momentos”.