O fenômeno Arlindo, da @ilustralu

A ilustradora Luiza de Souza, que assina seus trabalhos como @ilustralu, é um fenômeno. Ela é criadora do personagem Arlindo, estrela da webcomic de mesmo nome que virou sucesso nas redes sociais a partir de 2018, quando “o discurso de ódio que rondou a campanha eleitoral”, conforme diz a autora. O acontecimento inspirou Luiza a mostrar como aquilo “era nocivo para as crianças”.

Essas tirinhas se tornaram um estudo para o que seria o Arlindo, que chegou ao Twitter e que acaba de virar livro impresso. Arlindo é um menino cheio de sonhos e vontade de encontrar seu lugar no mundo. Tudo o que quer é seguir sua vida de adolescente na cidadezinha de interior onde mora.

Ele é um garoto normal, que aluga filmes na locadora com as amigas todo sábado, sente o coração bater mais forte pelas primeiras paqueras, canta muito Sandy & Júnior no chuveiro, e ainda cuida da irmã mais nova e ajuda a mãe a fazer doces para vender.

Mas por mais que se esforce e dê o seu melhor, muita gente na cidade não o aceita — o que traz uma série de problemas na escola e até mesmo dentro de casa. Aos poucos, porém, ele vai perceber que vale a pena lutar para ser quem ele é, ainda mais quando tem tanta gente com quem contar.

“A gente tá muito acostumado com histórias de personagens LGBTQIA+ sendo unidimensionais, caricatas, com as histórias sempre girando em volta apenas da sexualidade, da bad ou dos estigmas sociais de cada letrinha”, diz Luiza.

“Queria contar a história de Arlindo e, para falar dele, eu precisava falar da cidade onde ele vive, da família, dos amigos, da rotina, dos amores, dos sonhos, das aflições. A gente não vive de uma coisa só e achei que isso dava uma história boa”, completa a artista, que assim como seu personagem também cresceu no interior do Rio Grande do Norte.

Sucesso na internet, o personagem Arlindo ganhou livro.

Origens

Luiza nasceu em Currais Novos, na região do Seridó do Rio Grande do Norte. Ela se mudou para a capital, Natal, em 2011, para cursar Comunicação, com habilitação em Publicidade, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Na cidade, trabalhava como produtora de conteúdo em mídia digital e social media em agências de publicidade antes de entrar para a vida de ilustradora.

Com o sucesso na internet, Luiza foi convidada a participar da FLIPOP, evento de literatura pop organizado pela editora Seguinte, do grupo Companhia das Letras. Com a pandemia, os eventos, que eram sempre no Sudeste do país, viraram online e a ilustradora, que ainda mora em Natal, pôde participar. Foi quando começou a se pensar em um livro de Luiza. “O pessoal da editora conheceu o Arlindo e a gente começou a pensar em como seria o impresso.”

Mesmo com o sucesso nas redes sociais, a artista diz que “o plano sempre foi publicar uma versão física da webcomic depois que ela terminasse”.

Logo de cara, no entanto, o que chamou a atenção foi a estratégia usada para lançar a obra. A editora resolveu apostar em um financiamento coletivo do livro, algo até então inédito entre os títulos publicados pelos selos da Companhia das Letras.

E o resultado não poderia ter sido mais exitoso. Em menos de 24h, a campanha bateu os 100% da meta. As tradicionais “recompensas” certamente ajudaram na venda: os brindes incluíam wallpapers, material extra em e-book, cupons de desconto na loja da autora, imã, postal, ecobags e jogos.

Mas o que a campanha demonstrou foi a popularidade do trabalho de Luiza junto ao que ela chama de “comunidade arlinder”.

“Foi lindo demais”, diz. “Acho que a maior diferença é o retorno imediato à história. Publicar uma webcomic é mais parecido com fazer uma novela do que com um livro, e acho que isso se deve muito ao ritmo da leitura.”

“Certamente foi um dos melhores desafios na publicação do impresso, entender onde a história precisava de respiros na leitura — que antes não existiam porque o leitor tinha dias preenchendo os espaços entre uma página e outra.”

Luiza de Souza: “Publicar uma webcomic é mais parecido com fazer uma novela do que com um livro, e acho que isso se deve muito ao ritmo da leitura”.

Identificação

Com um traço divertido, cores vibrantes e várias referências aos anos 2000, Arlindo “pegou” porque, segundo Luiza, “as pessoas tiveram chance de se enxergar em Arlindo como em um espelho”, diz. “Para algumas isso aconteceu pela primeira vez e acho que isso explica todo o carinho nessa comunidade que aconteceu junto com o quadrinho.”

E certamente, o tom autobiográfico e verdadeiro da série também ajudou Arlindo a alcançar o sucesso. “Sempre gostei das histórias mais cotidianas, jornadas de amadurecimento e relacionamentos”, relata Luiza, que se inspira também no trabalho dos quadrinistas Lu Cafaggi e Jefferson Costa, além da dupla Fits e Nicole Janér. Entre os “gringos”, ela diz que tem “certeza que o meu trabalho não seria o mesmo sem a produção de Noelle Stevenson, Jen Wang e Tillie Walden”.

E agora que Arlindo está consolidado, como será o futuro do personagem? “Arlindo nos quadrinhos fica por aí, não pretendo fazer sequências. Quero muito continuar contando histórias sobre esses cotidianos com sotaque, próximos da minha realidade, umas historinhas de amor, muitas ideias se desenrolando por aqui.”

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Arlindo
Ilustralu
Seguinte
200 págs.