O fascinante universo de Ernest Cline

As realidades imaginadas pela literatura fascinam leitores de todas as idades. A Bienal 360º já mostrou que, da pacata Valfenda (de Tolkien) à tenebrosa Gotham (lar do Batman e do Coringa), cidades fictícias estão incrustadas no imaginário popular.

Em 2011, guiado por sua própria obsessão pela cultura pop dos anos 1980, repleta de jogos nostálgicos e personagens icônicos, o norte-americano Ernest Cline criou seu próprio universo distópico — o do romance Jogador número um, adaptado para o cinema por Steven Spielberg em 2018 e que acaba de ganhar continuação, Jogador número dois.

A primeira obra, que se passa em 2045 e traz a realidade virtual de OASIS como uma forma de as pessoas escaparem da hostilidade do mundo real, tornou-se best-seller do The New York Times e ganhou os prêmios literários Prometheus e Alex, da Young Adult Library Services Association.

Ernest Cline, autor dos romances Jogador número um e Jogador número dois. Foto: Dan-Winters.

O enigma de OASIS

O planeta está cinza. Há escassez de recursos, a poluição chegou a níveis alarmantes e as pessoas encontram conforto somente na realidade virtual de OASIS, criada pelo excêntrico James Halliday, na qual a imaginação dita os limites do que é possível.

É dividido entre a miséria do real e as possibilidades do virtual que vive Wade Watts. A vida do protagonista, que já não era das melhores, se torna ainda mais difícil — e emocionante, também — quando Halliday morre e deixa, como sua última cartada, uma série de pistas escondidas dentro da plataforma virtual.

Para tentar decifrar o enigma é preciso grande conhecimento a respeito da cultura pop dos anos 1980, e é aí que a narrativa se torna dinâmica, criando o ambiente nostálgico pelo qual ficou conhecida. O jogo Dungeon & Dragons, a série japonesa Ultraman e o filme Godzilla vs. Mechagodzilla são algumas das referências.

Disputas de poder

Assim como milhões de pessoas ao redor do mundo, que vivem imersas na mistura de MMORPG (gênero de videogame) e sociedade alternativa de OASIS, Wade se torna um estudioso da cultura a partir da qual o enigma foi criado. Quem resolvê-lo, afinal, ganha não só reconhecimento mundial como controle do jogo e a fortuna deixada por Halliday.

Tratando-se de um prêmio tão alto, é claro que poderosos entrariam na Caçada — como é conhecida a busca pelas pistas. As barreiras entre o que se conhecia como realidade e a sociedade que habita OASIS são cada vez menos claras, e é natural que interesse aos velhos capitalistas — e seus soldados poderosos, os Sixers — a ideia de tomar controle daquilo que mais fascina a humanidade no momento.

Imersas na Caçada, forças opostas vão colidir em uma disputa que pode ter sérios desdobramentos na realidade palpável. Quanto mais Wade avança, sendo o primeiro a ter conquistas positivas na disputa, novos rivais — e velhos aliados, como Aech e Art3mis — entram em cena com maior relevância.

Cena do filme Jogador Nº 1, dirigido por Steven Spielberg.

Desdobramentos

No romance Jogador número dois, que chegou às prateleiras nacionais no final do ano passado, o leitor acompanha a vida de Wade após a conclusão da Caçada — poucos dias depois, aliás.

Vitorioso, o protagonista impediu que OASIS ficasse à mercê de Sorrento (vilão de Jogador número um) e sua tropa de Sixers. Agora, o buraco é ainda mais embaixo: o rapaz descobre uma tecnologia que pode tornar a realidade virtual ainda mais incrível, viciante e perigosa. Novamente, forças opostas entram em colisão.

Desta vez, o adversário está disposto a matar milhões de pessoas para conseguir pôr as mãos na descoberta de Wade. Cabe ao rapaz, mais uma vez, esforçar-se para que as coisas não saiam do controle — e o mundo não seja ainda mais arrasado por essa guerra cada vez mais real.

Realidade virtual

Apesar de o mundo cibernético imaginado por Ernest Cline ter o potencial de se tornar uma ameaça ao mundo real, o autor norte-americano não acredita que a internet seja uma ferramenta negativa para a juventude — isso no ano de 2011, pelo menos, quando foi entrevistado pelo HuffPost.

“A internet dá acesso ao conhecimento acumulado, às músicas e à arte de toda civilização”, diz Cline. “Isso permite que crianças ao redor do mundo possam conversar e colaborar umas com as outras. Sei que há algumas que só ficam mandando mensagens e vendo pornografia, mas acho que é uma minoria.”

Seja como for, uma década depois, a internet é indissociável do dia a dia — os óculos de realidade virtual e as diversas novas profissões ligadas exclusivamente ao online, por exemplo, como as de influenciadores digitais, estão aí para sugerir que a virtualização do mundo é um fato.

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Jogador número um
Ernest Cline
Trad.: Giu Alonso
Intrínseca
432 págs.

Jogador número dois
Ernest Cline
Trad.: Flora Pinheiro e Giu Alonso
Intrínseca
416 págs.