O encontro do teatro e cinema: cinco ótimos filmes baseados em peças

A recente adaptação cinematográfica de Macbeth, clássica peça de Shakespeare levada ao cinema por Joel Coen, é um bom ponto de partida para revisitar outras narrativas — nacionais e estrangeiras — que foram escritas para os palcos e também acabaram exibidas nas telonas.

Os filmes listados abaixo trazem, na direção ou elenco, nomes como Roman Polanski, Fernanda Montenegro, Christoph Waltz e Guel Arraes — diferentes gerações de profissionais dedicados à sétima arte. No caso da brasileira, trata-se da única do país a receber indicação ao Oscar, em 1999, por sua atuação em Central do Brasil (1998).

O auto da compadecida (2000)

O paraibano Ariano Suassuna, autor da peça que inspirou o filme homônimo do diretor Guel Arraes, é um dos nomes incontornáveis das letras brasileiras. O trabalho de Suassuna, que se destaca por evidenciar elementos clássicos da cultura do Nordeste, traz dois personagens que estão enraizados no imaginário popular do país: Chicó e João Grilo, interpretados no longa por Selton Mello e Matheus Nachtergaele, respectivamente. Além de vencer algumas das principais categorias do Grande Prêmio Cinema Brasil, o longa-metragem — que conta uma história de paixão, vingança e redenção, tendo inclusive a participação de Deus e do Diabo — deixou ao público algumas frases repetidas até hoje, como: “Não sei. Só sei que foi assim”.

Auto da compadecida
Ariano Suassuna
Nova Fronteira
208 págs.

Deus da carnificina (2011)

Kate Winslet em cena da adaptação cinematográfica.

A história, escrita para o teatro por Yasmina Reza e adaptada para o cinema por Roman Polanski, é simples: numa briga “boba” de escola, o filho de um casal acaba ferindo o de outro. A partir daí, os pais se encontram para resolver o problema. Supostamente civilizados, eles acabam por demonstrar sentimentos ruins que se escondem por trás das máscaras do cotidiano: muita ira e fragilidade. Na sala da casa em que se desenvolve a narrativa, a capa de um livro de arte, estampada por uma pintura de Francis Bacon, descreve dois pares de qualidades que explicam bem o comportamento dos dois casais: crueza e esplendor, caos e equilíbrio. O elenco do longa-metragem é um show à parte: Kate Winslet, Christoph Waltz, Jodie Foster e John C. Reilly.

O deus da carnificina
Yasmina Reza
Trad.: Marina Delfini
Âyiné
156 págs.

Édipo rei (1967)

O italiano Pier Paolo Psolini foi responsável por levar uma das peças gregas mais clássicas para o cinema. Na narrativa, escrita por Sófocles e cuja festejada tradução da Zahar é assinada pelo helenista Mário da Gama Kury, o herdeiro do trono de Corinto é vítima de uma profecia brutal: um dia, ele vai matar o pai e se casar com a mãe. O objetivo de Édipo passa a ser driblar o destino, mas as coisas não saem como esperado. No filme, Franco Citti interpreta o personagem principal e Silvana Mangano está na pele de Jocasta, mãe do protagonista. Além de ser uma das histórias mais conhecidas do mundo, influenciou Freud a criar uma das teorias mais controversas da psicanálise, a do Complexo de Édipo.

Édipo rei
Sófocles
Trad.: Mário da Gama Kury
Clássicos Zahar
128 págs.

Eles não usam black-tie (1981)

Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri contracenam no filme.

A peça, um expoente do chamado “teatro novo brasileiro”, se apoia em elementos urbanos para criar uma história que, apesar de trabalhar com personagens bem delimitados, demonstram diferentes camadas socioeconômicas do país, tendo como ponto de partida um movimento sindicalista. A adaptação de Leon Hirszman, vencedora de inúmeros prêmios internacionais e escolhida pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, traz Fernanda Montenegro no elenco. A atriz, única do país a ser indicada a um Oscar, interpreta Romana. E Gianfrancesco Guarnieri, autor da peça, faz o papel de Otávio.

Eles não usam black-tie
Gianfrancesco Guarnieri
Civilização Brasileira
112 págs.

Esperando Godot (2001)

Tudo é reduzido na peça mais conhecida do irlandês Samuel Beckett, que teve grande influência de James Joyce em sua prosa. Há apenas cinco personagens, cenários pouco desenvolvidos e uma história que, na verdade, está mais para uma anti-história — o que dá boa amostra de como funciona o chamado “teatro do absurdo”. Estragon e Vladimir encabeçam uma narrativa sobre nada, na qual o que se sobressaem são diálogos e situações absurdos, enquanto os dois estão esperando Godot. Que nunca chega. O norte-americano Michael Lindsay-Hogg é quem levou a peça para o cinema, em um filme homônimo do início do século 21. Barry McGovern e Johnny Murphy estrelam a adaptação “obscura”, pouco conhecida, mas que capta bem o clima quase insano imaginado por Beckett.

Esperando Godot
Samuel Beckett
Trad.: Fábio de Souza Andrade
Companhia das Letras
192 págs.