O curioso caso de David Foster Wallace e seu último livro, “O rei pálido”

Desafiar o leitor e ser cativante na mesma medida foram os objetivos do norte-americano David Foster Wallace (1962-2008) ao escrever seu romance mais conhecido, Graça infinita, um livro de 1.136 páginas (com 388 notas de rodapé), lançado no Brasil em 2014. Se você perdeu a chance de encarar o calhamaço, tem novidade na área. O rei pálido, obra póstuma e inacabada do autor, acaba de ganhar tradução.

“David decidiu escrever um romance sobre alguns dos temas mais difíceis do mundo — tristeza e tédio — e transformar essa exploração em nada menos que algo dramático, engraçado e comovente ao extremo”, anota Michael Pietsch, responsável por organizar a pilha de manuscritos (e anotações) que formaria O rei pálido, sobre o teor da obra.

A história, que ficou com pouco mais de 600 páginas na versão em português, se passa em um centro de processamento de declaração de imposto de renda da Receita Federal americana, em Illinois, no ano de 1985. No dia a dia, os personagens — um deles, recém-chegado ao local, se chama David Wallace — combatem “os demônios gigantescos e aterrorizadores da vida comum”, ainda conforme Pietsch.

David Foster Wallace, autor de O rei pálido.

O tom da obra

Uma história que se passa em uma “firma” que mexe com números não poderia deixar de trazer fórmulas, artigos e vários nomes de cargos. É o que acontece no começo de O rei pálido, em um estilo que fez a fama de David Foster Wallace: o de não “segurar a mão” na hora de soar difícil, muito menos de fazer descrições extensas de cenários, com a promessa que de que haverá uma recompensa ao leitor obstinado.

Ao mesmo tempo, uma prosa pesada e carregada dá espaço a esse tipo de questionamento: “Por falar nisso, no que é que você pensa quando se masturba?”, pergunta um personagem, em uma estratégia de trocar radicalmente de tom já conhecido de quem passou pelas páginas de Graça infinita — cujos cenários são um centro de reabilitação e uma escola que preparada jovens jogadores de tênis.

Para usar outro exemplo do humor meio sombrio que saía da imaginação de Wallace, há uma matéria jornalística, no meio da narrativa, que dá uma amostra de como o ambiente burocrático pode ser apático:

Frederick Blumquist, 53, que trabalhava como analista de declarações de renda naquela agência havia mais de 30 anos, sofreu um ataque cardíaco no escritório coletivo que dividia com vinte e cinco colegas no Centro Regional de Análise da agência na Self-Storage Parkway. Ele faleceu silenciosamente na terça-feira passada em sua mesa de trabalho, fato que só foi percebido no fim do expediente de sábado (…).

Jason Segel interpreta David Foster Wallace em O final da turnê.

David Foster Wallace: curiosidades e trajetória

  • Nasceu em Ithaca, Nova York, em 1962
  • Praticou esportes a sério, com destaque para tênis, quando mais jovem
  • Quis ser escritor depois de ler um conto de Donald Barthelme
  • Terminou seu primeiro livro, The broom of the system, aos 23 anos
  • Foi amigo de Jonathan Franzen e Don DeLillo
  • Tinha mestrado em escrita criativa e deu aulas na área
  • Lançou Graça infinita em 1996
  • Publicou os contos de Breves entrevistas com homens hediondos
  • Possui um trabalho jornalístico de tom único, estudado em universidades
  • Uma de suas reportagens mais famosas se chama “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer”
  • O longa-metragem O final da turnê (2015), de James Ponsoldt, retrata um tempo que um repórter da Rolling Stone passou ao lado de Foster Wallace
  • No filme, Jason Segel interpreta Wallace e Jesse Eisenberg é David Lipsky, o jornalista
  • Tomou remédio para depressão, o Nardil, por décadas
  • Resolveu largá-lo depois de se casar com Karen Green, em 2004, por achar que estava “curado”
  • Morreu em 2008, aos 46 anos

Por trás de “O rei pálido”

As páginas encontradas na garagem na qual David Foster Wallace trabalhava, e onde foi encontrado morto, somam milhares. Michael Pietsch, que já tinha trabalhado com o autor em Graça infinita, ficou a cargo de organizá-las.

Fora uma parte bem organizada, disposta na mesa do escritor, havia muitas anotações, diferentes versões, comentários sobre os personagens, comentários de Wallace para si mesmo e ideias para a trama.

  • [O livro deve ser] uma série de preparações para que as coisas aconteçam sem que nada jamais aconteça
  • Figuras centrais… Mas nunca os vemos, só seus auxiliares e aqueles que preparam o caminho deles
  • Algo grande ameaça acontecer sem de fato chegar a acontecer

Esses são alguns dos trechos reproduzidos por Pietsch em sua versão de O rei pálido, organizada a pedido de Karen Green, viúva de David, e Bonnie Nadell, sua agente literária, para que o leitor tenha ideia de como, de acordo com o editor, a mente atordoado de Wallace brincava com o mundo — que pode ser bem conhecida por meio do livro Um antídoto contra a solidão, lançado recentemente pela Âyiné, que reúne entrevistas do autor.

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O rei pálido
David Foster Wallace
Trad.: Caetano W. Galindo
Companhia das Letras
608 págs.