O amor em tempos de pandemia

A penúltima mesa a ser realizada na Estação Plural durante a XX Bienal do Livro Rio teve no centro da conversa um sentimento universal: o amor. Tema que para muitos pode ser considerado desgastado, mas que se encontra em constante renovação. Como definir o que sentimos quando desejamos ser desejados pelo outro? Ou outros? Poetas, autores e cronistas continuam debruçados sobre o tema. Na mesa “O amor e outros percalços”, os autores Renato Noguera, Natalia Timerman, Igor Pires e Krishna debatem a eterna busca pelo par ideal (ou pares) e a necessidade de compreendermos o amor para além do amor romântico. A mediação da mesa ficou por conta da roteirista, escritora e dramaturga Renata Correa.

Criador do coletivo “Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente” e autor de dois livros sobre o amor, Igor Pires acredita na frase criada pela psicanalista Ana Suy, que diz que ‘o amor é o que sustenta na diferença’.

“Porque quando falamos amor é um substantivo, mas amar é uma ação, uma prática cotidiana. E eu gosto de falar do amar, de como somos diferentes, de uma troca que não é igual. O amor é o que se sustenta apesar das diferenças.”

Renato falou sobre o poder desintoxicante do amor:

“Falar de amor é falar daquele afeto capaz de construir todas as emoções e todos os sentimentos. A gente não deixa de ter raiva, medo, vergonha, mas quando a gente se conecta com o amor é capaz de produzir e ter uma relação de bem-estar quase mágico. Com o amor é possível desintoxicar nossos afetos”, disse.

Para Natalia, que é médica psiquiatra, psicoterapeuta e escritora, o amor é o encontro de potência e da impotência de cada um:

“É amando que a gente conhece o outro e se conhece. É uma via de acesso ao outro e a nós mesmos”, afirmou a autora.

Já para a influencer Khrisna, o amor é um clichê:

“O amor é o que move e o que dá sentido à vida. A gente consegue pensar em momentos de felicidade sem amor, mas os momentos de amor têm sempre muita felicidade envolvida”, garantiu.

Muitas histórias de amor difíceis dão boas histórias, como Romeu e Julieta, por exemplo. Seguindo os participantes da mesa, por efeito da pandemia, muitas pessoas sentiram uma dificuldade coletiva de amar. Questionados sobre como manter a chama do amor acesa nas dificuldades, não só o amor romântico, os autores convidados disseram que a produção literária e as próprias relações foram impactadas.

Igor dividiu com o público que tinha acabado de terminar um relacionamento no início do distanciamento social, vivendo essa fase de maneira solitária.

“Foi muito difícil, mas eu me coloquei como meta escrever um livro durante dois meses. Assim surgiu “Todas as coisas que eu te escreveria se pudesse – Textos Cruéis Demais”, pois eu convivi com sentimentos muito pesados. Mais do que me salvar, eu queria documentar o que estava sentindo. Havia muita dúvida em relação ao que aconteceria como o mundo”, revela Igor.

Já Khrishna, além de escrever um livro, se apaixonou duas vezes em festas online. Natalia aproveitou o isolamento para aprofundar o amor pela literatura e, assim, se manter sonhando. Renato, por sua vez, maratonou séries, fez cursos online e manteve de maneira remota seu grupo terapêutico-político de masculinidade:

“É um grupo de homens que discutem machismo, problemas, impasses emocionais por conta de uma socialização que vem pela violência. E isso me ajudava a voltar ao convívio diário com minha esposa e filhas em meio a essa situação de crise mundial”, contou.