Novos nomes devem deixar Academia Brasileira de Letras mais pop

Desde o século 19 a Academia Brasileira de Letras não tinha tantas vagas abertas para novos integrantes quanto agora. Com a morte do professor e filósofo Tarcísio Padilha, no começo de setembro, há cinco cadeiras vagas na ABL.

Nos últimos dois anos, outros quatro acadêmicos morreram: o diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, o jornalista Murilo Melo Filho, o crítico literário Alfredo Bosi e o advogado e ex-vice presidente da República Marco Maciel.

Nas últimas semanas, vários nomes de prováveis candidatos apareceram na imprensa. A atriz Fernanda Montenegro já se inscreveu para a cadeira número 17, que foi de Affonso Arinos. O burburinho pré-eleição dá conta de que a artista está praticamente eleita.

O compositor Gilberto Gil e o jornalista e romancista Edney Silvestre também confirmaram o desejo de concorrer. Mas, segundo o acadêmico e poeta Antonio Carlos Secchin, a lista é extensa e conta, entre outros nomes, com o poeta Salgado Maranhão, o economista Eduardo Giannetti, o professor e político Gabriel Chalita, o romancista Godofredo de Oliveira Neto e o autor de literatura infantil Daniel Munduruku.

Mas figuras menos identificadas com a literatura também concorrem, como o médico Paulo Niemeyer Filho e o advogado Sergio Bermudes. O que é normal na dinâmica da Academia, pois o requisito para entrar instituição é também o da relevância cultural, independentemente do número — e gênero — de obras publicadas.

Secchin conta que essa grande oferta de vagas só ocorreu uma vez. Ainda no século 19, 30 fundadores se reuniram para eleger os que faltavam para compor o quadro. Assim, foram eleitos, de uma só vez, nada menos do que dez acadêmicos, para totalizar o montante dos primeiros 40 membros efetivos da ABL.

Gilberto Gil concorre a uma das vagas da ABL.

Sobre a ABL

  • Foi fundada por Machado de Assis e Lúcio de Mendonça, em 1897
  • Há 40 autores na instituição, que são conhecido como “imortais”
  • Eles recebem “jetons” (cerca de R$ 10 mil mensais) para participar das reuniões, às terças e quintas
  • Todos têm planos de saúde
  • Também têm o direito a ser enterrados no mausoléu do Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro
  • A Academia emprega mais de 120 funcionários
  • A sede fica no centro do Rio
  • A instituição vive da renda de aplicações e do aluguel de imóveis
  • Para entrar na ABL é preciso ser brasileiro e ter publicado pelo menos um livro
  • Desde o início da pandemia, está fechada; as reuniões são online

Contribuição

Sobre a contribuição dessas pessoas à ABL, caso eleitas, Secchin diz que “desde os primórdios a Academia acolhe tanto os literatos quanto os chamados ‘expoentes’, seguindo o modelo de sua fonte inspiradora, a Academia Francesa”.

“Com as pessoas reconhecidas não necessariamente como escritores, a contribuição, claro, estará mais vinculada às áreas de maior atuação dos acadêmicos eleitos”, completa Secchin, eleito em 2004 e autor de vasta obra poética e crítica.

Em agosto a ABL começou uma série de eventos da chamada Sessão da Saudade, quando oficialmente a cadeira de um membro que morreu é considerada vaga. As sessões pela primeira vez na história da Academia são virtuais.

No término de uma sessão dedicada à memória do acadêmico falecido, o presidente, Marco  Lucchesi, declara aberta a vaga. As inscrições se estendem por 30 dias, mais 60 dias de campanha. E, a seguir, a eleição.

O candidato deve enviar uma carta de apresentação, endereçada ao presidente da ABL, assinada e acompanhada da relação de suas obras publicadas. Esses são os passos formais, digamos, para cada candidato. Paralelamente a isso, quem pleiteia a vaga deve correr em busca de apoio: organiza jantares, toma chá com os acadêmicos e faz muitas ligações.

Antonio Carlos Secchin, eleito “imortal” em 2004 e autor de vasta obra poética e crítica.

ABL hoje

A Academia Brasileira de Letras é um grupo formado por 40 membros. Apesar de ter sido criada por Machado de Assis, hoje há apenas um autor negro na instituição, o pesquisador da língua portuguesa Domício Proença Filho. As mulheres, atualmente, são cinco. 

Essa falta de diversidade tem gerado críticas à instituição, que só em 1997, quando completou 100 anos, elegeu a primeira presidente mulher: a romancista carioca Nélida Piñon.

No ano passado, a autora mineira Conceição Evaristo, um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea e referência entre os autores negros, se candidatou a uma das vagas da instituição. Com uma espécie de anticandidatura, ela se recusou a fazer “campanha”. Teve apenas um voto. O eleito foi o cineasta Cacá Diegues, que sucedeu o também diretor de cinema Nelson Pereira dos Santos.

No entanto, nos últimos anos a ABL tem tentado se inserir nos debates mais urgentes do país. Realiza seminários com os autores da casa e intelectuais convidados. Recentemente inaugurou um podcast sobre a difusão da literatura brasileira no exterior. E há também iniciativas mais antigas, como as visitas guiadas (agora suspensas) e as publicações próprias da ABL, como a Revista Brasileira.

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