Novas edições reafirmam legado literário das irmãs Brontë

Na primeira metade do século 19, na Inglaterra, as irmãs Brontë publicaram uma literatura de ficção que ousou confrontar os valores opressivos da sociedade vitoriana. Não é à toa que Charlotte, Emily e Anne, que assinam os livros Jane Eyre (1847), O morro dos ventos uivantes (1847) e A inquilina de Wildfell Hall (1848), respectivamente, seguem festejadas até hoje — mais de 170 anos depois do lançamento de suas principais obras.

No ensaio “Charlotte Brontë”, que apesar de levar o nome de somente uma das irmãs também analisa o peso do trabalho de Emily, o inglês G. K. Chesterton (1874-1936) sugere que fazer parte dessa curiosa família vitoriana, natural do condado de Yorkshire, significava ser relacionada à loucura. A excentricidade das meninas, afinal, rendia muita fofoca nos veículos sensacionalistas.

O impacto do trabalho ficcional delas, no entanto, com certeza está acima de qualquer comentário maldoso que possa ter sido feito a respeito do que era visto como transgressões comportamentais, em um período em que mulheres viviam subjugadas por homens. Jane Eyre, por exemplo, foi acusado de “jacobinismo moral” pelo fato de a história sugerir maior igualdade entre os gêneros.

O melhor exemplo do nível de machismo da época é o fato de que elas publicaram as obras já citadas sob pseudônimos masculinos: Currer, Ellis e Acton Bell — que eram Charlotte, Emily e Anne, nesta ordem. Esse tipo de opressão também foi experimentada por outra escritora britânica incontornável: Mary Shelley (1797-1851), autora de Frankenstein (1818).

Charlotte Brontë por Evert A. Duyckinck, 1873.

Conheça as irmãs Brontë

Charlotte

  • Nasceu na aldeia de Thorton, em 1816, e foi criada em Haworth
  • Foi professora e preceptora
  • Publicou Jane Eyre, em 1847, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell
  • Em pouco meses, após o lançamento de Jane Eyre, tornou-se uma celebridade
  • Shirley (1849), Villette (1853) e O professor (1857), publicado postumamente, são seus outros romances completos
  • Morreu em 1855, aos 38 anos, sem que haja unanimidade dos biógrafos com relação à causa

Emily

  • Nasceu na aldeia de Thorton, em 1818, e também foi criada em Haworth
  • Publicou O morro dos ventos uivantes, em 1847, sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell
  • É possível que tenha começado a escrever outro romance, mas o manuscrito nunca foi encontrado
  • Apesar de ter estado gravemente doente por um bom tempo, recusou qualquer ajuda médica
  • Morreu em 1848, em decorrência da tuberculose

Anne

  • Nasceu em Thorton, assim como as irmãs, em 1820
  • Apesar de ser a menos conhecida das Brontë, foi a primeira a publicar ficção
  • Estreou na literatura com Agnes Grey, em 1847, sob o pseudônimo Acton Bell
  • Publicou A inquilina de Wildfell Hall, em 1849, com o mesmo pseudônimo
  • Trabalhou por grande parte de sua curta vida como governanta
  • Morreu aos 29 anos, em 1849, vítima da tuberculose

Jane Eyre
Charlotte Brontë

No que talvez seja o romance mais famoso e ambicioso das irmãs Brontë, a personagem que dá nome à obra é uma órfã que passa por diversas famílias até encontrar uma boa morada. A narrativa, que questionou os valores da época, foi tão cultuada pelo público quanto atacada por uma crítica que parecia avessa ao “perigo” revolucionário que o livro apresentava.

“O nervosismo manifestado pela imprensa conservadora em relação às demandas de liberdade pessoal apresentadas no romance, e sua afirmação de uma fome voraz não somente física, mas também intelectual e emocional, além do fato de sua belicosa protagonista desafiar autoridades em série, era a reação de uma elite ameaçada”, explica Stevie Davies na introdução à edição mais recente do livro.

Jane Eyre
Charlotte Brontë
Trad.: Fernanda Abreu
Penguin-Companhia
712 págs.

O morro dos ventos uivantes
Emily Brontë

O único livro publicado por Emily traz uma história de vingança, traição e amor. Pego desprevenido por uma tempestade, Lockwood busca abrigo em Wuthering Heighs — que é o título original do livro, em inglês. Nesse local, o personagem busca compreender a relação entre Heathcliff e os Earnshaw, que guarda alguns mistérios e uma paixão impossível.  

“Embora O morro dos ventos uivantes tenha chocado muitos dos seus primeiros leitores, ele também desfrutou de um sucesso modesto na época”, explica Pauline Nestor no texto de introdução do livro. “Em certa medida, sua ‘excelência intrínseca’ foi reconhecida por críticos contemporâneos.”

O morro dos ventos uivantes
Emily Brontë
Trad.: Julia Romeu
Penguin-Companhia
464 págs.

A inquilina de Wildfell Hall
Anne Brontë

O romance assinado pela irmã que menos viveu, apesar de ter sido a primeira delas a publicar literatura, acompanha a evolução do relacionamento entre Gilbert Markham e a misteriosa Helen Graham. Na história, Helen chega ao local que dá nome à obra somente com o filho, sem marido, e leva uma vida bem reservada. Ao longo da trama, descobre-se as situações lamentáveis de sua vida.

De acordo com Stevie Davis, na introdução do livro, o segundo romance de Anne “é um irmão forte e controverso de O morro dos ventos uivantes”. No ambiente imaginado pela autora, ainda segunda Davis, “surge uma mulher forte e independente, que ganha a vida como uma artista eloquente, vigorosa, anômala. Desprovida e deslocada, ela se torna um objeto misterioso de fascínio para a comunidade e para o narrador.”

A inquilina de Wildfell Hall
Anne Brontë
Trad.: Débora Landsberg
Penguin-Companhia
624 págs.